Simples assim. Comentários sobre filmes que já vi, bons ou ruins, recentes ou antigos. Um jeito de falar sobre cinema sem necessariamente ter alguém pra me ouvir.
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
Oscar 2019 - Quem ganha?
É chegada a hora de palpitar e cornetar os palpites dos outros e os prêmios da Academia! Como excepcionalmente eu vi muitos dos filmes indicados esse ano, vou dizer aqui quem eu queria e quem eu acho que ganha o careca da Academia.
O ano de 2018 não me pareceu uma safra particularmente prolífica em termos de grandes filmes e grandes atuações indicadas ao Oscar. Por outro lado, não há um favorito destacado, e devemos ter algumas surpresas ao longo da premiação. É tipo campeonato da série B: o nível não é lá essas coisas, mas pelo menos vai ter disputa.
Sem mais delongas, vamos aos palpites furados. Depois eu volto e atualizo com os vencedores, ou com alguma mudança se eu assistir mais algum filme.
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
A Queda (Der Untergang, 2004)
Como eu já disse antes, o nazismo e a II Guerra Mundial estão entre os assuntos mais retratados pelo cinema. Não à toa, já que foi uma das épocas que definiram o século XX. Um pouco mais raro é o cinema alemão (e os alemães em geral) abordar o assunto, já que, apesar dos quase 70 anos que se passaram, o assunto ainda é de certo modo tabu na sociedade alemã. Muitos ainda se perguntam como foi possível que a sociedade inteira de seus antepassados pudesse fazer parte (ou pelo menos compactuar) de um dos maiores genocídios da história.
Só por isso esse A Queda já seria algo a se destacar. Com uma visão crua e direta focada nos últimos dias de vida de Hitler, já cercado em seu bunker de Berlim, e aceitando a realidade de uma guerra perdida, o filme traz justamente essas questões: "O que fez com que as pessoas acreditassem tão cegamente nesse homem e nessa causa? Até que ponto tinham ou não opção de se opor?"
Mas o filme, claro, tem outras qualidades. Baseado em um livro escrito por Traudl Junge, sua secretária particular, o filme se passa em menos de uma semana, entre o aniversário de 56 anos do "Führer" e o final da guerra na Alemanha, com seu suicídio e a rendição do país. E a caracterização desse período é assustadora de tão boa. O clima claustrofóbico, a tensão da derrota e da invasão dos russos, o dilema entre o medo de morrer e a devoção a Hitler, tudo contribui muito para um filme extremamente realista e muito bom. Mas talvez o principal fator de sucesso do filme seja a atuação de Bruno Ganz como Hitler. É assustador o quanto ele incorpora o papel, tendo estudado discursos e conversas privadas do líder alemão, além de comportamento de pacientes de Parkinson, e juntado isso tudo de maneira extremamente competente. A principal cena do filme, mostrando a reação dele ao descobrir que não tem como evitar a tomada de Berlim, colocando a culpa em seus generais, ficou tão famosa que já foi "legendada" com todos os assuntos possíveis, de mudança de time de jogador de futebol americano a discussões sobre Harry Potter. Um primor:
Mas um ponto que me agrada demais no filme é a "humanização" da figura de Hitler. A mente das pessoas trabalha melhor com conceitos extremos: uma pessoa é bonita ou feia, honesta ou corrupta, boa ou má (e até por isso, por exemplo, novelas são tão calcadas nessa dicotomia). Para nós, é de certo modo reconfortante achar que podemos identificar o mal absoluto, ou seja, que alguém capaz de fazer as maldades que Hitler fez não seja considerado humano, assim como nós. Enxergá-lo como uma pessoa "comum", com amores, temores, emoções, virtudes (por que não?) e falhas quebra esse "conforto", mostrando que heróis e vilões também são como nós, são feitos do mesmo material, e mostram que nós também temos nossas virtudes e defeitos. E isso é fascinante.
