Simples assim. Comentários sobre filmes que já vi, bons ou ruins, recentes ou antigos. Um jeito de falar sobre cinema sem necessariamente ter alguém pra me ouvir.
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
Oscar 2019 - Quem ganha?
É chegada a hora de palpitar e cornetar os palpites dos outros e os prêmios da Academia! Como excepcionalmente eu vi muitos dos filmes indicados esse ano, vou dizer aqui quem eu queria e quem eu acho que ganha o careca da Academia.
O ano de 2018 não me pareceu uma safra particularmente prolífica em termos de grandes filmes e grandes atuações indicadas ao Oscar. Por outro lado, não há um favorito destacado, e devemos ter algumas surpresas ao longo da premiação. É tipo campeonato da série B: o nível não é lá essas coisas, mas pelo menos vai ter disputa.
Sem mais delongas, vamos aos palpites furados. Depois eu volto e atualizo com os vencedores, ou com alguma mudança se eu assistir mais algum filme.
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars VIII: The Last Jedi, 2017)
AVISO #1: Esse texto contém spoilers. Muitos spoilers. Não vou conseguir falar desse filme sem falar das cenas, das situações, dos caminhos para o próximo filme. Se você não viu e não quer saber o que acontece, não leia antes de ver!
AVISO #2: Eu não sou crítico de cinema e nem pretendo ser, esse blog é a minha opinião sobre as coisas. No caso de Star Wars, meu lado "fanboy" também se manifesta, obviamente, como vcs podem ter lido nos textos anteriores. Mas tentarei não ser o chato do "ai, que absurdo mudar a cor da sola do sapato do Almirante Ackbar, odiei" (a menos que estritamente necessário) ☺
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
Blade Runner 2049 (2017)
Há alguns anos, eu escrevi aqui no blog ESSE texto sobre Blade Runner, o original. Nele eu elencava várias razões pelas quais eu não tinha gostado do filme quando vi naquela época. Recentemente, assisti à versão original dele, com narração e final feliz, e relacionando as duas versões, consegui entender e gostar mais do filme. Mas o que de fato me fez gostar mesmo dele, finalmente, foi Blade Runner 2049.
O filme segue a história do original, 30 anos depois: os replicantes foram proibidos de serem fabricados em 2022, após executarem um atentado terrorista que criou um grande blecaute que durou dias e apagou praticamente todos os dados armazenados no planeta. Apenas alguns anos depois, o empresário Niander Wallace (Jared Leto), depois de desenvolver tecnologias de bioengenharia para acabar com uma grande fome, ficou bilionário, adquiriu a Tyrell Corporation (que fabricava os replicantes originais) e conseguiu autorização para voltar a fabricá-los. No entanto, os antigos replicantes, com poucas ferramentas de controle, continuam sendo perseguidos pelos famosos Blade Runners.
O filme é maravilhoso. Ele completa, engrandece e continua a história do primeiro, sendo ao mesmo tempo respeitoso e inovador. Leva os acontecimentos do primeiro por caminhos novos, mas que se entrelaçam com o passado. Mostra a mesma Los Angeles vazia e escura do primeiro filme, mas sob outro olhar. Mostra com calma, quase contemplação, a jornada de K (Ryan Gosling), um Blade Runner que descobre um segredo que pode causar uma guerra entre humanos e replicantes. Essa jornada visita novos e antigos lugares, e mostra como os destinos daqueles e de outros personagens voltam a colidir tantas décadas depois.
Boa parte do mérito vai para o diretor Dennis Villeneuve, de filmes como A Chegada e O Homem Duplicado. Assim como em seus filmes anteriores, ele consegue criar uma história intrincada, porém de forma ao mesmo tempo calma mas não didática demais. As 2 horas e 43 minutos de filme não apenas passam suaves, como você se pega torcendo para que o filme não acabe. Ele não está apenas contando uma história, está relembrando, criando e mostrando aquele universo para quem ficou 35 anos sem ter notícias dele. O cuidado com as referências e a evolução do ambiente é visível, e você se sente na Los Angeles daquele universo, mas 30 anos depois. Um exemplo são as cenas entre K e Joi (Ana de Armas), especialmente a linda cena de amor entre os dois.
Mas claro, a jornada também tem que valer a pena. E Villeneuve faz isso com muita competência. A história também se desfralda sem pressa, se explicando aos poucos, com paciência mas sem floreios. Tudo eventualmente acaba se encaixando e fazendo sentido, e se algo parece estranho em um momento, vai acabar sendo explicado depois. A motivação inicial se encaixa perfeitamente no primeiro filme, é surpreendente, e, na minha opinião, muito bem pensada. E se desenvolve muito bem, em camadas e desdobramentos que não deixam o ritmo do filme perder fôlego. Obviamente, não é um filme de ação, mas te deixa tenso praticamente o tempo todo, mesmo assim.
Outra coisa que vem muito forte do primeiro filme, embora sob outra ótica, é o questionamento do que é ser humano. Qual a diferença entre o humano "nascido" e o "construído"? Por que os últimos têm que se sujeitar às ordens e aos trabalhos rejeitados pelos primeiros? Por mais que agora seja mais fácil identificar um replicante (embora haja uma "releitura" do teste de Voight-Kampff), o conflito entre os humanos e os "sem-alma", mas muitas vezes mais humanos, replicantes sob o ponto de vista existencial continua guiando o filme, de formas diversas (e diferentes do primeiro filme).
As atuações eram um ponto que me preocupava um pouco. Não sou o mais fã de Ryan Gosling, peguei uma bronca razoável de Jared Leto, e tenho certo medo quando Harrison Ford entra no automático. Pois esse medo aqui é plenamente injustificado: os três estão em papéis completamente aderentes a essas características (Gosling é o Blade Runner que pouco demonstra emoções, Leto é o bilionário que se acha Deus, e Ford, bem, Ford é Deckard). Mas o destaque mesmo é o elenco de apoio, quase totalmente de mulheres: Robin Wright (a policial chefe de K), Ana de Armas, Sylvia Hoeks (impressionante como Luv, a assistente replicante de Wallace), Mackenzie Davis (uma prostituta que cresce na história, e tem talvez a cena mais bonita do filme) e Carla Juri (uma designer de lembranças para os replicantes) roubam a cena em papéis maiores ou menores, porém todas com extrema importância para a história e o universo. Até Edward James Olmos (Gaff) e Sean Young (Rachael) têm suas participações, aumentando mais ainda a sensação de continuidade com relação ao filme original.
