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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Blade Runner 2049 (2017)


Há alguns anos, eu escrevi aqui no blog ESSE texto sobre Blade Runner, o original. Nele eu elencava várias razões pelas quais eu não tinha gostado do filme quando vi naquela época. Recentemente, assisti à versão original dele, com narração e final feliz, e relacionando as duas versões, consegui entender e gostar mais do filme. Mas o que de fato me fez gostar mesmo dele, finalmente, foi Blade Runner 2049.

O filme segue a história do original, 30 anos depois: os replicantes foram proibidos de serem fabricados em 2022, após executarem um atentado terrorista que criou um grande blecaute que durou dias e apagou praticamente todos os dados armazenados no planeta. Apenas alguns anos depois, o empresário Niander Wallace (Jared Leto), depois de desenvolver tecnologias de bioengenharia para acabar com uma grande fome, ficou bilionário, adquiriu a Tyrell Corporation (que fabricava os replicantes originais) e conseguiu autorização para voltar a fabricá-los. No entanto, os antigos replicantes, com poucas ferramentas de controle, continuam sendo perseguidos pelos famosos Blade Runners.


O filme é maravilhoso. Ele completa, engrandece e continua a história do primeiro, sendo ao mesmo tempo respeitoso e inovador. Leva os acontecimentos do primeiro por caminhos novos, mas que se entrelaçam com o passado. Mostra a mesma Los Angeles vazia e escura do primeiro filme, mas sob outro olhar. Mostra com calma, quase contemplação, a jornada de K (Ryan Gosling), um Blade Runner que descobre um segredo que pode causar uma guerra entre humanos e replicantes. Essa jornada visita novos e antigos lugares, e mostra como os destinos daqueles e de outros personagens voltam a colidir tantas décadas depois.

Boa parte do mérito vai para o diretor Dennis Villeneuve, de filmes como A Chegada e O Homem Duplicado. Assim como em seus filmes anteriores, ele consegue criar uma história intrincada, porém de forma ao mesmo tempo calma mas não didática demais. As 2 horas e 43 minutos de filme não apenas passam suaves, como você se pega torcendo para que o filme não acabe. Ele não está apenas contando uma história, está relembrando, criando e mostrando aquele universo para quem ficou 35 anos sem ter notícias dele. O cuidado com as referências e a evolução do ambiente é visível, e você se sente na Los Angeles daquele universo, mas 30 anos depois. Um exemplo são as cenas entre K e Joi (Ana de Armas), especialmente a linda cena de amor entre os dois.



Mas claro, a jornada também tem que valer a pena. E Villeneuve faz isso com muita competência. A história também se desfralda sem pressa, se explicando aos poucos, com paciência mas sem floreios. Tudo eventualmente acaba se encaixando e fazendo sentido, e se algo parece estranho em um momento, vai acabar sendo explicado depois. A motivação inicial se encaixa perfeitamente no primeiro filme, é surpreendente, e, na minha opinião, muito bem pensada. E se desenvolve muito bem, em camadas e desdobramentos que não deixam o ritmo do filme perder fôlego. Obviamente, não é um filme de ação, mas te deixa tenso praticamente o tempo todo, mesmo assim.

Outra coisa que vem muito forte do primeiro filme, embora sob outra ótica, é o questionamento do que é ser humano. Qual a diferença entre o humano "nascido" e o "construído"? Por que os últimos têm que se sujeitar às ordens e aos trabalhos rejeitados pelos primeiros? Por mais que agora seja mais fácil identificar um replicante (embora haja uma "releitura" do teste de Voight-Kampff), o conflito entre os humanos e os "sem-alma", mas muitas vezes mais humanos, replicantes sob o ponto de vista existencial continua guiando o filme, de formas diversas (e diferentes do primeiro filme).


As atuações eram um ponto que me preocupava um pouco. Não sou o mais fã de Ryan Gosling, peguei uma bronca razoável de Jared Leto, e tenho certo medo quando Harrison Ford entra no automático. Pois esse medo aqui é plenamente injustificado: os três estão em papéis completamente aderentes a essas características (Gosling é o Blade Runner que pouco demonstra emoções, Leto é o bilionário que se acha Deus, e Ford, bem, Ford é Deckard). Mas o destaque mesmo é o elenco de apoio, quase totalmente de mulheres: Robin Wright (a policial chefe de K), Ana de Armas, Sylvia Hoeks (impressionante como Luv, a assistente replicante de Wallace), Mackenzie Davis (uma prostituta que cresce na história, e tem talvez a cena mais bonita do filme) e Carla Juri (uma designer de lembranças para os replicantes) roubam a cena em papéis maiores ou menores, porém todas com extrema importância para a história e o universo. Até Edward James Olmos (Gaff) e Sean Young (Rachael) têm suas participações, aumentando mais ainda a sensação de continuidade com relação ao filme original.


O visual é um dos principais trunfos do filme. A fotografia busca inspiração no visual caótico, noturno e chuvoso do primeiro filme, porém cria novos cenários, expandindo aquele mundo para outros ambientes, outras pessoas, outros mundos ali dentro. E tudo se justifica. Não há o mundo ensolarado e bucólico do final do filme original, porém finalmente vemos que as ruas apertadas e visualmente poluídas não são os únicos lugares disponíveis. Assisti ao filme no IMAX, e recomendo bastante, pois traz uma amplitude e imersão que ajudam bastante a "entrar" no filme. O 3D é discreto mas não incomoda. A trilha sonora está à altura: Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch ajudam a criar a atmosfera, e trazem inclusive alguns toques do original de Vangelis, especialmente nos momentos mais conectados com o filme anterior. Confesso que senti um pouco de falta daqueles temas, mas o trabalho deles é impecável. E ainda tem Elvis, Sinatra, Righteous Brothers em momentos-chave.

Difícil apontar pontos negativos no filme. Alguns detalhes da história soam um pouco forçados, embora boa parte deles se explique mais adiante. Fora isso, fazia tempo que eu não saía do cinema tão maravilhado. Definiria Blade Runner 2049 como uma verdadeira experiência cinematográfica. Não é algo que se tem todo dia, mas é daqueles momentos que ficam na mente por muito tempo. Não se esvaem como lágrimas na chuva.

Nota: 9,4 (8o lugar na minha lista de melhores filmes)


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016)


Eu odeio remakes, em geral pouco criativos e caça-níqueis que capitalizam um filme original. Eu odiei o novo Karate Kid. Eu odiei o novo A Fantástica Fábrica de Chocolate. Eu odiei quando anunciaram esse remake de um dos filmes oitentistas que mais gosto. Eu odeio a Melissa McCarthy como comediante. Eu odiei os trailers que foram sendo divulgados. Eu absolutamente odiei a versão nova da música-tema, provavelmente uma das mais emblemáticas da história do cinema. Eu fui para o cinema pronto pra odiar o filme com mais propriedade, e dava tão pouco por ele que não me incomodei quando a filha pediu para ver a versão dublada.