Nota: 8,2 (48o. na minha lista de filmes favoritos)
PS: Fazia tempo que eu queria falar desse filme, por ser um filmaço. No entanto, os acontecimentos de ontem acabaram me incentivando a antecipar essa resenha. Fica aqui a "homenagem" ao time do Palmeiras, não apenas pelo nome do filme (A Queda), como também na cena seguinte (o pessoal é rápido...)
sábado, 10 de novembro de 2012
A Onda (Die Welle, 2008)
Os alemães têm, como era de se esperar, uma relação conturbada com seu passado. Já falei sobre isso, inclusive, no texto sobre Adeus Lênin. Ao mesmo tempo em que têm certo medo do que eventuais manifestações de nacionalismo podem vir a causar, não gostam de se sentir responsáveis por algo que seus antepassados fizeram há mais de 70 anos. O início desse filme retrata bem isso: em uma semana de "projetos especiais" em uma escola alemã de ensino médio, Rainer, um professor novato e meio revolucionário (um dos clichês de filmes mais repetidos, por sinal), apesar de querer dar aula sobre anarquia, acaba sendo designado como professor de autocracia/ditadura. Por gostarem do professor, vários alunos se inscrevem no curso, mas logo se vê o desânimo quando um aluno diz algo como "vamos falar de nazismo de novo? não acredito que ainda achem que, depois de tudo o que aconteceu e de tanto que nos falam isso, essa geração ainda tem alguma chance de repetir a história", e todos meio que concordam.
A partir do ponto de vista dos alunos, Rainer propõe então algo diferente: que ele e seus alunos formem uma sociedade fechada, que define suas próprias regras, que todos devem seguir, e iniciando-se como uma democracia, já que os próprios alunos elegem seu líder no primeiro momento (o próprio Rainer). Aos poucos, o sentimento de unidade vai se formando entre eles, que decidem utilizar uniformes, ter um nome especial (A Onda), e criam logos, saudações e todo tipo de ferramenta de unidade (que, obviamente, acabam virando ferramentas de segregação). Inicialmente, alguns alunos que sempre se sentiram excluídos ficam mais felizes por finalmente se sentir parte de algo, embora poucos outros comecem a perceber os perigos dessa união. Claro, não é preciso ser adivinho para saber que o experimento dá errado.
Alguns pontos estranhos no roteiro acabam tornando o filme algo mais alegórico do que documental. Não fica muito claro qual era a verdadeira intenção de Rainer ao propor o experimento (eu não consigo ver um desfecho "pacífico" para ele), nem porque ele demora tanto para encerrá-lo com as evidências de que algo está errado. Parece que algumas coisas acontecem só para que a história chegue onde precisa chegar. Não chega a ser um defeito que incomode, já que o principal é a mensagem por trás: as pessoas são naturalmente atraídas por fazerem parte de um grupo, e tendem a hostilizar e, se possível, controlar os que não são parte dele. Não importa o quanto saibam que não deveriam, ou as consequências disso.
A alegoria acaba sendo o ponto forte do filme. Por mais que algumas situações soem forçadas, dá pra acreditar sinceramente que, em situações similares, pessoas (e até você mesmo, por que não?) teriam essas reações. Já disse em algum momento que gosto muito de filmes que examinam as pessoas e suas reações, como se fossem estudos antropológicos. Neste filme, por mais construídas que sejam as situações, esse aspecto de estudo da mente coletiva é muito interessante, especialmente quando se chega a extremos. E, claro, o filme mostra que, por mais que tenham estudado a vida toda os efeitos de um regime autoritário, os alunos "caem na armadilha" sem pensar muito.
Concorde ou não com a mensagem, sempre é interessante ver filmes que fazem pensar, especialmente quando analisam e propõem discussões de como somos enquanto pessoas. Mesmo que a conclusão não seja a melhor possível...