O visual é um dos principais trunfos do filme. A fotografia busca inspiração no visual caótico, noturno e chuvoso do primeiro filme, porém cria novos cenários, expandindo aquele mundo para outros ambientes, outras pessoas, outros mundos ali dentro. E tudo se justifica. Não há o mundo ensolarado e bucólico do final do filme original, porém finalmente vemos que as ruas apertadas e visualmente poluídas não são os únicos lugares disponíveis. Assisti ao filme no IMAX, e recomendo bastante, pois traz uma amplitude e imersão que ajudam bastante a "entrar" no filme. O 3D é discreto mas não incomoda. A trilha sonora está à altura: Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch ajudam a criar a atmosfera, e trazem inclusive alguns toques do original de Vangelis, especialmente nos momentos mais conectados com o filme anterior. Confesso que senti um pouco de falta daqueles temas, mas o trabalho deles é impecável. E ainda tem Elvis, Sinatra, Righteous Brothers em momentos-chave.
Difícil apontar pontos negativos no filme. Alguns detalhes da história soam um pouco forçados, embora boa parte deles se explique mais adiante. Fora isso, fazia tempo que eu não saía do cinema tão maravilhado. Definiria Blade Runner 2049 como uma verdadeira experiência cinematográfica. Não é algo que se tem todo dia, mas é daqueles momentos que ficam na mente por muito tempo. Não se esvaem como lágrimas na chuva.
Nota: 9,4 (8o lugar na minha lista de melhores filmes)
sexta-feira, 9 de junho de 2017
Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013)
Outro dia, quando falei de Lucy, prometi que voltaria ao tema ficção, mas dessa vez para falar de bons filmes. Claro, já falei de alguns, como De Volta para o Futuro, Gravidade e O Império Contra-Ataca, mas sempre é bom destacar filmes inteligentes, especialmente aqueles que não ficaram tão conhecidos quado saíram.
Já esse Expresso do Amanhã (que nominho em português, hein?) nem é bem uma ficção científica. Está mais para um sub-gênero que eu adoro, o "futuro pós-apocalíptico". Baseado em uma HQ francesa, o filme se passa em 2031, em um mundo onde a humanidade, buscando acabar com o aquecimento global, acidentalmente congelou tudo. Os únicos sobreviventes estavam por acaso em um trem, auto-suficiente, que dá uma volta ao mundo por ano, e onde se criou um "micro-universo", com ricos, pobres, colheitas, prisões, desigualdades.
Curtis (Chris Evans, excelente) é o jovem líder dos moradores do fundo do trem, marginalizados e explorados pela elite dos vagões da frente. Periodicamente, crianças são sequestradas e levadas, e um desses sequestros desencadeia uma revolução, que busca tomar o poder no trem. Obviamente, nem tudo é o que parece, e nesse processo, Curtis conhecerá e aprenderá coisas que não imaginava. No elenco, também aparecem John Hurt, como o antigo líder e mentor de Curtis; Tilda Swinton, em atuação fantástica, é uma das líderes da elite; além de Ed Harris, Viola Davis, Alison Pill também em bons papéis.
Pessoalmente, eu sou fã tanto de histórias pós-apocalípticas (como o ótimo Filhos da Esperança), como de "micro-universos", onde alguma restrição faz com que o mundo, restrito a um espaço confinado, se desenvolva com suas próprias regras. Os 12 Macacos, Metro 2033 são excelentes exemplos. Este Expresso da Amanhã é outro que vale muito a pena.
Além da premissa inteligente, a história se desenvolve de maneira muito interessante. Aqui sim, o conceito de suspensão de descrença funciona bem. Se você acredita que um trem é o último bastião de sobrevivência se movendo pelo mundo sem parar há 19 anos, e que, como foi construído para ser autossustentável, consegue manter a vida de quem está dentro dele, você está pronto para gostar do filme. Porque é um excelente estudo de sociedade, além de uma experiência visual e narrativa surpreendente. Sem pressa, o diretor Joon-Ho Bong vai mostrando os detalhes do funcionamento tanto do trem como da sociedade, e deixando claras as escolhas e sacrifícios que são feitos por cada um. O filme, uma produção americana e européia com um diretor sul-coreano, aproveita muito bem todas essas heranças: a ação e visual dos filmes americanos, o choque social dos filmes europeus, e a estranheza e finais inesperados dos filmes coreanos.
Portanto, se você passou pelo filme na lista do Netflix, se interessou e colocou na lista, ou mesmo o deixou perdido no meio daquela imensidão, pense novamente: atrás de uma cara de ficção genérica com o carinha do Capitão América pode estar uma grata surpresa.
Nota: 8,5 (42o. colocado na minha lista de filmes favoritos)
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016)
Eu odeio remakes, em geral pouco criativos e caça-níqueis que capitalizam um filme original. Eu odiei o novo Karate Kid. Eu odiei o novo A Fantástica Fábrica de Chocolate. Eu odiei quando anunciaram esse remake de um dos filmes oitentistas que mais gosto. Eu odeio a Melissa McCarthy como comediante. Eu odiei os trailers que foram sendo divulgados. Eu absolutamente odiei a versão nova da música-tema, provavelmente uma das mais emblemáticas da história do cinema. Eu fui para o cinema pronto pra odiar o filme com mais propriedade, e dava tão pouco por ele que não me incomodei quando a filha pediu para ver a versão dublada.
Por isso digo com toda propriedade: como é bom de vez em quando estar completamente, inapelavelmente, irremediavelmente ERRADO.
Eu adorei a história, que ao mesmo tempo homenageia mas se descola da original. O básico está lá: cientistas sem muito crédito que se juntam para combater uma ameaça sobrenatural crescente que ameaça a cidade de Nova York. Mas a formação e evolução do time, a origem da ameaça, a trajetória do grupo obviamente mudaram para fazer mais sentido na transposição da década de 80 para o mundo de 30 anos depois. E mudaram com bastante coerência. A internet está lá, mas não tira o espaço dos velhos traços em mapas. As tecnologias são novas, mas as armas têm o mesmo jeitão. E mesmo que, assim como no original, você já saiba tudo que vai acontecer, torce, vibra e se diverte do mesmo jeito.
Eu adorei as referências. Em época de anos 80 em alta, com obras como Stranger Things, e em se tratando de algo tão cult como Caça-Fantasmas, seria fácil exagerar na mão nas referências ao filme original, engessando a história ou tornando-a algo sem sentido para a nova geração. As referências estão lá (o logo, o carro, o prédio, uma participação sensacional do monstro de marshmallow, entre muitos outros), mas nota-se uma deferência ao material antigo sem que isso se torne um problema. O fã antigo vai adorar, vai ficar procurando detalhes, mas a história corre sem parar para mostrar "olha aqui, lembra disso?" o tempo todo. Ponto para os roteiristas.