Por isso digo com toda propriedade: como é bom de vez em quando estar completamente, inapelavelmente, irremediavelmente ERRADO.


Eu adorei a história, que ao mesmo tempo homenageia mas se descola da original. O básico está lá: cientistas sem muito crédito que se juntam para combater uma ameaça sobrenatural crescente que ameaça a cidade de Nova York. Mas a formação e evolução do time, a origem da ameaça, a trajetória do grupo obviamente mudaram para fazer mais sentido na transposição da década de 80 para o mundo de 30 anos depois. E mudaram com bastante coerência. A internet está lá, mas não tira o espaço dos velhos traços em mapas. As tecnologias são novas, mas as armas têm o mesmo jeitão. E mesmo que, assim como no original, você já saiba tudo que vai acontecer, torce, vibra e se diverte do mesmo jeito.

Eu adorei as referências. Em época de anos 80 em alta, com obras como Stranger Things, e em se tratando de algo tão cult como Caça-Fantasmas, seria fácil exagerar na mão nas referências ao filme original, engessando a história ou tornando-a algo sem sentido para a nova geração. As referências estão lá (o logo, o carro, o prédio, uma participação sensacional do monstro de marshmallow, entre muitos outros), mas nota-se uma deferência ao material antigo sem que isso se torne um problema. O fã antigo vai adorar, vai ficar procurando detalhes, mas a história corre sem parar para mostrar "olha aqui, lembra disso?" o tempo todo. Ponto para os roteiristas.


Eu adorei o elenco. Um dos pontos fortes do filme original era o equilíbrio entre os componentes da equipe, sem que um se destacasse muito mais que os demais (embora Bill Murray tivesse alguma profundidade em sua história, especialmente devido à personagem de Sigourney Weaver). Como eu disse ali em cima, não sou fã da Melissa McCarthy, e tinha medo de que as demais servissem apenas como escada para a "atriz principal". Não podia estar mais longe da verdade: todas têm seu espaço, mandam bem, e mesmo Melissa não me incomodou como faz em Mike and Molly, por exemplo. Destaque para Kate McKinnon, como a insana e extremamente produtiva Holtzmann, e Chris Hemsworth, claramente se divertindo no papel do tapadíssimo assistente Kevin.

Eu adorei as participações especiais. Sim, eles estão todos lá. Até Bill Murray (obviamente, com a sentida ausência do saudoso Harold Ramis). Cada um dos atores que fizeram os Caça-Fantasmas originais faz sua ponta nesse filme. Sigourney Weaver também. Até o Geléia (que, pasmem, tem papel importante na história também). Adorei o papel de Ernie Hudson, que rouba a cena por 30 segundos. Mais do que a importância dos papeis em si, o legal é a chancela de "vão lá, gente, bom trabalho, estamos aqui passando o bastão e desejando boa sorte". Ah, sim, tem Ozzy Osbourne também :-)



Eu adorei o filme, em resumo. Depois de toda a polêmica do elenco feminino (que não passa batida no filme, com algumas boas piadas muito bem colocadas lembrando que elas são mulheres e não estão nem aí para o que alguém pensa sobre isso. Aliás, o próprio Kevin, tão criticado, não deixa de ser uma sátira caricatural e muito bem sacada do papel da secretária burra e gostosa), fica fácil transformar esse remake em uma discussão sobre feminismo vs. machismo, ou sobre a necessidade do cinema de tentar mostrar novamente todas as suas boas histórias. Não caia nessa. O filme obviamente não é perfeito, as coisas acontecem muito fácil e nem sempre é fácil seguir a lógica da história. Mas tem sido tão difícil sentar no cinema e ter uma diversão honesta que esse Caça-Fantasmas vale muito a pena por isso. Foi ótimo ver minha filha sair empolgada com um sorriso enorme no rosto ao final da sessão. Assim como eu fiz, com a idade dela, no filme original. E é uma sensação fantástica.

Nota: 7,5/10

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

[Top 10+] Temas de filmes do 007


Já falei anteriormente sobre Skyfall aqui no blog. Embora eu me sinta a única pessoa do mundo que não gostou do filme, em uma coisa ele acertou em cheio: o tema cantado por Adele é uma das melhores músicas de toda a história do agente. É bela, imponente, e tem todo o estilo de tema de filme do 007, depois de bastante tempo sem que isso acontecesse.

Essa semana, foi divulgada a música-tema do novo filme de 007, Spectre. E, bom, não sei bem como dizer isso, mas tentarei ser minimamente diplomático: é bem ruim. Claro que seria difícil para qualquer um suceder "Skyfall", mas o tal de Sam Smith (de quem, confesso, nunca tinha ouvido falar antes de sexta-feira) canta um tema fraco, afetado e bastante esquecível. Tudo o que um filme de James Bond não merece.

No dia da divulgação, papo vai, papo vem, e a dúvida inevitável surgiu: afinal, qual o melhor tema de James Bond? Claro que cada um vai ter sua opinião, mas eu resolvi ir um pouco adiante e ranquear todos os temas dos filmes, a partir dessa excelente playlist: https://open.spotify.com/user/bill1025/playlist/55dW5o6roy81AtpyJjRNIc

O tema clássico do 007, apesar de ser a trilha oficial de O Satânico Dr. No, está fora desse ranking. O considerei como hors-concours, já que achei que não seria justo colocá-lo entre os temas individuais. É algo muito acima disso:


Além disso, o ranking só considera os filmes "cânone", desconsiderando portanto o Cassino Royale antigo, e Nunca Mais Outra Vez, onde Bond é novamente interpretado por Sean Connery, depois que entregou o papel a Roger Moore, mas não é considerado válido na linha do tempo do agente. Além disso, fugi do modelo "Top 10" porque queria falar de todos os filmes. Isso posto, segue o ranking:


23 - Moonraker - Shirley Bassey (007 contra o Foguete da Morte, 1979)

Shirley Bassey está bem colocada com outras canções nesse ranking, mas na minha cabeça músicas arrastadas demais não combinam muito com James Bond, e esse é o caso. Também ajuda o fato de eu não gostar mesmo da música. Uma pena, já que é um dos filmes mais divertidos (Jaws no bondinho do Pão de Açúcar, supera essa Daniel Craig!)



22 - We Have All the Time in the World - Louis Armstrong (007 a Serviço Secreto de Sua Majestade, 1969)

"Puxa, mas é uma música de Louis Armstrong, como assim?" Mas é justamente por isso: Armstrong é característico demais, e "rouba" a cena na trilha sonora. Não é mais uma música de James Bond, e sim de Armstrong, o que por si não é um problema, mas deixa o filme meio "órfão".



21 - Another Way to Die - Jack White/Alicia Keys (Quantum of Solace, 2008)

Os anos 2000 foram de experimentação nos filmes de Bond. Tanto as histórias quanto os temas foram "reinventados" para uma nova época. Alguns deram certo, esse não. Nem o tema, nem o filme. Experimental demais, pra mim.