Nota: 7,5
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
A Lista de Schindler (Schindler´s List, 1993)
A II Guerra Mundial, especialmente o nazismo, está provavelmente entre os assuntos mais retratados no cinema, de todas as maneiras imagináveis. Desde um foco histórico, retratando os grandes atores do conflito (como em A Queda), seja com foco nos conflitos (A Ponte do Rio Kwai, ou as minisséries The Pacific e Band of Brothers), ou até com um tanto de realismo fantástico (Bastardos Inglórios). Esse filme, que marcou a consagração e o reconhecimento definitivos de Steven Spielberg (pelo menos em termos de Oscars), conta uma história sob o ponto de vista dos judeus, e de um industrial alemão que, com o desenrolar da guerra, percebe o mal que está sendo impetrado e tenta fazer algo para minimizá-lo.
A história é essa mesmo: ao se mudar para a Polônia durante a guerra para aproveitar a mão de obra barata dos judeus para montar uma fábrica de armamentos, o empresário Oskar Schindler (junto com seu contador judeu), começa timidamente a salvar alguns judeus sem condições de trabalho, alegando que fazem parte de sua força de trabalho e evitando que sejam mandados para campos de concentração. No momento em que o gueto onde sua fábrica está é fechado, e todos os judeus serão enviados para Auschwitz, ele utiliza sua fortuna e influência para garantir salvar o máximo possível de pessoas.
Spielberg intensifica ainda mais nesse filme a carga dramática que é sua característica, em um projeto extremamente importante sob o ponto de vista pessoal, uma vez que é descendente de judeus. Isso de certa forma é esperado, até. Um ponto mais surpreendente são as atuações. Não porque os atores sejam ruins ou venham de más atuações, mas porque entregam performances muito intensas, e ótimas, contribuindo demais para a carga dramática do filme. Ben Kingsley é um excelente ator e aqui prova isso mais uma vez. Liam Neeson (na época, praticamente um desconhecido, tendo como único papel de destaque até então o filme Darkman - Vingança sem Rosto) tem a atuação de sua vida como Oskar Schindler, sendo responsável por boa parte do sucesso do filme (e começa a pavimentar o caminho para seu sucesso no papel de mentor - como descrito com bastante humor aqui - afinal ensinar Obi-Wan Kenobi, Darth Vader e Batman não é para qualquer um). Mas a alma do filme, no papel do diretor nazista do gueto judaico Amon Goeth, é Ralph Fiennes (também desconhecido na época). Sua imersão no personagem é impressionante, e ele encarna fielmente um personagem psicopata, que faz as maiores atrocidades sem demonstrar emoções, e ao mesmo tempo mostrando desequilíbrio em alguns momentos. Só quem nunca viu esse filme acha que Voldemort, de Harry Potter, é seu vilão mais assustador.
No mais, a tradicional competência de Spielberg, em termos de roteiro, fotografia (o preto e branco com alguns toques de cor chega a ser comovente), trilha sonora, compondo um filme tecnicamente próximo da perfeição. As cenas do holocausto são muito bem feitas, realistas e passam uma emoção enorme, dando rostos aos números infames de que ouvimos falar quando se diz sobre a guerra. Mas não é isso o que me fez ter vontade de escrever sobre esse filme agora.
Assisti esse filme pela primeira vez no cinema, no lançamento (ah, a época de escola), algo como 18 anos atrás. Adorei, me impressionei demais, mas nunca mais havia visto novamente. Conforme até comentei no Facebook outro dia, peguei o filme quase por acaso começando no Telecine Cult. Resolvi assistir, e logo percebi que, em certos casos como esse, quem você é faz uma diferença enorme na visão e no entendimento que tem do filme. Não que eu fosse um completo idiota aos 17 anos, mas ter vivido um monte de coisas a mais, ser pai, e até ter opiniões mais firmes sobre o mundo e sobre relações e injustiças fazem uma enorme diferença na mensagem que você captura do filme. Inclusive, nesse caso, abri uma exceção: apesar de meu ranking de filmes considerar sempre a nota da primeira vez que assisti, fui na planilha e aumentei a nota que havia dado originalmente. Mereceu, e muito. Para mim foi quase outro filme.