Eu adorei o elenco. Um dos pontos fortes do filme original era o equilíbrio entre os componentes da equipe, sem que um se destacasse muito mais que os demais (embora Bill Murray tivesse alguma profundidade em sua história, especialmente devido à personagem de Sigourney Weaver). Como eu disse ali em cima, não sou fã da Melissa McCarthy, e tinha medo de que as demais servissem apenas como escada para a "atriz principal". Não podia estar mais longe da verdade: todas têm seu espaço, mandam bem, e mesmo Melissa não me incomodou como faz em Mike and Molly, por exemplo. Destaque para Kate McKinnon, como a insana e extremamente produtiva Holtzmann, e Chris Hemsworth, claramente se divertindo no papel do tapadíssimo assistente Kevin.
Eu adorei as participações especiais. Sim, eles estão todos lá. Até Bill Murray (obviamente, com a sentida ausência do saudoso Harold Ramis). Cada um dos atores que fizeram os Caça-Fantasmas originais faz sua ponta nesse filme. Sigourney Weaver também. Até o Geléia (que, pasmem, tem papel importante na história também). Adorei o papel de Ernie Hudson, que rouba a cena por 30 segundos. Mais do que a importância dos papeis em si, o legal é a chancela de "vão lá, gente, bom trabalho, estamos aqui passando o bastão e desejando boa sorte". Ah, sim, tem Ozzy Osbourne também :-)
Eu adorei o filme, em resumo. Depois de toda a polêmica do elenco feminino (que não passa batida no filme, com algumas boas piadas muito bem colocadas lembrando que elas são mulheres e não estão nem aí para o que alguém pensa sobre isso. Aliás, o próprio Kevin, tão criticado, não deixa de ser uma sátira caricatural e muito bem sacada do papel da secretária burra e gostosa), fica fácil transformar esse remake em uma discussão sobre feminismo vs. machismo, ou sobre a necessidade do cinema de tentar mostrar novamente todas as suas boas histórias. Não caia nessa. O filme obviamente não é perfeito, as coisas acontecem muito fácil e nem sempre é fácil seguir a lógica da história. Mas tem sido tão difícil sentar no cinema e ter uma diversão honesta que esse Caça-Fantasmas vale muito a pena por isso. Foi ótimo ver minha filha sair empolgada com um sorriso enorme no rosto ao final da sessão. Assim como eu fiz, com a idade dela, no filme original. E é uma sensação fantástica.
Nota: 7,5/10
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
[Top 10] Coisas que dá pra salvar na trilogia nova de Star Wars
Não se fala em outra coisa no "mundo pop" a não ser Star Wars. Filme novo, a volta dos personagens clássicos, finalmente a continuação da história, spoilers, teorias, conjecturas... E a velha discussão de porque a trilogia nova (A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith) é tão horrível, e só o Samir gosta dela. Assim, já que guardar rancor é o caminho para o Lado Negro da Força, dou o braço a torcer nesse post, relembrando 10 coisas da Nova Trilogia que, digamos, não são um lixo completo (inclusive o próprio Samir me ajudou, já que eu estava há meses pensando, sem conseguir juntar 10 coisas):
(atenção: texto com spoilers dos filmes I a VI)
10 - O paralelo entre as histórias de Luke e Anakin Skywalker
Ao final de Retorno de Jedi, o Imperador e Darth Vader querem de todo jeito convencer Luke a juntar-se ao Lado Negro da Força para salvar aqueles que ama. De certa maneira, você nunca de fato acredita que isso vai acontecer, e, previsivelmente, ele não apenas não se converte como ajuda seu pai a se redimir. No entanto, por mais mal escrita e atuada que seja, a queda de Anakin para o Lado Negro em Vingança dos Sith mostra que aquilo já aconteceu antes, por razões muito parecidas, e que o fato de serem pai e filho torna isso algo a se temer, de fato. Por mais que você saiba que Luke não vá para o lado do Mal.
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| Tá calor, né? E a Dilma? |
9 - Darth Maul
Eu nem acho Ameaça Fantasma o pior filme dos três (pra mim é Ataque dos Clones) mas com certeza é o mais dispensável (esse sensacional post mostra o porquê, e de quebra sugere uma ordem excelente para ver a saga toda). Se bem analisado, nada do que acontece ali tem real importância para os rumos da história. Mas para mim, é lá que está o melhor vilão de toda a trilogia: Darth Maul, aquele que é tão ruim que é mau com u e mal com L ao mesmo tempo. Assustador, tinha um sabre de luz maneiro e passava aquela sensação de algo sinistro que um vilão de Star Wars precisa. Tivesse sobrevivido, com certeza faria melhor papel que Christopher Lee (para mim, totalmente deslocado) e General Grievous (ok, ele era maneiro em Clone Wars, mas nos filmes? Afff).
8 - Trouxe Star Wars de volta e possibilitou novas criações
Muito pouco se falava de Star Wars na década de 1990. Em 1997, o lançamento da trilogia clássica remasterizada (Han atirou primeiro!) começou a trazer de volta a saga ao mundo, mas, como esperado, foi o lançamento de novos filmes que fez com que Star Wars voltasse a ser assunto. E, mesmo não tendo sido bons, esses filmes possibilitaram também o surgimento de coisas maneiras, como Clone Wars, Lego Star Wars e Star Wars: Rebels.
7 - Mais informações sobre o passado dos personagens
Nerds são a maioria do público-alvo de Star Wars. E, como nerds que são, querem compulsivamente mais informações sobre aquilo que os interessa. Isso a nova trilogia traz. Mesmo que as informações sejam contraditórias, desnecessárias, revoltantes ou decepcionantes, bem, elas estão lá.
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| Mas eu não precisava saber que Anakin foi um moleque mala que gritava IIIPPIII! |
6 - O Surgimento de Darth Vader
Desde o dia em que os filmes novos foram anunciados, um momento era muito esperado pelos fãs: a transformação final da pessoa Anakin Skywalker no vilão Darth Vader. E, apesar de alguns detalhes (o NOOOOOO, por exemplo), essa foi uma cena que eu gostei. Lembro de mal respirar enquanto Darth Sidious pegava o Anakin semi-morto e o colocava na icônica armadura. Especialmente a tomada "em primeira pessoa", com a máscara sendo colocada nele pela primeira vez, e seguida da famosa respiração, convenhamos, foi foda.
5 - "Fear is the path to the Dark Side"
A nova trilogia de Star Wars surgiu e se desenvolveu na era da internet. E, como tal, não poderia deixar de gerar memes, piadas, sátiras, e homenagens. Para mim, a mais versátil de todas é a cena em que o Conselho Jedi entrevista o pequeno Anakin para definir se ele será treinado. A fala de Yoda se tornou um clássico instantâneo ("Fear is the path to the Dark Side. Fear leads to anger, anger leads to hate, hate leads to suffering."):
Já no longínquo ano de 1999, pré-internet, Lisa Kudrow (a Phoebe de Friends), estrelou uma sátira a essa cena no MTV Movie Awards (juntando com outro meme pré-histórico, o do Kevin Bacon).