20 - All Time High - Rita Coolidge (007 contra Octopussy, 1983)

Como disse, não sou muito fã dos temas muito lentos. Esse é um deles: não é tão ruim, mas esquecível.



19 - You Only Live Twice - Nancy Sinatra (Com 007 Só Se Vive Duas Vezes, 1967)

Outro dos temas "românticos e épicos" que não me agradam tanto.



18 - From Russia With Love - Matt Munro (Moscou contra 007, 1963)

Esse é um dos temas clássicos, isso tem que ser respeitado. Mas também entra na categoria "lentos demais", e a interpretação de Munro, embora bem em acordo com a época, datou um pouco e ficou canastrona.



17 - Tomorrow Never Dies - Sheryl Crow (O Amanhã Nunca Morre, 1997)

Outra das tentativas mais recentes, trazendo uma cantora popular na época para uma série que se reinventava. Gosto do filme, gosto da Sheryl Crow, mas acho que a vibe "épica" não combinou muito com ela.



16 - Writing´s On the Wall - Sam Smith (007 contra Spectre, 2015)

Essa é a mais complicada de julgar, por ter sido recém-lançada, por não termos visto o filme, e até porque seu arranjo ainda pode mudar. Acho que a música começa bem, embora não fantasticamente, porém o refrão é muito fraco, e o falsete dá uma estragada, já que não tem nada a ver nem com o resto da música nem com o personagem. Depois do Rock in Rio, percebi que é meio uma marca registrada do rapaz. Uma pena, mas acho que ele não tem "estofo" para segurar um tema desses.

(não encontrei vídeo, segue link da música no Spotify: https://open.spotify.com/track/4oWmroatZtMmlgc3havMrv)


15 - For Your Eyes Only - Sheena Easton (007 Somente para Seus Olhos, 1981)

Chegando no grupo de músicas que não particularmente gosto ou desgosto, mais um no estilo mais "lento e romântico".





14 - The Man With the Golden Gun - Lulu (007 contra o Homem com a Pistola de Ouro, 1974)

Já entrando nos temas para mim mais "característicos", com muitos metais e um ritmo mais rápido, é um tema até divertido.



13 - Diamonds are Forever - Shirley Bassey (007 - Os Diamantes São Eternos, 1971)

Pela segunda vez na lista, dessa vez Shirley Bassey traz um dos temas mais reconhecidos e com mais "cara de James Bond". Eu sei, eu disse várias vezes que não gosto das lentas, mas essa é exceção.


12 - The World is Not Enough - Garbage (007 - O Mundo Não é o Bastante, 1999)

Ao contrário dos demais temas dessa época, tentou ser mais clássico e não ficou mal. A vocalista do Garbage consegue um bom trabalho em acertar o tom dos filmes.



11 - You Know My Name - Chris Cornell (Cassino Royale, 2006)

O filme é um recomeço na história, mostrando James Bond iniciando sua carreira de agente. O tema acompanha isso, e consegue um retorno legal às raízes. E eu gosto da música em si. A piadinha com o nome da música e a época do filme, em que James Bond não era conhecido também é interessante.



10 - Thunderball - Tom Jones (007 contra a Chantagem Atômica, 1965)

Um dos temas mais clássicos. Um pouquinho Tom Jones demais, mas é excelente.



9 - Licence to Kill - Gladys Knight (007 - Permissão para Matar, 1989)

Apesar de mais lenta, essa é muito clássica. Tem um estilo característico do final dos anos 80 e marcou bastante.



8 - Die Another Day (007 - Um Novo Dia para Morrer, 2002)

Um dos temas mais polêmicos, sem dúvida. Madonna foi chamada no início do século XXI para dar uma cara nova para a trilha sonora do último filme de Pierce Brosnan. Experimental, eu gosto, mas sei que divide opiniões. Ao contrário da atuação dela no filme em si, que ninguém gostou.



7 - Goldeneye - Tina Turner (007 contra Goldeneye, 1995)

Tina Turner é um nome perfeito para um tema de 007. Nessa "ressurreição" do agente na década de 90, foi uma escolha acertadíssima.



6 - Goldfinger - Shirley Bassey (007 contra Goldfinger, 1964)

Talvez o mais clássico e conhecido tema dos filmes de 007, é o primeiro de Shirley Bassey, logo no terceiro filme da série (e, também, um dos melhores de todos os tempos). Tem todos os componentes de um tema clássico: o ritmo, a opulência, a dramaticidade que os caracterizaram em tantos filmes.



5 - Living Daylights - A-HA (007 Marcado para a Morte, 1987)

A partir daqui minha predileção pelos anos 80 começa a falar mais alto. Como em toda essa lista, o gosto pessoal influencia muito, mas é o tipo de música que gosto mais, então naturalmente vai tender a aparecer melhor no ranking. Especialmente por ter visto o show do A-HA no Rock in Rio ontem...



4 - A View to a Kill - Duran Duran (007 Na Mira dos Assassinos, 1985)

Segue o momento anos 80. Adoro essa música, dá um senso de urgência e perseguição. E é do Duran Duran, isso ajuda. Curiosidade: é a primeira música-tema de 007 a atingir o topo da Billboard, o que mostra a mudança para um viés mais pop já sendo feita nos anos 80, quando o personagem começa a perder fôlego.


3 - Live and Let Die - Paul McCartney / Wings (Com 007 Viva e Deixe Morrer, 1973)

Outra daquelas lembradas (e regravadas) até hoje. Talvez o primeiro grande sucesso de Paul McCartney em sua carreira solo. Inesquecível.


2 - Skyfall - Adele (007 - Operação Skyfall, 2012)

Talvez uma surpresa estar tão alto nessa lista, a música de Adele é a tradução perfeita dos temas de 007 para os tempos atuais: épica, majestosa, e extremamente bem executada. Para mim, a única coisa que se salva do filme.



1 - Nobody Does It Better - Carly Simon (007 - O Espião que me Amava, 1977)

Outra surpresa? Não sei se sei explicar bem porque gosto tanto dessa música, mas para mim é dela que lembro quando se fala de temas de Bond. Tem uma "malemolência", uma sensualidade e ao mesmo tempo aquele toque épico a que me referi algumas vezes anteriormente. Inclusive, acho Carly Simon muito subestimada, fala-se muito pouco sobre ela nos dias de hoje. Fica aqui meu reconhecimento, portanto.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

Rocky Horror Picture Show (1975)


Ressucito mais uma vez o blog para falar de outro musical, um que inclusive assisti com bastante atraso: Rocky Horror Picture Show. O filme, baseado em um musical inglês de Richard O'Brien (o ator que faz o Riff Raff na história), é "levemente baseado" na história de Frankestein. Um casal de noivos (Barry Bostwick e, sim, Susan Sarandon) tem o carro quebrado em uma estrada escura e busca auxílio em um castelo. Ao chegar lá, são recebidos pelo Dr. Frank N. Furter, um travesti alienígena que acaba de criar um ser vivo para seu prazer.