É um filme sublime, e entendo que não é nada que falo aqui que fará alguém mudar sua opinião ou gostar mais do filme. O que eu posso dizer aqui é: às vezes existem momentos ou fases mais certas para apreciarmos certos filmes. Percebi isso da melhor maneira possível.
Nota: 8,6 (29o. colocado na minha lista de filmes favoritos)
domingo, 2 de setembro de 2012
Viagem à Lua (Le Voyage dans la Lune, 1902)
O post de hoje é mais uma homenagem que uma crítica. Li na internet que hoje faz "apenas" 110 anos que esse filme foi lançado. É considerada a primeira ficção científica da história do cinema, criada pelo escritor visionário francês Georges Meliès.
É impressionante que um filme desse tenha sido criado apenas 7 anos depois da data considerada como a invenção do cinema. Em 1895, aconteceu o que foi considerada a primeira sessão de cinema do mundo, com a apresentação do filme Chegada do Trem à Estação no "cinematógrafo" dos irmãos Lumière. Até então, as únicas tentativas bem-sucedidas de apresentação de imagens em movimento eram praticamente individuais, e apenas com o cinematógrafo foi possível mostrar um filme a uma audiência maior (cerca de 30 pessoas na primeira sessão).
Os primeiros filmes eram essencialmente "documentários", ou seja, filmagens de cenas cotidianas. Meliès foi um dos primeiros a de fato criar roteiros, utilizando recursos como trucagem, sobreposição de imagens e efeitos visuais. Viagem à Lua é um de seus primeiros filmes. Com apenas 15 minutos (o conceito de "longa-metragem" ainda não era o mesmo de hoje - inclusive, por se tratar de um filme mudo, a duração pode variar de acordo com a velocidade de projeção), o filme mostra um grupo de "cientistas" (que parecem mais bruxos) viajando para a Lua em um foguete disparado por um canhão. Chegando lá (na cena mais conhecida do filme, onde o foguete aterrissa no "olho" da Lua), os cientistas encontram uma civilização que lá vive (os selenitas), são aprisionados, fogem e voltam à Terra, onde são recebidos com festa.
A mistura de ficção e fantasia é fascinante. Ainda "descobrindo" a nova arte, Meliès se livra das amarras da realidade, mostrando os corpos celestes humanizados, habitantes da Lua, além das cenas do lançamento serem muito inventivas. É curioso imaginar como os pioneiros do cinema imaginavam e criavam, sem os "padrões" estarem estabelecidos. Muitos anos antes do cinema colorido ter sido inventado, esse filme foi mostrado colorido, sendo que cada um dos mais de 13 mil fotogramas foi pintado à mão (por sinal, essa versão colorida foi dada como perdida até 1993, quando uma cópia em estado quase de decomposição foi achada na Espanha. Foi restaurada e mostrada no Festival de Cannes de 2011).
O filme completo pode ser visto abaixo. É um documento de uma época, do nascimento de uma arte, e merece muito ser visto:
Como eu disse, essa não é uma crítica e sim uma homenagem. Portanto, não faz sentido falar em minha nota para esse filme, já que ele nem pode ser comparado aos filmes que normalmente avalio aqui. O que vale mesmo é esse registro, e acho muito notável o quão rápida é a evolução do cinema, que pode nos dar uma jóia dessas em apenas 7 anos, e ter chegado onde chegou em apenas 110. E esse blog (especialmente esse post) é um reconhecimento a essa grandeza.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Casablanca (1942)
Para quem eventualmente nunca viu (saia daqui e vá assistir, seu louco!), o filme, feito ainda durante a II Guerra, conta a história de Rick (Humphrey Bogart), um cínico americano que possui um bar em Casablanca, cidade no Marrocos que se tornou um destino procurado por aqueles que querem fugir do nazismo para os Estados Unidos. Um dia, entra em seu bar Ilsa (Ingrid Bergman), que foi o grande amor de sua vida, mas está casada com o líder da resistência Victor Laszlo (Paul Henried), e os dois procuram uma maneira de fugir, sendo perseguidos pelos nazistas. Neste momento, Rick se divide entre o amor por Ilsa e a possibilidade de ajudar Laszlo, e deve decidir o que fazer.