4 - Trilha Sonora
Um fato da vida: John Williams consegue tornar até um filme iraniano interessante, apenas com a trilha sonora. Na nova trilogia não seria diferente. Claro que as músicas da trilogia clássica (especialmente a Marcha Imperial) são, bem, clássicas, mas o trabalho dele nos filmes novos é tão bom quanto, talvez melhor em alguns momentos. A luta de Qui-Gon Jinn e Obi-Wan contra Darth Maul ganha muita dramaticidade ao som de Duel of the Fates:
3 - Trazer Star Wars para uma nova geração
Dezesseis anos se passaram entre Retorno de Jedi e Ameaça Fantasma. Assim como a nossa geração descobriu Star Wars quando criança e trouxe isso consigo, toda uma nova geração, que hoje está nos 20 e poucos anos, conheceu e se apaixonou pela saga a partir dos filmes novos. Se um deles voltou e curtiu a trilogia clássica também, já compensa tudo o que passamos ao nos decepcionar.
2 - O Duelo entre Anakin e Obi-Wan
Outro daqueles momentos que todo mundo que viu a trilogia original sempre imaginava era o duelo final entre Anakin e Obi-Wan. Mestre e discípulo forçados a lutar por tomarem posições contrárias em um conflito. Anakin derrotado, tendo sua conversão completada ao passar por um sofrimento indescritível ("na lava? como foi isso?", pensávamos nós), e tendo que viver para sempre em uma assustadora armadura de suporte de vida, buscando dominar definitivamente a galáxia. E, apesar de alguns detalhes ("Give up, Anakin, I have the higher ground"? Jura?), a luta não decepciona, podendo ser considerada um dos melhores (talvez o melhor) momento dos 3 filmes:
1 - Jar Jar BinksNÃO, VANZO, SAI DAÍ, JÁ DISSE QUE SÓ VOCÊ GOSTA DELE!!!
Peço desculpas pela interrupção.
1 - A certeza de que a trilogia original é algo único e especial
George Lucas sempre disse que sua história tinha nove partes, e que a trilogia original eram os episódios IV, V e VI dessa história. Ao anunciar os filmes I, II e III, nos encheu de esperança de finalmente termos uma grande história completa. Porém, mesmo com sua presença e direção (ou, na verdade, por causa dele), a nova trilogia foi uma decepção. O que nos mostra que é muito difícil replicar as condições que tornam um filme, ou uma saga, algo memorável. É torcer para que, a partir de amanhã, essas condições estejam novamente reunidas em O Despertar da Força.
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| E sim, finalmente eles estarão de volta. |
terça-feira, 21 de outubro de 2014
De Volta para o Futuro Parte II (Back to the Future Part II, 1989)
Hoje, dia 21 de outubro de 2014, estamos a exatamente um ano do dia em que Marty McFly (acompanhado do Doc Brown e de sua namorada) chega no "futuro" para tentar salvar seu filho da prisão por um assalto. Sim, aquele futuro "distante", com carros voadores, hoverboards, e hologramas de tubarão está a apenas 12 meses de se tornar realidade. Será?
Mas, por mais que todos estejamos ansiosos com a possibilidade de andar de skate sem rodinhas, o que eu queria mesmo era aproveitar essa "comemoração" e falar do segundo filme da melhor trilogia que o cinema já viu, um dos poucos filmes "do meio" que supera os demais (de cabeça, lembro também de O Império Contra-Ataca). E um dos meus favoritos de todos os tempos.
Para mim, o filme é uma aula de "como fazer uma continuação". Repete o que deu certo no primeiro (mas sem exageros, como Se Beber, Não Case ou até alguns episódios da série Rocky) e constrói algo maior em cima disso. Agora que o espectador já entendeu as "regras" da viagem no tempo neste universo, roteirista e diretor as subvertem, escalando os problemas e transformando o filme em um vai e volta temporal que beira o caos, incluindo realidades alternativas, encontros entre diferentes versões do mesmo personagem, e até uma volta a 1955, onde tudo começou.
O principal fator de sucesso do filme é Robert Zemeckis. O interessante é que, segundo ele, não havia intenção de fazer uma continuação, e o final do primeiro filme indo para o futuro era apenas uma piada. No entanto, ao assumir o "desafio", ele soube ao mesmo tempo construir uma história interessante, com vários paralelos com o roteiro do primeiro filme, e fugiu da armadilha de "prever" o futuro criando uma 2015 caricata, estereotipada e muito divertida, sem relação nenhuma com a realidade.
Essa 2015 do filme foi um deleite para as crianças nerds da década de 80: hologramas, veículos voadores, aparelhos gigantes de TV com vários canais simultâneos, e até um óculos de informação pessoal que lembra bem o Google Glass. Mas, claro, o filme é muito mais do que isso. A história, como comentei, potencializa o efeito "fazer besteira no passado afeta o futuro": ao ir para 2015 evitar que seu filho seja preso, Marty McFly sem querer possibilita ao velho Biff encontrar seu eu do passado e entregar para ele um almanaque de resultados esportivos, possibilitando que ele fique milionário e domine Hill Valley. Para evitar que isso aconteça, ele e Doc Brown devem voltar à mesma noite de 1955 e evitar que o jovem Biff receba o almanaque, restaurando assim a 1985 original.
Com isso, novamente, apesar do "futuro" no nome, boa parte do filme se passa em 1955, dando ao espectador a chance de entender e até rever sob outra perspectiva alguns dos acontecimentos do primeiro filme, especialmente o Baile do Encanto Submarino, onde Marty havia conseguido reunir seus pais e garantir sua existência.
No mais, atuação, trilha sonora, tudo se mantém ou evolui em relação ao primeiro filme. No entanto, o roteiro mais intrincado, as piadas recorrentes e o tal "to be concluded..." no final (chamando para o inferior, porém ainda sensacional terceiro filme) fazem com que esse seja um pouco superior ao primeiro (algo muito difícil, diga-se). Agora é esperar um ano e ver se Marty McFly aparece com o DeLorean nos céus...
Nota: 9,8 (2o. colocado na minha lista de filmes favoritos)
(Link para o texto sobre o primeiro filme aqui)
terça-feira, 4 de março de 2014
Gravidade (Gravity, 2013)
"Espaço, a fronteira final". Já na década de 60, com Star Trek, e mesmo antes disso, em Viagem à Lua, o espaço sempre fascinou o cinema, como morada do desconhecido, fonte de ideias novas, e como destino para a eterna busca do homem por novas fronteiras, povos, e até de entedimento sobre si mesmo. Talvez o maior exemplo disso seja 2001: Uma Odisséia no Espaço, onde a exploração do infinito pelo homem o leva a descobertas que o fazem entender e questionar a própria existência.