O resto do filme se passa dentro do castelo, e conta, de maneira tresloucada, a história do doutor, sua vinda para a Terra, e fala de outros personagens também. Tudo com muita música, claro, afinal falamos de um musical. E é bastante divertido, as músicas (e a história, por que não?) são cativantes, e você se pega se perguntando onde aquela doideira toda vai parar.

Mas o mais interessante desse filme é saber como aconteceu o sucesso dele. Foi um fracasso completo em seu lançamento - o diretor conta que foi a uma sessão no meio do dia e era a única pessoa na sala - até que um cinema em San Francisco resolveu colocá-lo em sessões da meia-noite, tradicionalmente reservadas para filmes B ou em reapresentação. Aí sim iniciou seu sucesso. As sessões começaram a lotar, e os donos das salas percebiam que as mesmas pessoas voltavam várias vezes. Essas pessoas começaram a vir fantasiadas, a decorar as falas, e a imitar as coreografias conforme elas aconteciam na tela.


"Time Warp", por exemplo, o primeiro número depois que eles entram no castelo, foi colocado no musical apenas para encher linguiça, já que a duração estava muito curta. Foi um sucesso. Com o tempo, toda uma mitologia foi sendo desenvolvida pelos fãs para assistir o filme no cinema. Falas em resposta aos diálogos do cinema foram desenvolvidos, e até um "kit" de acessórios foi criado, contendo coisas como arroz (para ser atirado na cena do casamento), água (para a cena da chuva), torradas (toasts, para a cena do brinde), e assim por diante. E tudo isso sem internet e sem home video.

Com isso tudo, é considerado por muitos o maior filme cult de todos os tempos. Foi capaz de desenvolver uma base fiel de fãs, que até hoje mantêm vivo o universo criado no filme. Muito antes de Star Wars, Star Trek e outros (basta dizer que é hoje o recordista de filme há mais tempo em cartaz ininterruptamente no mesmo cinema - mais de 40 anos, em um cinema alemão). Pra mim, é um caso muito curioso de mobilização em torno de algo, de encontrar um grupo de pessoas que divide os mesmos gostos e tornar isso uma experiência legal. Ah, e o filme é muito bom, vejam com carinho :-)


Nota: 7,5

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Superman - O Filme (Superman, 1978)


Outro dia, em uma conversa despretensiosa pelo Twitter, comentei o que eu achava que era uma opinião geral de quem assiste filmes de super-heróis no cinema: que o primeiro filme do Superman era fraco. Recebi várias reprimendas (pra dizer o mínimo), de amigos dizendo que o filme foi o pioneiro, estabeleceu vários padrões seguidos até hoje nos filmes do gênero, e especialmente do Victor Caparica, ouvi que eu (e, presumo, 99% dos espectadores do filme) tinha entendido errado o final, quando ele faz o tempo voltar para salvar Lois Lane do terremoto.

(inclusive, vale uma ressalva aqui: não sou leitor de gibis do personagem. Tudo o que disser se refere ao filme em si e não ao quanto é fiel ou não à mitologia dos quadrinhos. Muito menos entendo o suficiente para saber como as mudanças no universo das HQs afetam seu alinhamento com a história do filme)

Assim, depois de várias opiniões fortes, prometi a alguns amigos que reveria o filme com a cabeça aberta e escreveria um texto sobre ele aqui no blog para dizer o que achei. Adiantando: o filme é um pouco melhor do que eu lembrava, mas ainda não posso dizer que é bom. Explico:



O filme inicia muito bem. Toda a parte da origem do Superman é contada com calma, detalhes e didatismo. Talvez justamente por aquele pioneirismo, imagino que o diretor tenha escolhido um caminho conservador para não tornar o filme difícil para um público que não estava acostumado a esse tipo de história. Está tudo ali: de onde ele veio, porque veio especificamente para a Terra, porque seus pais o enviaram sozinho, como é seu relacionamento com seus poderes e seus pais adotivos na juventude... um belo "tutorial", que se encerra com a construção da Fortaleza da Solidão, a tomada de conhecimento de quem ele é e qual seu papel na Terra. Alguns efeitos especiais datados, mas essa parte realmente me animou para o resto do filme. Uma nota interessante: logo no início da história, aparecem os vilões do segundo filme sendo condenados, um "easter egg" que deve ter sido marcante na época.



A segunda parte do filme se dedica a estabelecer o Superman (o herói, e não a pessoa), além de caracterizar o ambiente que passa a cercá-lo: a cidade de Metrópolis, Lois Lane, Jimmy Olsen, e até um pouco de Lex Luthor. É nessa parte que, após algum conflito na adolescência, o Superman se transforma no "defensor da justiça, da verdade e do sonho americano" (sim, ele diz isso), o perfeito e incorruptível herói que Metropolis precisa. Eu tinha na cabeça que Lois Lane fosse uma personagem mais interessante (talvez resquício de ter visto Superman Returns há poucos anos), mas no filme ela é voluntariosa porém relativamente limitada (pessoas em volta corrigem sua ortografia algumas vezes durante o filme). A cena da entrevista exclusiva dela com o Superman é antológica pela parte do vôo em conjunto, mas é arrastada e algumas coisas não fazem sentido (você consegue a exclusiva mais procurada por todos os jornais da cidade e vai perguntar peso e altura, jura?). Ainda assim, o filme se sustenta bem, os personagens são bem retratados e, principalmente, o Superman se estabelece como herói na cidade de maneira muito interessante.



O terço final do filme é que estraga tudo. O filme se pretende sério, com pitadas de humor (o próprio Clark Kent funciona bem como alívio cômico em algumas cenas, sem cair na caricatura), mas nada justifica Lex Luthor e seus "capangas" terem cenas tão imbecis. Entendo que o "vilão ultra inteligente cercado por ajudantes imbecis" não era clichê na época como é hoje, mas ainda assim a sequência em que o bando tenta interceptar o comboio do míssil nuclear para redirecionar sua trajetória é revoltante de tão ruim, parece uma cena deletada de Top Secret por ter ficado sem graça. Quebra totalmente o ritmo do filme. Outra cena que não faz sentido algum é quando Lex Luthor chega à conclusão que, se Superman chegou à Terra no ano de 1961, então uma chuva de meteoros que chegou no mesmo ano "certamente" vem de Krypton, e "portanto", deve ser o ponto fraco dele, ele mesmo dando o nome de Kryptonita. É um ponto importantíssimo no plot do filme, merecia uma explicação melhor.