Parece uma história de amor comum, de um casal apaixonado lutando contra as dificuldades, e não deixa de ser. Mas, como sempre, o que importa mais é como a história é contada. Assim, acho que algumas coisas explicam porque esse filme, para mim, é considerado quase perfeito:
- A história: apesar de um tanto batida, a história consegue situar bem o caso entre os dois dentro do contexto da guerra e do local (impressionante como a guerra, além da cidade de Casablanca, são como personagens do filme). O uso das cartas de trânsito como "McGuffin" (segundo Hitchcock, o objeto que todos querem mas cuja natureza não é relevante) funciona muito bem, e a dicotomia entre o amor e o dever move a história de maneira muito fluida. O suspense de como vai acabar o filme é bastante eficiente e o final soa bastante natural, dentro das circunstâncias.
- Os personagens: é impressionante a construção dos personagens. Sem pressa, mas de maneira direta. Em poucas cenas, você já sabe quem é Rick, ao mesmo tempo em que aos poucos vai se surpreendendo com suas atitudes. A "mocinha" do filme só aparece com 25 minutos de filme, e rapidamente se entende o tipo de conflito que ela tem com o personagem principal, embora os detalhes vão sendo mostrados aos poucos. Os demais - o policial francês, o major da GESTAPO, o ladrão italiano (Ugarte, uma fantástica criação de Peter Lorre, de O Vampiro de Dusseldorf, que marca o filme apesar de poucos minutos em cena) - são não apenas bem construídos como maravilhosamente interpretados. A química entre Humphrey Bogart e Ingrid Bergman é perfeita, e os coadjuvantes contribuem demais para a história, tornando a experiência muito mais rica.
- a música: "As Time Goes By" deixou de ser apenas uma trilha sonora de filme, e também é um personagem em Casablanca. O curioso é que quase foi limada do filme: o responsável pela trilha sonora quis tirá-la do filme depois de pronto. Só não conseguiu porque certas cenas teriam que ser refilmadas, e Ingrid Bergman já havia cortado o cabelo para Por Quem os Sinos Dobram. Ironicamente, justamente o fato de estar tão entranhada no filme salvou a música de ser esquecida. E a música aparece em grande estilo: o reencontro entre os ex-amantes acontece justamente por causa de "As Time Goes By", com a icônica frase "Play it, Sam" (e não "Play it Again, Sam", como muita gente acha). Um dos momentos-chave do cinema.
- a fotografia: Casablanca, no Marrocos, é uma das cidades que quero conhecer no mundo por fatores aleatórios (junto com Vladivostok, por causa do War, e Greenwich, por causa do meridiano). Tudo, claro, por causa do filme. Obviamente não vou encontrar o "Rick's Café Americain" e muito menos Rick e Ilsa por lá, mas a ambientação do filme é perfeita, mostrando a cidade e os principais cenários de maneira muito bonita.
- o "imaginário coletivo": Algumas obras de arte, sejam filmes, pinturas, músicas, transcendem seu status de obra de arte e passam a fazer parte da cultura das pessoas. Nesse caso, atingem de fato o status de clássicos. Cenas como a Marselhesa no bar, os números musicais de Sam, os flashbacks de Rick e Ilsa, até a cena final no aeroporto (com fog no deserto, veja você!) entraram para o "inconsciente coletivo", mesmo 70 anos depois de feitas. As frases do filme ecoam até hoje. E afinal, não é qualquer filme que consegue ser homenageado pelo Pernalonga e pela Turma da Mônica...