Com o tempo, e com a "corrida espacial" se tornando mais comum e trazendo cada vez menos novidades na vida real, o espaço em si foi aos poucos deixando de se tornar o protagonista das histórias, passando a um papel secundário, por exemplo, em filmes sobre extraterrestres, com poucas exceções, como o excelente "Contato". O homem cada vez menos olhava para cima em busca do desconhecido.
Esse é, para mim, um dos primeiros méritos de "Gravidade": o espaço talvez seja seu principal personagem. Mas não da maneira usual, como fonte de descoberta, conhecimento ou até destruição, mas sim como o "vilão" do filme. É de fato um paradoxo, o infinito como uma prisão, o local onde a existência humana é mais frágil.
Sarah (Sandra Bullock) não é uma habitante usual desse ambiente. Ela, que não é astronauta, está como técnica em um módulo espacial, fazendo alguns consertos, quando um acidente com um satélite russo lança destroços que acabam destruindo o módulo, deixando como sobreviventes apenas ela e o comandante da missão, o veterano Matt (George Clooney), que estavam do lado de fora. A partir daí, o filme conta a história desses dois personagens e sua luta para sobreviver com pouco oxigênio e chegar a uma estação de onde possam voltar à Terra, enquanto se protegem das ameaças inesperadas que encontram na jornada.
A história em si não tem grandes inovações, além do ambiente em que se passa. É a tradicional história de superação de alguém fora de seu ambiente, que luta contra ele para garantir sua sobrevivência. A tal jornada do herói sem tirar nem pôr. Mesmo as atuações não emocionam: George Clooney está em uma de suas atuações burocráticas (felizmente ainda não são todas assim), e Sandra Bullock, apesar de vitórias e indicações no Oscar, não tem essa qualidade toda para segurar o filme sozinha em termos de atuação.
Mas de fato o grande destaque nesse filme é a parte "técnica": trilha sonora (jogando com o vácuo x música, na brincadeira do personagem do George Clooney de colocar som nos auto-falantes), som (e ausência dele), e principalmente na fotografia. A imensidão do espaço é extremamente bem representada, mas não só isso. Os takes com o ponto de vista dos personagens são muito interessantes - a primeira cena do acidente, onde a câmera acompanha Sarah girando passa uma sensação de agonia ao imaginarmos que ela não vai conseguir parar (lembre-se da inércia ao flutuar no espaço). Além disso, algumas tomadas bastante longas, especialmente na fuga de Sarah na estação chinesa, tornam o filme muito interessante tecnicamente, e, assim como Avatar, dá um passo adiante em termos de recursos para contar uma história no cinema.
Quem me acompanha (deve ter uns 2 ou 3...), sabe o quanto eu valorizo um bom roteiro, o quanto para mim fotografia, trilha, atores, tudo isso são ferramentas para se contar uma boa história. E que, sem um bom roteiro, o resto é desnecessário. Não acho que Gravidade chegue a esse ponto. É uma boa história, interessante, e tornada muito mais interessante com uma nova abordagem cinematográfica. E, resgatando o que eu disse lá em cima, transforma a imensidão na maior prisão, e isso também é agoniante. Pena que já saiu do cinema, especialmente do IMAX. É um dos poucos filmes que justifica o "exagero". E são poucos filmes que trazem algo novo, algo que te instiga a pensar no que pode ser feito a partir daí.
Nota: 8,1 (60o. na minha lista de filmes favoritos)
[abaixo, só para quem já viu o filme]
PS: Há teorias na internet que dão conta que Sarah morre no momento que desliga o oxigênio do módulo chinês, e que a visão que ela tem de Matt não é suficiente para que ela se salve, sendo apenas efeito da hipoxia (ausência de oxigênio). Acho um pouco forçado, mas só o fato de permitir esse tipo de leitura alternativa mostra que o filme tem também seus méritos de roteiro, não apenas de esmero técnico.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Ela (Her, 2013)
O que é a consciência? Ter consciência nos faz ser humanos? Ser mais evoluídos? O que acontece se outro ser passa a ter consciência? E se esse ser for construído por nós?
Essas não são questões novas, do ponto de vista filosófico. E obviamente já foram abordadas no cinema, e inclusive neste blog, quando falei sobre Blade Runner. E esses são algumas das questões que vêm a mente ao assistir Her, o filme dirigido por Spike Jonze que concorre ao Oscar 2014.
Em um futuro próximo, em Los Angeles, Theodore (Joaquin Phoenix) é um homem recém-separado que vive sozinho e trabalha escrevendo cartas de amor para outras pessoas. Depois de adquirir um novo sistema operacional para seu celular, construído com inteligência artificial, passa a se relacionar com ele (voz de Scarlett Johansson), até que acaba se apaixonando.
Não é novidade que Jonze goste de abordar em seus filmes universos ligeiramente distorcidos, já tendo feito isso, por exemplo, em Quero Ser John Malkovich e Adaptação. No entanto, a primeira diferença desse filme é a "intensidade" dessa distorção. Não apenas a existência de tal sistema soa natural, como as reações de todos a esse fato são perfeitamente compreensíveis. Esse é o primeiro mérito do filme: rapidamente estabelece as condições da história e passa a falar sobre suas conseqüências.
E é de fato muito fácil acreditar no relacionamento entre Theodore e Samantha (o nome do sistema, que se auto-batiza quando Theodore pergunta como se chama). Inicialmente realizando de maneira eficiente atividades como gerenciamento de contatos, agenda e emails, Samantha aos poucos vai ganhando a simpatia de Theodore, tornando-se amiga, confidente, e por fim, namorada.
A partir daí, temos um filme sobre um relacionamento. Mas focado especialmente nas assimetrias: em uma posição relativamente cômoda como "líder" do casal, já que Samantha segue suas ordens, pode ser ligada e desligada a vontade, e não é uma pessoa que possa ser magoada, Theodore pensa ter encontrado a companhia ideal após a mágoa do fim de seu casamento. O que vem depois é, por incrível que pareça, um dos mais "reais" retratos sobre o amor do cinema recente.
Joaquin Phoenix está muito bem no papel, compondo um Theodore sempre meio soturno, mas fugindo da tentação do "pobre coitado abandonado". Ao mesmo tempo busca um relacionamento, encontra a oportunidade de algo bom, mas luta com suas próprias inseguranças e o medo da opinião dos outros. Tem seus momentos de solidão, os quais busca aplacar com sexo via internet ou videogame, triste mas não depressivo. Já Scarlett Johansson está impressionante como a voz de Samantha, ainda mais quando se descobre que o filme foi feito com Samantha Morton nesse papel, e Jonze decidiu trocá-la por Scarlett já durante a edição. Destaque também para a trilha sonora e fotografia, que compõem muito bem o "ambiente" do filme, dando um toque retrô apesar do tema futurista. Por sinal, a fotografia "vintage" dá bem esse tom de uma história que se passa no futuro, porém com um assunto praticamente tão antigo quanto o cinema.