Após algumas pataquadas do vilão da história, chegamos à cena mais famosa (e mais polêmica, digamos) do filme. Ao ser salvo da morte por kryptonita pela assistente de Lex Luthor, ele promete que salvará a mãe dela primeiro, e com isso, Lois Lane é pega no terremoto causado pelo míssil de Luthor e morre soterrada. Em desespero, vai para o espaço e, com sua supervelocidade, faz com que o tempo volte e desce a tempo de salvar sua amada. Para mim (tanto na lembrança como vendo agora), parece que o Superman faz a Terra girar ao contrário para o tempo voltar, o que seria um grande absurdo. Há teorias que dizem que ele está gerando uma distorção no espaço-tempo, fazendo o tempo voltar, e não girando a Terra ao contrário, mas honestamente, não é isso que o filme demonstra (ele inclusive, no final, volta a girar no sentido normal da Terra para fazê-la "pegar no tranco"). De qualquer jeito, o ponto é que, mais uma vez, um ponto-chave da história fica muito mal explicado e sujeito a interpretações. Além disso, convenhamos, voltar, salvar a amada, mas deixar o resto do país explodindo não é exatamente o que o paladino da justiça teria feito...



O filme se beneficia de outros aspectos: o elenco tem boas atuações, e Christopher Reeve até hoje é o Superman, em uma identificação ator/personagem mais direta do que talvez qualquer outro herói do cinema (talvez apenas Robert Downey Jr./Iron Man e Hugh Jackman/Wolverine cheguem minimamente próximos). Na trilha sonora, John Williams mais uma vez mostra um tema daqueles de arrepiar, que até hoje identificamos nos primeiros acordes. Os efeitos visuais, como citei anteriormente, estão datados, mas não comprometem o filme, e na época devem ter sido considerados fantásticos. O diretor Richard Donner faz um trabalho muito competente, inclusive unindo a história com a do segundo filme (que acabou não dirigindo, por "diferenças criativas"). Alguns pontos positivos que ajudam o filme, mas acabam não fazendo tanta diferença. Como disse, acho que minha opinião não mudou muito. Reconheço alguns bons pontos positivos, e o pioneirismo, mas como entretenimento, continuo achando que não é grande coisa. Que venha o filme 2...

Nota: 5,0


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

[Top 10] Cenas musicais

Depois de tanto tempo escrevendo no blog, pensei em fazer um novo tipo de post. Nada extremamente original, o que mais tem por aí é blog com listas. Mas, de todo jeito, achei legal selecionar os meus melhores no cinema em alguns critérios. Para começar, as 10 cenas musicais que mais gosto. Não coloquei aqui cenas de musicais, preferindo aqueles filmes onde a música em um dado momento se torna um personagem. As cenas não estão em ordem de preferência e representam o meu gosto pessoal, podendo ser cornetadas à vontade nos comentários:

Ferris Bueller na Parada - Curtindo a Vida Adoidado

Já começo com a minha favorita, que marcou uma geração de espectadores da Sessão da Tarde juntando Beatles (e Danke Schön) com o maior matador de aula do cinema. É surpreendente, é emocionante, engraçada. Paro pra ver toda vez:



O concurso de Twist - Pulp Fiction

Essa também já nasceu clássica. Aparentemente aleatória na história do filme, mas juntando o fetiche de Tarantino por Uma Thurman e o passado "dançarino" de John Travolta (que foi praticamente ressucitado pelo diretor nesse filme), com uma coreografia propositalmente amadora e tosca, que virou um cult instantâneo:



Fila do Banco - Ou Tudo Ou Nada

Nesse excelente filme, um grupo de desempregados ingleses promete um strip-tease "até o fim" como forma de conseguir dinheiro, em um país recessivo e com poucas esperanças. Um tema sério, mas levado com bastante humor. E a cena musical que mais gosto reflete bem essa dualidade: na fila para receber o seguro-desemprego, aos poucos os homens, quase sem perceber, estão dançando de forma coreografada, de acordo com o que vêm ensaiando. Simples, mas marcante:



Clipe inicial - Letra e Música

Um filme bastante esquecível, com Hugh Grant e Drew Barrymore fazendo mais do mesmo em relação a papéis, mas com uma abertura que os anos 80 não teriam feito melhor:



Uncle Fucker - South Park: Bigger, Better and Uncut

Essa entra pelo inusitado. É tão surreal que eu não conseguia parar de rir no cinema. A música (composta basicamente de palavrões e ofensas) conseguiu a proeza de ser indicada ao Oscar e ser cantada durante a cerimônia:



Apresentação de Marty McFly no Baile do Encanto Submarino - De Volta para o Futuro

Outra clássica. Marty, sob risco de sumir da existência caso seus pais não se apaixonem, tem que cobrir a ausência de um guitarrista no baile. Durante a romântica "Earth Angel", seus pais finalmente se apaixonam, e depois vem "Johnny B. Goode" para espanto da platéia dos anos 50 que o assiste. Fantástica:



Coreografia no deserto - Priscilla, a Rainha do Deserto

Além de divertidíssimo, esse filme foi um dos primeiros a retratar a causa gay com tal naturalidade, e de maneira séria porém tornada leve. Essa cena é um retrato de todo o filme, mostrando o "choque" entre o exagero das dançarinas em contraste com os "caipiras" da Austrália.



Bohemian Rhapsody - Quanto Mais Idiota Melhor

Digo apenas que após essa cena, é impossível ouvir Queen no carro e não bater cabeça:



Tocando Piano no Chão - Quero Ser Grande

Se você viu essa cena na Sessão da Tarde e nunca quis tocar piano desse jeito, você não foi uma criança feliz:



Tango - Perfume de Mulher

Termino com essa cena clássica, de um filme não tão clássico assim. Não dava para esquecer Al Pacino, roubando o filme (que nem é tão bom assim), como o coronel cego que dança tango:



Bonus Track - Tango - True Lies

Vou trapacear aqui um pouco pra colocar outra cena, já que ela usa a mesma música da anterior. No subestimado True Lies, Schwarzenegger é o espião que finge tão bem para sua mulher que tem uma vida sem graça que ela acaba acreditando. No final, vira espiã também, e vem mais tango por aí (infelizmente, nesse caso, dublado em russo):



Menções honrosas: 500 Dias com Ela, O Casamento do Meu Melhor Amigo, Pequena Miss Sunshine, 10 Coisas que Odeio em Você

Esqueci alguma? Exagerei? Comente.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Os Pássaros (The Birds, 1963)



Os poucos que me lêem por aqui sabem que não tenho preconceito com clássicos (pelo contrário, gosto de muitos), não faço questão (na verdade, nem gosto muito de) histórias fáceis, e gosto de filmes do Hitchcock (Um Corpo Que Cai e Janela Indiscreta são excelentes filmes). Então peço sua ajuda, caro leitor: onde é que estou errado em achar Os Pássaros um filme péssimo?

Não costumo escrever muito aqui sobre os filmes que não gostei. Em alguns casos, escrevo só pra descer a lenha no filme mesmo (como Menina de Ouro), mas em outros, como Blade Runner, tento entender o porquê de não ter gostado do filme, já que é tão famoso e tanta gente parece gostar. Esse é o caso aqui: tentarei listar as razões pelas quais eu odiei o filme e peço que me ajudem a entender nos comentários. Obviamente, falarei bastante da história, então segue o aviso: se você não viu e ainda quer ver o filme, não leia o texto. Contém spoilers.