- a "ousadia histórica": tá bom que o filme foi pensado como propaganda de guerra, em uma época de máximo domínio nazista na Europa e quando os Estados Unidos tinham acabado de entrar no conflito. Mas não deixa de ser corajoso e relevante falar sobre o sofrimento da II Guerra em 1942, enquanto ela ainda acontecia. E, se há alguma manifestação patriótica no filme, é francesa e não americana. Críticas como "Dê ao Major Strasser a melhor mesa!" / "Já fiz isso, ele é alemão e a tomaria de qualquer jeito" davam um tom incrivelmente atual ao filme, em uma época onde o cinema era regulado por várias "leis de conduta" (tanto que houve dúvidas se a censura liberaria mostrar Ilsa e Rick como amantes, dado que ela era casada com Lazslo). Quantos anos levou para a Guerra do Vietnã aparecer em um filme importante?
- o fator pessoal: acho que essa é a principal razão para que eu goste tanto de Casablanca. Devo ter visto o filme pela primeira vez com uns 15 anos, pegando por acaso em algum Corujão da vida. Gostava de filmes, mas sem nunca ter me interessado propriamente por cinema. E, sem internet, nem sabia quais eram os filmes clássicos, e me interessava menos ainda. Não me lembro, mas a própria decisão de parar para ver aquele filme preto e branco no meio da madrugada foi algo bastante fortuito (ou resultado de um tédio monstruoso). Pois bem, o que me lembro bem foi o quanto me surpreendi e adorei o filme. Não percebi na hora, mas foi o início de uma visão muito mais ampla e interessante sobre o cinema, e com certeza contribuiu muito para que eu gostasse tanto do assunto nos anos seguintes. Ajudou também a me fazer perceber que coisas boas poderiam vir fora da "zona de conforto" dos filmes que um adolescente de 15 anos procura assistir. Descobri e assisti muita coisa boa (e ruim) depois disso, mas o lugar especial esta lá, para um filme não apenas fantástico, mas que principalmente me fez ver tanta coisa depois...
É como se no final do filme, fosse o cinema em si me dizendo "I think this is the beginning of a beautiful friendship"...
Nota: 9,9 (1o colocado na lista dos meus filmes favoritos)
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love The Bomb, 1964)
Acho que já estava na hora de falar de outro filme clássico, então escolhi esse que para mim é um dos melhores de todos os tempos: uma mistura de filme de guerra, drama e comédia que na minha opinião é o ponto alto da carreira do fantástico comediante Peter Sellers. Ele faz 3 papéis no filme: o presidente americano, um militar inglês e o cientista alemão que dá nome ao filme, um remanescente do nazismo que virou consultor nos EUA.
A história se passa no auge da Guerra Fria entre EUA e URSS. Por uma paranoia pessoal, um comandante militar americano ordena um ataque nuclear à URSS, e por conta de todas as proteções anti-espionagem, aparentemente ninguém consegue cancelar o ataque. Para piorar, a URSS acabou de ativar o "artefato do fim do mundo", um conjunto de mísseis disparado automaticamente caso os soviéticos sofram um ataque, e que também não pode ser cancelado. Com isso, americanos e russos se juntam para tentar evitar o fim do mundo.
Poderia ser o roteiro de um filme tenso de guerra. E de fato existem filmes mais "sérios" com essa premissa (me lembro de Fail Safe, um filme com George Clooney, que foi apresentado ao vivo na TV americana uns anos atrás). Mas não é o caso de Dr. Fantástico. Apesar de alguns momentos mais sérios, o filme é todo em tom de sátira, e para mim é de longe o melhor filme do Kubrick, que inclusive dirigiu parte dos atores fazendo-os acreditar que o filme era sério.
Mas o filme é de Peter Sellers. Um excelente comediante, especialista em construir tipos, como o Inspetor Clouseau de A Pantera Cor de Rosa, aqui desempenha 3 papeis de maneira impressionante, como se fossem de fato 3 atores diferentes. Chega inclusive a "contracenar" consigo mesmo. Claro que "gênios" da sétima arte como Eddie Murphy e Adam Sandler já fizeram isso também, mas sem 1% da maestria de Sellers. Chega a ser uma blasfêmia compará-los.
Já disse em algum momento, acho que a comédia e a sátira são excelentes maneiras de revisitar a história. Nesse caso, é simplesmente genial, juntando um diretor perfeccionista, um ator excelente e um roteiro inspirado. Não sei se todos já viram o filme, mas sugiro fortemente. Uma aula de atuação em um filme fantástico.