Mas, claro, o maior mérito do filme é o roteiro, que aborda de maneira orgânica e natural assuntos dos mais diversos: amor, mágoa, amizade, expectativas, diferenças. E tudo de uma maneira extremamente sensível, simples mas sem ofender a inteligência do espectador, e preparando uma evolução da história que, se não é surpreendente no nível O Sexto Sentido, deixa ainda mais perguntas em aberto e assuntos para refletir. Não me emocionei a ponto de chorar como algumas pessoas me disseram, mas de fato não é um filme que sai da cabeça tão cedo. Se não é "material de Oscar" e provavelmente não vai ganhar estatuetas a rodo, como diria o outro, azar do Oscar.
Nota: 9,1 (14o. colocado na minha lista de filmes favoritos)
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004)
Vale a pena apagar parte de sua vida para se livrar de uma experiência traumática? Até que ponto funciona tentarmos de novo uma situação que nos deixou na pior? As conexões que fazemos em nossas vidas são mais fortes que nossa vontade? O que pode ser considerado traumático e o que é apenas nossa vontade de não querer sofrer?
Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças aborda todas essas perguntas (e muitas mais) em um roteiro absolutamente brilhante de Michel Gondry e Charlie Kaufman (que também escreveu Adaptação e de quem já falei em Quero Ser John Malkovich). No filme, Joel (Jim Carrey), após muitas brigas com a namorada Clementine (Kate Winslet), descobre que ela se submeteu a um tratamento que visa apagá-lo de sua memória. Ou seja, ela preferiu passar o resto da vida sem saber mais que ele existia ou tudo o que passaram juntos. Com raiva, ele decide fazer o mesmo.
Para mim, o roteiro é o ponto alto do filme. A maneira de contar a história, que acaba se passando em boa parte na mente de Joel durante o apagamento de suas memórias, é sensacional. Durante o processo, ele se arrepende do que pediu, e seu inconsciente vai percorrendo as memórias, das mais recentes às mais antigas, tentando salvar alguma parte delas, junto com uma "Clementine" que ao mesmo tempo que o ajuda, vai relembrando as coisas boas que tiveram. As cenas de Joel e Clementine interagindo com suas memórias enquanto elas vão se desfazendo, tentando entender e "mudar" o que aconteceu ao mesmo tempo em que tudo vai sumindo são o ponto alto do filme, não apenas muito bem escritas como com soluções visuais inteligentes (e muito pouco CGI).
Mas não apenas as memórias de Joel são interessantes, mas muitos outros conceitos do filme: a própria empresa Lacuna Inc., que faz o procedimento, gera situações interessantes: a secretária que teve um caso com o chefe e acabou tendo a memória apagada quando a mulher dele descobriu, o técnico que aproveita a entrevista e os objetos de Joel para conquistar Clementine, as pessoas que "viciam" no procedimento...
Tecnicamente, o filme também é bastante bem-feito. Desde a fotografia e efeitos visuais, como comentei, até a trilha sonora (que interage bastante com o filme), mas principalmente as atuações. Não é de se estranhar Kate Winslet (na minha opinião uma das melhores atrizes jovens) tendo uma excelente atuação, mas é Jim Carrey que se destaca aqui. Mantendo sua versatilidade sem cair no humor careteiro que apresenta em tantos outros filmes, ele incorpora um Joel bastante sincero, e se destaca bastante nas cenas em sua memória, onde as leis do mundo real não se aplicam, e portanto, algum nível de flexibilidade e improvisação são necessários. Gosto bastante do trabalho "sério" de Carrey, neste filme, e em outros como Show de Truman, por exemplo (ainda não vi O Mundo de Andy). O restante do elenco também está muito bem, contando com nomes famosos como Mark Ruffalo, Kristen Dunst e Elijah Wood.
Mas, para mim, é na parte "filosófica" que o filme realmente se sobressai. Muitos filmes partem de uma premissa interessante ou de uma ideia revolucionária mas entregam histórias decepcionantes. Claramente não é o caso aqui. Muitos dos desdobramentos hipotéticos de uma possibilidade de "apagar a memória" aparecem no filme e são desenvolvidos com bastante humor mas também bastante profundidade, especialmente quais seriam as consequências de apagarmos parte de nossas vidas. Um detalhe que acho interessante, por exemplo, é Joel, em um dado momento do filme, não conhecer Dom Pixote, já que sua música característica "Oh querida Clementina" (My Darling Clementine), e portanto o desenho, foram apagados de sua memória no procedimento. Detalhes como esse são geniais.
Sempre digo aqui que um bom roteiro é um grande ponto de partida para um filme bom. Neste caso, é mais que isso. Um excelente ideia, muito bem desenvolvida, e com execução competente, é um caminho aberto para um filme memorável, daquele que diverte e nos faz pensar: "O que eu apagaria da minha memória?"
Nota: 9,1 (12o colocado na minha lista de melhores filmes)
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Star Wars Episódio III: A Vingança dos Sith (Star Wars Episode III: Revenge of the Sith, 2005)
Depois de ter escrito
os textos sobre Star Wars e O Império Contra Ataca, o normal aqui seria eu
estar escrevendo agora sobre O Retorno de Jedi. No entanto, após uma conversa
no Facebook, percebi que, por ter visto A Vingança dos Sith apenas uma vez, no cinema,
com todo o frenesi de "finalmente veremos o surgimento de Darth
Vader", não tinha uma visão clara dele como filme, apenas como preâmbulo
da trilogia clássica que tanto gosto. Sendo assim, resolvi assistir ao filme novamente, 8
anos depois, e, claro, escrever sobre ele aqui no blog.
Mas para falar sobre
ele, é necessário situar um pouco a história. A tal "nova trilogia",
iniciada por A Ameaça Fantasma e O Ataque dos Clones (filmes sobre os quais eu
provavelmente não vou escrever posts aqui), conta a história de Anakin
Skywalker, aquele que viria a se tornar o famoso vilão Darth Vader. No
primeiro, ele é uma criança, filho de uma escrava, encontrado quase por acaso
por 2 cavaleiros Jedi em um planeta remoto. Eles
percebem seu potencial e resolvem levá-lo para ser treinado. No segundo, ele já
está adulto, e observa de maneira próxima uma crise na república, ao mesmo
tempo que tenta lutar com seus próprios demônios. Dados os mais de 15 anos
entre o final da trilogia clássica e o lançamento da nova, a expectativa era
muito grande e o sucesso de público foi enorme, mas não há como negar que os
filmes são ruins, com uma história confusa e inverossímil. No entanto, no ano
de 2005 seria lançado aquele filme que finalmente fecharia o ciclo, mostrando
finalmente o início de uma das histórias mais cultuadas do cinema moderno.