O filme conta a história de uma região litorânea perto de San Francisco, onde, sem razão aparente, todos os tipos de pássaros começam a atacar as pessoas. Sem entender bem o que acontece, os moradores tentam se proteger e fugir da ameaça.



Situações inverossímeis e mal desenvolvidas: a moça conhece o rapaz em uma loja de pássaros, depois manda um "stalking" agressivo, descobre onde ele passa o fim de semana e vai atrás com a desculpinha de "presentear a irmã dele com periquitos" (?). Após uma tentativa patética de se esconder, é descoberta e... nada acontece. O rapaz leva isso numa boa, e o fato tem quase nenhuma importância para o filme. A moça conhece a professora local, descobre que ela é um ex-caso do rapaz, e... nada. A professora conta para ela que a mãe do rapaz é perigosa e foi a responsável pela separação deles, a mãe faz umas caras sinistras para a câmera, e... nada. Eu poderia dar outros exemplos, mas a impressão que dá é que Hitchcock foi abrindo situações para o filme e depois as descartou sem cerimônia. Ou tirou seus desdobramentos do filme na edição.

Sem falar que, em boa parte dos momentos, as pessoas não reagem como alguém real reagiria. As pessoas, sabendo da ameaça dos pássaros, se colocam em situações de risco. A moça stalker inventa uma historinha muito da vagabunda quando o rapaz a "descobre" "escondida" em um bote no meio do lago. Ele acredita. Toda a cena do bar, quando a moça tenta convencer as pessoas que os pássaros atacaram a escola é simplesmente inacreditável. Em vez de buscar saber o que aconteceu, as pessoas dão uma de malucos: uma mulher fica recitando nomes científicos de pássaros, outro passagens da Bíblia, e uma mãe tampa as orelhas dos filhos para que eles não fiquem com medo de ir à escola. Parte do bar acusa a protagonista de causar os ataques (moralismo, Hitchcock, jura?). Poderia simbolizar o surrealismo da situação (como assim, pássaros atacando pessoas?), onde ninguém sabe como reagir, mas para mim soou apenas como uma cena irritante e sem propósito.



Atuações constrangedoras: para quem já teve James Stewart, Kim Novak, e Anthony Perkins, o casal formado por Rod Taylor e Tippi Hedren (quem?) é quase uma vergonha. Ambos têm carisma negativo, e pouco ajudam em dar alguma vida aos diálogos e situações ruins do filme.

As mulheres: tudo bem que o filme é dos anos 60, mas o próprio Hitchcock, em filmes anteriores, já havia criado personagens femininas mais bem desenvolvidas. Aqui, mesmo a moça stalker, que dá uma de independente, quanto a professora que largou tudo por um amor, são personagens fracas, rasas, que passam o filme todo querendo ser "salvas" por um mocinho que não diz a que veio. Já a mãe do protagonista, pintada como a "megera" que destruiu o relacionamento dele com a professora, passa o filme todo caindo pelos cantos, e no momento em que começa a criar (ou parecer que cria) um vínculo com a protagonista (e você acha que pode ser algum tipo de manipulação), adivinhe!, nada acontece.

O final: Nada contra finais abertos, de maneira alguma. Um dos meus filmes favoritos, Feitiço do Tempo, não explica absolutamente nada e é genial. A cena do confinamento dentro da casa, que supostamente deveria ser o ápice do horror, é chata e previsível (e o que a moça foi fazer no telhado, afinal?). Tudo bem, é um filme de 50 anos atrás, podemos dar um desconto. Aí a cena de suspense apoteótica, com ele saindo para buscar o carro, aquela tensão toda, e...nada. Você ainda tem uma esperança quando a garota pede para levar a gaiola dos periquitos, mas (adivinhe de novo) nada. Os últimos 20-30 minutos de filme se tornam apenas um estorvo inútil. Vamos lá, você é o Hitchcock, pode fazer melhor, vai!


"Mas o filme não tem nada de bom?", você que resistiu até aqui pode me perguntar. Olha, a menos que o pessoal nos comentários mostre que estou errado (o que eu realmente quero que aconteça), para mim, muito pouco. A premissa principal é bem bolada, e o trabalho de produção e filmagem, com o tanto de pássaros que foram necessários, impressiona. Mas só isso. E o pior é que eu esperava muito, por se tratar do considerado "Mestre do Suspense", de quem já vi filmes ótimos. Mas, novamente, posso ter visto o filme em um dia ruim, ou simplesmente ter sido burro para entender as referências. Por isso peço: me malhem nos comentários ou no twitter. Quem sabe eu mudo de opinião. Torço para isso.

Nota: 2,0 (entra na lista dos 10 piores filmes que já vi)

terça-feira, 22 de julho de 2014

Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 1956)


Há filmes que você não apenas assiste, mas faz quase uma opção de vida. Seja pelo tema, seja pela duração, seja pela imersão histórica que proporcionam. Houve um tempo no cinema que uma "superprodução" só era considerada como tal se tivesse esses três componentes: longa duração (longa mesmo, estou falando de no mínimo 3 horas aqui), temas grandiosos e imersão histórica (traduzida em altos orçamentos com locações, figurinos, além de grandes atores). Hoje a palavra perdeu um pouco do sentido original, mas foi a era dos ÉPICOS. Cineastas como Cecil B. DeMille, David O. Selznick, David Lean (de quem já falei em Doutor Jivago) em um dado momento (mais notadamente, as décadas de 40 a 60) se especializaram nesse tipo de filme, que até hoje povoa as reprises noturnas.

Pois foi ontem, em uma dessas reprises, que me deparei com Os Dez Mandamentos. Estava para começar, eu nunca tinha visto, e tudo que ele exigia de mim eram quase 4 horas de dedicação, abrindo mão de parte do meu sono. Era uma proposta tentadora demais.


Apesar de não ser religioso, conheço um pouco da história da Bíblia, ainda mais essa que é uma das passagens mais importantes do Antigo Testamento. Minha primeira surpresa foi perceber que, apesar de seu nome, o filme cobre muito mais do que a entrega das tábuas da lei por Deus a Moisés, cobrindo praticamente toda a sua vida. E o mais interessante é que a parte que mais gostei do filme é justamente o início, que conta desde seu nascimento até a descoberta de que ele é hebreu e consequente expulsão do Egito.