Nota: 8,6 (28o colocado na minha lista de filmes favoritos)
A história se passa no auge da Guerra Fria entre EUA e URSS. Por uma paranoia pessoal, um comandante militar americano ordena um ataque nuclear à URSS, e por conta de todas as proteções anti-espionagem, aparentemente ninguém consegue cancelar o ataque. Para piorar, a URSS acabou de ativar o "artefato do fim do mundo", um conjunto de mísseis disparado automaticamente caso os soviéticos sofram um ataque, e que também não pode ser cancelado. Com isso, americanos e russos se juntam para tentar evitar o fim do mundo.
Poderia ser o roteiro de um filme tenso de guerra. E de fato existem filmes mais "sérios" com essa premissa (me lembro de Fail Safe, um filme com George Clooney, que foi apresentado ao vivo na TV americana uns anos atrás). Mas não é o caso de Dr. Fantástico. Apesar de alguns momentos mais sérios, o filme é todo em tom de sátira, e para mim é de longe o melhor filme do Kubrick, que inclusive dirigiu parte dos atores fazendo-os acreditar que o filme era sério.
Mas o filme é de Peter Sellers. Um excelente comediante, especialista em construir tipos, como o Inspetor Clouseau de A Pantera Cor de Rosa, aqui desempenha 3 papeis de maneira impressionante, como se fossem de fato 3 atores diferentes. Chega inclusive a "contracenar" consigo mesmo. Claro que "gênios" da sétima arte como Eddie Murphy e Adam Sandler já fizeram isso também, mas sem 1% da maestria de Sellers. Chega a ser uma blasfêmia compará-los.
Nota: 8,6 (28o colocado na minha lista de filmes favoritos)
terça-feira, 13 de março de 2012
Adeus, Lenin! (Good bye Lenin!, 2003)
Acho que não conheço ninguém que não gostou desse filme. Leve (apesar do assunto), simpático, engraçado e com uma mensagem muito legal, o esforço de se agradar a quem se ama. Eu, pelo menos, adoro.
A história se passa na ex-Alemanha Oriental, e se inicia poucos meses antes da unificação alemã, já durante os protestos contra o regime comunista. O protagonista, contra a opinião de sua mãe, comunista fanática, vai a um desses protestos. Quando a mãe o vê, sofre um infarto e entra em coma por alguns meses. Ao acordar, o mundo em sua volta já mudou completamente: a Alemanha é uma só, e o capitalismo avança furiosamente. Orientado pelo médico a não submeter sua mãe a emoções fortes, o filho então "cria" uma Alemanha Oriental falsa, apenas para sua mãe.
O que poderia ser um filme de uma piada só se mostra uma história engraçada sim, mas muito humana, mesclando o esforço do filho de resgatar aquilo que todos os outros estão loucos para se livrar, com os momentos em que ele, sob os protestos da irmã, insiste em criar esse "mundo" para sua mãe. Filme altamente recomendado.
O que me traz a um assunto interessante, que é o cinema refletindo a História. Desde os primórdios, os filmes vêm sendo utilizados para contar (ou até para manipular) a História. Iniciando por filmes como O Nascimento de Uma Nação, com sua visão elitista e racista dos EUA, até as dramatizações do 11 de setembro pelo mundo, muitas vezes o cinema externa uma visão de mundo da época em questão, ajudando seus espectadores a lembrar, conhecer e formar opinião sobre o que vêem.
No caso da Alemanha, essa relação é bastante mais conturbada. Dona de um cinema bastante interessante nas décadas de 20 e 30, reduzido durante a guerra a peças de propaganda como O Triunfo da Verdade (independente de sua qualidade cinematográfica), o cinema alemão, assim como seu povo, ainda guarda uma relação de tabu com seu período mais negro: o domínio nazista, talvez se perguntando como puderam deixar ou ajudar aquilo acontecer.