Eu fui ao cinema e adorei. Claro que estava
longe de ser perfeito, e mesmo de ser tão bom quanto os clássicos, mas o lento
declínio de Anakin (Hayden Christensen, um péssimo ator) para o lado negro, sua
transformação em Sith, a tão aguardada luta entre ele e Obi-Wan Kenobi (Ewan
McGregor), o nascimento de Luke e Leia, a morte de Padmé Amidala (Natalie
Portman) eram acontecimentos tão importantes e aguardados dentro da mitologia
da série que o fato de finalmente poder vê-los mais do que compensava os
"pequenos" deslizes cometidos por George Lucas (notoriamente um
diretor fraco) em seus 3 filmes. Uma nota 8,0 e um bom lugar na minha lista de
filmes e mesmo na cronologia da saga foram as conclusões a que cheguei na
época.
Até semana passada.
Na tal conversa de Facebook a que me
referi, eu defendia que o filme não era grande coisa, mas que completava bem a
história, fechando de maneira satisfatória os pontos em aberto, enquanto o
Fábio Vanzo dizia que não, como se fosse Yoda me dizendo que "The dark side
clouds everything" (ele não disse bem isso, claro, mas foi essa a
mensagem). Percebi que só poderia ter certeza vendo novamente o filme, mas
dessa vez em uma posição mais isenta, analisando-o como história e não como
peça arqueológica de um universo de que gosto tanto.
E, amigos, lhes digo: o filme é horrível.
A história é simplista, os personagens
rasos e contraditórios ao extremo, os diálogos mal escritos e constrangedores,
e até por isso, as atuações, mesmo dos atores mais consagrados, são risíveis. A
edição é primária, não conseguindo construir um ritmo decente e quebrando
demais a história (sério, parece novela mexicana: uma cena canastrona, um cenário, uma cena canastrona...).
Os acontecimentos que levam Anakin de vez ao lado negro não
fazem nenhum sentido, e suas reações ao que acontece à sua volta e às
tentativas de manipulação que sofre dos demais personagens são incompreensíveis. A
motivação de sua mudança (as visões que tem de Padmé morrendo e a sua vontade
de impedir esse destino) não é nem de longe forte o suficiente para que ele
faça as coisas que faz no segundo ato, e sua reação após descobrir (uns 5
minutos depois) que não conseguiu impedir sua morte é a de um homem fraco e não
de um líder, destruindo totalmente a imagem de vilão mega-blaster-motherfucker
da trilogia original. Contribui também para isso um ator que não consegue
passar nenhuma credibilidade, não tem expressões faciais e tem sempre o mesmo
semblante (embora tenha que ser dito que nem mesmo Marlon Blando teria
conseguido coisa muito melhor com o texto que lhe foi dado). A direção e o
roteiro de Lucas são praticamente infantis, sem nenhuma profundidade.
O que me levou à óbvia pergunta seguinte:
então por que eu saí do cinema, em uma noite de Maio de 2005, achando que tinha
visto um bom filme? até que ponto a minha ligação emocional com a história e a
vontade que eu tinha de que o filme fosse bom me fizeram realmente acreditar
nisso? Não sei se saberia explicar, mas o fato é que, sob algumas
circunstâncias, parece que nosso senso crítico é desligado, como se nosso
cérebro não quisesse lidar com uma verdade que desejamos ardentemente que não
seja.
E isso não acontece o tempo todo? A tal
dissonância cognitiva, que leva as pessoas a supervalorizarem o que concorda
com suas opiniões ou vontades, e desprezarem tudo que vai contra elas? Em
religião, futebol, política, cinema, ou até mesmo em nosso convívio diário,
vemos a verdade ou apenas o que queremos ver? Ou essa minha filosofia toda é só
de novo um jeito de tentar algo de positivo de uma experiência decepcionante,
da qual eu tinha ma imagem muito melhor? :-)
Em resumo, não sei se prefiro agora, ou se
era melhor eu ter ficado com a imagem positiva que tinha até então. Ainda acho
que algumas poucas coisas se salvam: a trilha sonora de John Williams, o
"nascimento" de um ícone pop como Darth Vader, e até mesmo a fotografia
e o visual de algumas cenas, como a luta final entre Anakin e Obi-Wan. Mas é
pouco, muito pouco. Nem falei muito dos demais aspectos do filme, da atuação de
Samuel L. Jackson (um ator de que gosto muito), de toda a computação gráfica
(que é até bem feita, mas acaba parecendo mais uma máscara para disfarçar a
falta de conteúdo), e outros, para não aumentar ainda mais minha decepção com o
filme.
Só espero que ver o Episódio VII (previsto
para 2015), não me faça olhar para esse e pensar "é, até que não era tão
ruim". Nesse caso, fãs ao redor do mundo vão acabar imitando uma das
piores mortes da história do cinema, a de Padmé, simplesmente "perdendo a
vontade de viver"...
Nota: 4,0
sábado, 16 de março de 2013
Maratona de filmes março/2013
O post de hoje é um pouco diferente. Aliás, bem diferente. Eis que me encontro, sozinho em casa, sexta-feira à noite. Esposa na pós (hoje de noite e amanhã o dia todo), filha passando uns dias com a avó. Foi assim que me surgiu a ideia: tenho tantos filmes que ainda quero ver, e normalmente tão pouco tempo para vê-los, que tal passar esse tempo todo (adivinhem) vendo filmes?
Pois bem, é isso que vou fazer. Começando agora (sexta, 20:30), e amanhã o dia todo, pretendo assistir algo em torno de 7-8 filmes. E descrever a experiência aqui, não só falando sobre os filmes mas também sobre a maratona em si, se eu aguentar até o fim.
A escolha dos filmes? O único critério é que eu não tenha visto ainda (ou que, por tempo ou outra razão, não me lembre mais dele). No mais, pretendo variar bastante de gênero, país, época, tipo... Nada contra, por exemplo, uma maratona de filmes do James Bond, mas não é essa a minha ideia hoje (portanto, pode parar de me chamar, box de Star Wars...)
Outro critério é que o filme da noite não seja mudo, longo ou devagar demais. Acabei de parar de trabalhar, a chance de dormir na frente da TV é enorme.
Assim, também em homenagem aos 70 anos de David Cronenberg completados hoje, um filme via Netflix: eXistenZ (1999). Seguindo a linha dos demais filmes do diretor, tem características de realidade distorcida, contando a história de um jogo de realidade virtual jogado através de conexões bio-mecânicas. A criadora do jogo (Jennifer Jason Leigh, uma das atrizes mais subestimadas do cinema) é atacada por uma organização que é contra a fuga da realidade que o jogo produz. Não é um filme para todos, tem um quê de bizarro, mas a história é muito interessante, e imagino que tenha influenciado muitos filmes mais recentes, como Inception, por exemplo. Muito bom filme, com vários "plot-twists". Nota: 7,0
Continuando, acho que por hoje (sexta-feira) é só. São quase 23h e a perspectiva é de um dia longo de filmes amanhã.