Nessa fase do filme, há de se destacar também um outro aspecto fundamental dos épicos dessa fase: a canastrice das atuações. Um filme de 3, 4 horas de duração não pode se dar ao luxo de "barrigas" muito longas, aquelas sequências de cenas em que o ritmo do filme cai. Assim, todo diálogo, toda cena tem que ser, também, épica. Isso favorece, e até pede, atuações e diálogos que tragam essa "grandiosidade" da produção em cada take. Portanto, os atores acabavam sendo meio "exagerados". Para mim, Yul Brynner, no papel de Ramsés II, personifica bem esse estilo de atuação, com seus trejeitos e impostação de voz. Há de se considerar a época e o filme, mas hoje em dia soa quase caricato. Charlton Heston tem, claro, o papel de sua vida como Moisés, que, por força da própria história, acaba sendo um personagem um tanto unidimensional, ainda mais em sua fase profeta. Quem me surpreendeu foi Anne Baxter, no papel de Nefertiri, futura esposa do faraó. Seu papel se encaixa um pouco na "sedutora vingativa" de A Malvada, mas ela é, pra mim, o destaque do filme em termos de atuação.


No mais, um épico como um épico deve ser: atores de destaque até em papéis secundários (até Vincent Price está no filme), locações grandiosas (parte do filme foi feita no Egito), cenas ambiciosas. Aliás, como disse acima, esperava um filme que falasse mais da peregrinação dos hebreus, e essa parte é tocada bem por alto na história, culminando apenas com a cena mais famosa do filme, a abertura do Mar Vermelho, um feito notável pela tecnologia de efeitos especiais da época (e risível hoje, claro). Não há muito o que dizer sobre a história, o "roteiro original" é uma história de milhares de anos e que se supõe literal, e adaptar uma história em 4 horas de filme não exige lá grandes soluções inventivas de roteiro.



O que acho mais interessante em assistir filmes antigos é entender o que se entendia na época por "contar uma história". Com a introdução primeiro do som, e depois da cor, no cinema, os diretores se sentiam compelidos a (e capazes de) contar grandes histórias. E faziam isso da maneira mais épica possível. Em tempos de "remakes" e de medo de espantar o público se o filme passa de 2 horas, tem um quê de "volta às origens" sentar na frente da TV e dedicar 4 horas (que, por sinal, passaram bem rápido) a uma história, por mais datada e piegas que ela soe hoje. Só isso já valeu as horas de sono perdidas.

Nota: 7,0

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, 1957)


“Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora. Então, vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas. Veio outro anjo e ficou de pé junto ao altar, com um incensário de ouro, e foi-lhe dado muito incenso para oferecê-lo com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que se acha diante do trono; e da mão do anjo subiu à presença de Deus a fumaça do incenso, com as orações dos santos. E o anjo tomou o incensário, encheu-o do fogo do altar e o atirou à terra. E houve trovões, vozes, relâmpagos e terremoto. Então, os sete anjos que tinham as sete trombetas prepararam-se para tocar.” Apocalipse 8.1-6

A Morte. De todos os medos e dúvidas humanos, o mais fundamental, e o mais impossível de ser resolvido. Se não conseguimos entendê-la, pelo menos essa dúvida alimenta criadores e nos dá filmes como O Sétimo Selo. Extremamente alegórico, o filme conta a história de um cavaleiro medieval que, ao retornar para casa depois de muitos anos combatendo nas Cruzadas, encontra sua terra devastada pela peste, e se questiona sobre sua fé e sobre o sentido da vida e da morte.


Mas, claro, a parte mais conhecida e mais emblemática do filme é o jogo de xadrez com a Morte. Ao retornar com seu escudeiro, o cavaleiro Antonius Block é abordado pelo Ceifador, que comunica que veio buscá-lo. Buscando ao mesmo tempo adiar a morte e compreendê-la, ele a desafia para um jogo de xadrez, valendo sua vida. As cenas entre Block e a Morte são algumas das melhores do filme, onde ele, um bom jogador de xadrez, tenta enganá-la no jogo e ao mesmo tempo pergunta o porquê da vida, da morte, do sofrimento, da fé. Ao mesmo tempo, a Morte, com sua "serenidade eterna", sabe que vai ganhar e se evade de responder qualquer coisa, às vezes inclusive dando a impressão de que também não sabe as respostas, e só cumpre sua missão, assim como Block.

O filme também questiona bastante a fé, mostrando as diferentes reações das pessoas à perspectiva da morte. Block, que vê os acontecimentos à sua volta, duvida da existência de Deus e portanto não vê sentido nos anos de guerra em seu nome ("Temos que imaginar como é o medo e chamar essa imagem de Deus"); seu escudeiro Jons, que olha tudo de maneira cínica ("A fé é como estar apaixonado por alguém que vive no escuro e não vem quando se chama"); o povo das cidades, que varia de querer aproveitar a vida ao máximo a se flagelar em busca de redenção para seus pecados, visando fugir da praga, que acreditam ser um castigo divino.


Em resumo, os temas de Bergman nesse filme são o questionamento da fé e a inevitabilidade da morte. Não sou um grande fã do diretor (já falei aqui sobre Persona e além dele, já vi A Fonte da Donzela. Por falta de termo melhor, chatos pra cacete), mas nesse filme ele entrega uma fábula consistente, com grandes atuações, uma fotografia P&B muito bonita e, principalmente, uma história interessante e provocativa. Imagino a "polêmica" que causaria se fosse lançado hoje.

Por isso tudo, vale a pena vencer o preconceito (seja ele contra Bergman, filmes P&B ou filmes de "arte") e ver (e rever) O Sétimo Selo. Como eu costumo dizer por aqui, cinema é entretenimento, mas também é ótimo para dar o que pensar. Esse é um ótimo exemplo.

Nota: 8,0

sábado, 16 de março de 2013

Maratona de filmes março/2013


O post de hoje é um pouco diferente. Aliás, bem diferente. Eis que me encontro, sozinho em casa, sexta-feira à noite. Esposa na pós (hoje de noite e amanhã o dia todo), filha passando uns dias com a avó. Foi assim que me surgiu a ideia: tenho tantos filmes que ainda quero ver, e normalmente tão pouco tempo para vê-los, que tal passar esse tempo todo (adivinhem) vendo filmes?

Pois bem, é isso que vou fazer. Começando agora (sexta, 20:30), e amanhã o dia todo, pretendo assistir algo em torno de 7-8 filmes. E descrever a experiência aqui, não só falando sobre os filmes mas também sobre a maratona em si, se eu aguentar até o fim.

A escolha dos filmes? O único critério é que eu não tenha visto ainda (ou que, por tempo ou outra razão, não me lembre mais dele). No mais, pretendo variar bastante de gênero, país, época, tipo... Nada contra, por exemplo, uma maratona de filmes do James Bond, mas não é essa a minha ideia hoje (portanto, pode parar de me chamar, box de Star Wars...)

Outro critério é que o filme da noite não seja mudo, longo ou devagar demais. Acabei de parar de trabalhar, a chance de dormir na frente da TV é enorme.