Por isso, é muito mais fácil vermos o povo alemão rindo da época do comunismo (que, por sinal, é muito mais recente), do que do nazismo. Para mim, a sátira é uma das melhores ferramentas de "desconstrução" da história, e por isso talvez um dos primeiros atos de qualquer governo ditatorial é censurar suas manifestações artísticas, por seu caráter fundamentalmente contestador. E isso Adeus Lenin! faz muito bem, ao mesmo tempo mostrando os absurdos da vida no lado oriental, mas sem tomar partido do capitalismo.
"O povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la", já diz a frase clichê. Por isso são tão importantes as visões artísticas sobre a história de qualquer povo. Adeus Lênin! tem também essa qualidade. A Queda também é fantástico, não apenas como filme, mas como peça histórica. Filmes como O Leitor e outros também ajudam, de certa maneira, o povo alemão a fazer as pazes com seu passado e encará-lo de frente.
Independente de qualquer coisa, é um filme fantástico. Junto com o documento histórico, vem a mensagem universal de cuidar de quem se ama. E isso está na história de todos nós.
Nota: 8,1
A história se passa na ex-Alemanha Oriental, e se inicia poucos meses antes da unificação alemã, já durante os protestos contra o regime comunista. O protagonista, contra a opinião de sua mãe, comunista fanática, vai a um desses protestos. Quando a mãe o vê, sofre um infarto e entra em coma por alguns meses. Ao acordar, o mundo em sua volta já mudou completamente: a Alemanha é uma só, e o capitalismo avança furiosamente. Orientado pelo médico a não submeter sua mãe a emoções fortes, o filho então "cria" uma Alemanha Oriental falsa, apenas para sua mãe.
O que poderia ser um filme de uma piada só se mostra uma história engraçada sim, mas muito humana, mesclando o esforço do filho de resgatar aquilo que todos os outros estão loucos para se livrar, com os momentos em que ele, sob os protestos da irmã, insiste em criar esse "mundo" para sua mãe. Filme altamente recomendado.
O que me traz a um assunto interessante, que é o cinema refletindo a História. Desde os primórdios, os filmes vêm sendo utilizados para contar (ou até para manipular) a História. Iniciando por filmes como O Nascimento de Uma Nação, com sua visão elitista e racista dos EUA, até as dramatizações do 11 de setembro pelo mundo, muitas vezes o cinema externa uma visão de mundo da época em questão, ajudando seus espectadores a lembrar, conhecer e formar opinião sobre o que vêem.
No caso da Alemanha, essa relação é bastante mais conturbada. Dona de um cinema bastante interessante nas décadas de 20 e 30, reduzido durante a guerra a peças de propaganda como O Triunfo da Verdade (independente de sua qualidade cinematográfica), o cinema alemão, assim como seu povo, ainda guarda uma relação de tabu com seu período mais negro: o domínio nazista, talvez se perguntando como puderam deixar ou ajudar aquilo acontecer.
Por isso, é muito mais fácil vermos o povo alemão rindo da época do comunismo (que, por sinal, é muito mais recente), do que do nazismo. Para mim, a sátira é uma das melhores ferramentas de "desconstrução" da história, e por isso talvez um dos primeiros atos de qualquer governo ditatorial é censurar suas manifestações artísticas, por seu caráter fundamentalmente contestador. E isso Adeus Lenin! faz muito bem, ao mesmo tempo mostrando os absurdos da vida no lado oriental, mas sem tomar partido do capitalismo.
"O povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la", já diz a frase clichê. Por isso são tão importantes as visões artísticas sobre a história de qualquer povo. Adeus Lênin! tem também essa qualidade. A Queda também é fantástico, não apenas como filme, mas como peça histórica. Filmes como O Leitor e outros também ajudam, de certa maneira, o povo alemão a fazer as pazes com seu passado e encará-lo de frente.
Independente de qualquer coisa, é um filme fantástico. Junto com o documento histórico, vem a mensagem universal de cuidar de quem se ama. E isso está na história de todos nós.
Nota: 8,1
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