Já dormi, acordei, corri e comi, então resolvi começar o dia com um filme mais leve para ir devagar: Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera, 1935), comédia dos irmãos Marx em que eles tentam ajudar um casal de cantores a ficarem juntos e a fazer sucesso na ópera. Nunca tinha pensado em uma grande diferença entre o drama e o humor: as histórias dramáticas são clássicas, e "esqueletos" de roteiro funcionam bem desde o início do teatro na Grécia Antiga, como o amor não correspondido, as diferenças sociais impedindo casais de serem felizes e outros. Já o humor é tremendamente mutante. O que faz as pessoas rirem hoje provavelmente não as fará em 20 ou 30 anos. Não existem grandes histórias clássicas de humor. Tudo isso para dizer que, apesar de clássico, para mim esse filme envelheceu muito mal: todo baseado em "gags" físicas e nas frases espirituosas de Groucho Marx, quase 80 anos depois perdeu toda a sua novidade. E o tanto de números musicais torna a hora e meia de filme um suplício. Nota: 4,0.
Um café depois, e segue a maratona, com Cova Rasa (Shallow Grave, 1994). Primeiro filme para o cinema de Danny Boyle (Trainspotting, A Praia, Quem Quer Ser um Milionário?), já mostra tanto na direção quanto nas atuações (adoro a fase "escocesa" de Ewan McGregor, pra mim um excelente ator) o amadurecimento que continuaria 2 anos depois em Trainspotting. Conta a história de 3 amigos que moram juntos, e acabam aceitando mais um morador para dividir as despesas. Logo em seguida, o novo morador tem uma overdose no quarto, e eles descobrem uma mala de dinheiro escondida. A evolução de cada um dos personagens é notável, e aos poucos a situação vai exercendo sobre eles uma pressão que se torna insuportável. Ótimas atuações (coincidentemente, é o segundo filme de Christopher Eccleston nessa maratona, 2 boas atuações), e o roteiro com aquele jeitão inovador e abusado de filme iniciante. Nota: 7,0
Depois do almoço, hora de falar sério. Um dos filmes que todo mundo mais se espanta quando digo que não vi. Problema resolvido agora: Taxi Driver (1976). Nem preciso falar sobre a história, nem sobre a atuação de Robert de Niro (e queriam dar o Oscar pra ele por O Lado Bom da Vida????). Aliás, o grande problema foi esse: depois de ouvir falar tanto do filme, de já saber os pontos principais da história (ele leva a namorada no cinema pornô, tenta salvar a menina prostituta, mata um monte de bandidos, e tal), o filme perde um pouco do impacto. Não é culpa do filme, claro, mas minha por não tê-lo visto antes. De todo jeito, grande história, refletindo bastante o momento da história americana em que se passa, final da Guerra do Vietnã, país com moral baixa, veteranos voltando e não conseguindo se encaixar de volta. A direção de arte e fotografia são absolutamente fantásticas, essas sim me surpreenderam bastante. Scorsese é Scorsese, afinal, e esse, um de seus primeiros trabalhos, já mostra seu potencial. Nota: 7,0.
Pra quebrar um pouco o clima "pra baixo" do fim de tarde, nada como uma animação. Já tinha ouvido falar bastante de Wall-E (2008), até comecei a assistir uma vez, mas nunca tinha ido até o fim. Que filme fantástico! Quase sem falas na primeira metade, mostra que existem muitas maneiras de se passar a mensagem que se quer. Mostra também que o discurso ambientalista e contra o consumismo exagerado é importante e não precisa ser chato. E principalmente, mostra que personagens carismáticos podem fazer milagres por uma história. Difícil não se pegar torcendo pela "vida" e pelo "amor" entre dois robôs, e se emocionando no final. Pixar é foda. Podem me julgar à vontade, mas por enquanto é o melhor filme do dia (é, melhor que Taxi Driver). Nota: 8,1 (passa a ser o 58o. lugar na minha lista de filmes favoritos)
E, pra fechar a noite (embora eu ainda tivesse alguns filmes na fila), um clássico, muito mais denso e interessante do que eu imaginava: Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire, 1951). Que a atuação de Marlon Brando seria poderosa eu até já imaginava, mas, por não ter visto ...E o Vento Levou não tinha ideia de que Vivien Leigh pudesse ter uma atuação tão arrebatadora. Segundo li, ela se entregou tanto ao papel, que depois desse filme (por sofrer de transtorno bipolar) passou a confundir sua vida com a de sua personagem. Uma atuação que faria corar a maioria das vencedoras de Oscar de Melhor Atriz das últimas décadas, que acabam ganhando mais por transformações físicas que pela atuação (já falei mal de O Lado Bom da Vida aqui, não vou falar de novo, mas Jennifer Lawrence passa vergonha perto de Vivien Leigh).
Além disso, a história, adaptada de uma peça de Tennessee Williams, é fantástica. Nota-se que em alguns momentos foi suavizada devido ao código de regras de Hollywood à época, mas ainda assim é difícil imaginar um filme tão ousado e chocante hoje em dia. A história da mulher metida a aristocrata que perde tudo e vai morar com a irmã submissa e o marido violento, e cujos segredos aos poucos vão se revelando, é um tratado de personalidade, e o filme vai evoluindo os personagens aos poucos, contando com roteiro e atuações maravilhosos. Um belo final para um dia inteiro de filmes. Nota: 8,5 (passa a ser o 34o. lugar na minha lista de filmes favoritos)
Ah, e me recuso a usar a incompreensível tradução do título para português Uma Rua Chamada Pecado. Não faz sentido algum.
![]() |
| Acho que consigo ver mais um filme... |
É isso. Sinceramente, esperava ter conseguido ver pelo menos mais um, mas os próximos da fila aqui eram muito longos (estava entre Duna e Lawrence da Arábia), e ainda tive que dar uma saída no meio do último que deu uma quebrada no cronograma. Não estou exatamente como nessa foto, mas são 23h de sábado e acho que não consigo ver mais nada. De todo jeito, 6 filmes em pouco mais de 24h é uma boa marca, e em geral foi uma experiência positiva, tendo visto alguns ótimos filmes. Quem sabe não faça de novo algum dia.
E, se algum de vocês heróis leitores, conseguiu chegar até aqui, comente! São 6 filmes, duvido que não tenham visto pelo menos um, e queiram discordar de algo (ou tudo) que falei. É só usar esse espaço logo aqui embaixo....
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