Assim, também em homenagem aos 70 anos de David Cronenberg completados hoje, um filme via Netflix: eXistenZ (1999). Seguindo a linha dos demais filmes do diretor, tem características de realidade distorcida, contando a história de um jogo de realidade virtual jogado através de conexões bio-mecânicas. A criadora do jogo (Jennifer Jason Leigh, uma das atrizes mais subestimadas do cinema) é atacada por uma organização que é contra a fuga da realidade que o jogo produz. Não é um filme para todos, tem um quê de bizarro, mas a história é muito interessante, e imagino que tenha influenciado muitos filmes mais recentes, como Inception, por exemplo. Muito bom filme, com vários "plot-twists". Nota: 7,0

Continuando, acho que por hoje (sexta-feira) é só. São quase 23h e a perspectiva é de um dia longo de filmes amanhã.


Já dormi, acordei, corri e comi, então resolvi começar o dia com um filme mais leve para ir devagar: Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera, 1935), comédia dos irmãos Marx em que eles tentam ajudar um casal de cantores a ficarem juntos e a fazer sucesso na ópera. Nunca tinha pensado em uma grande diferença entre o drama e o humor: as histórias dramáticas são clássicas, e "esqueletos" de roteiro funcionam bem desde o início do teatro na Grécia Antiga, como o amor não correspondido, as diferenças sociais impedindo casais de serem felizes e outros. Já o humor é tremendamente mutante. O que faz as pessoas rirem hoje provavelmente não as fará em 20 ou 30 anos. Não existem grandes histórias clássicas de humor. Tudo isso para dizer que, apesar de clássico, para mim esse filme envelheceu muito mal: todo baseado em "gags" físicas e nas frases espirituosas de Groucho Marx, quase 80 anos depois perdeu toda a sua novidade. E o tanto de números musicais torna a hora e meia de filme um suplício. Nota: 4,0.


Um café depois, e segue a maratona, com Cova Rasa (Shallow Grave, 1994). Primeiro filme para o cinema de Danny Boyle (Trainspotting, A Praia, Quem Quer Ser um Milionário?), já mostra tanto na direção quanto nas atuações (adoro a fase "escocesa" de Ewan McGregor, pra mim um excelente ator) o amadurecimento que continuaria 2 anos depois em Trainspotting. Conta a história de 3 amigos que moram juntos, e acabam aceitando mais um morador para dividir as despesas. Logo em seguida, o novo morador tem uma overdose no quarto, e eles descobrem uma mala de dinheiro escondida. A evolução de cada um dos personagens é notável, e aos poucos a situação vai exercendo sobre eles uma pressão que se torna insuportável. Ótimas atuações (coincidentemente, é o segundo filme de Christopher Eccleston nessa maratona, 2 boas atuações), e o roteiro com aquele jeitão inovador e abusado de filme iniciante. Nota: 7,0


Depois do almoço, hora de falar sério. Um dos filmes que todo mundo mais se espanta quando digo que não vi. Problema resolvido agora: Taxi Driver (1976). Nem preciso falar sobre a história, nem sobre a atuação de Robert de Niro (e queriam dar o Oscar pra ele por O Lado Bom da Vida????). Aliás, o grande problema foi esse: depois de ouvir falar tanto do filme, de já saber os pontos principais da história (ele leva a namorada no cinema pornô, tenta salvar a menina prostituta, mata um monte de bandidos, e tal), o filme perde um pouco do impacto. Não é culpa do filme, claro, mas minha por não tê-lo visto antes. De todo jeito, grande história, refletindo bastante o momento da história americana em que se passa, final da Guerra do Vietnã, país com moral baixa, veteranos voltando e não conseguindo se encaixar de volta. A direção de arte e fotografia são absolutamente fantásticas, essas sim me surpreenderam bastante. Scorsese é Scorsese, afinal, e esse, um de seus primeiros trabalhos, já mostra seu potencial. Nota: 7,0.


Pra quebrar um pouco o clima "pra baixo" do fim de tarde, nada como uma animação. Já tinha ouvido falar bastante de Wall-E (2008), até comecei a assistir uma vez, mas nunca tinha ido até o fim. Que filme fantástico! Quase sem falas na primeira metade, mostra que existem muitas maneiras de se passar a mensagem que se quer. Mostra também que o discurso ambientalista e contra o consumismo exagerado é importante e não precisa ser chato. E principalmente, mostra que personagens carismáticos podem fazer milagres por uma história. Difícil não se pegar torcendo pela "vida" e pelo "amor" entre dois robôs, e se emocionando no final. Pixar é foda. Podem me julgar à vontade, mas por enquanto é o melhor filme do dia (é, melhor que Taxi Driver). Nota: 8,1 (passa a ser o 58o. lugar na minha lista de filmes favoritos)


E, pra fechar a noite (embora eu ainda tivesse alguns filmes na fila), um clássico, muito mais denso e interessante do que eu imaginava: Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire, 1951). Que a atuação de Marlon Brando seria poderosa eu até já imaginava, mas, por não ter visto ...E o Vento Levou não tinha ideia de que Vivien Leigh pudesse ter uma atuação tão arrebatadora. Segundo li, ela se entregou tanto ao papel, que depois desse filme (por sofrer de transtorno bipolar) passou a confundir sua vida com a de sua personagem. Uma atuação que faria corar a maioria das vencedoras de Oscar de Melhor Atriz das últimas décadas, que acabam ganhando mais por transformações físicas que pela atuação (já falei mal de O Lado Bom da Vida aqui, não vou falar de novo, mas Jennifer Lawrence passa vergonha perto de Vivien Leigh).

Além disso, a história, adaptada de uma peça de Tennessee Williams, é fantástica. Nota-se que em alguns momentos foi suavizada devido ao código de regras de Hollywood à época, mas ainda assim é difícil imaginar um filme tão ousado e chocante hoje em dia. A história da mulher metida a aristocrata que perde tudo e vai morar com a irmã submissa e o marido violento, e cujos segredos aos poucos vão se revelando, é um tratado de personalidade, e o filme vai evoluindo os personagens aos poucos, contando com roteiro e atuações maravilhosos. Um belo final para um dia inteiro de filmes. Nota: 8,5 (passa a ser o 34o. lugar na minha lista de filmes favoritos)

Ah, e me recuso a usar a incompreensível tradução do título para português Uma Rua Chamada Pecado. Não faz sentido algum.

Acho que consigo ver mais um filme...

É isso. Sinceramente, esperava ter conseguido ver pelo menos mais um, mas os próximos da fila aqui eram muito longos (estava entre Duna e Lawrence da Arábia), e ainda tive que dar uma saída no meio do último que deu uma quebrada no cronograma. Não estou exatamente como nessa foto, mas são 23h de sábado e acho que não consigo ver mais nada. De todo jeito, 6 filmes em pouco mais de 24h é uma boa marca, e em geral foi uma experiência positiva, tendo visto alguns ótimos filmes. Quem sabe não faça de novo algum dia.

E, se algum de vocês heróis leitores, conseguiu chegar até aqui, comente! São 6 filmes, duvido que não tenham visto pelo menos um, e queiram discordar de algo (ou tudo) que falei. É só usar esse espaço logo aqui embaixo....