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terça-feira, 24 de julho de 2012

Cisne Negro (Black Swan, 2010)


Quem viu a minha lista de piores filmes, já deve ter percebido que não sou o maior fã de filmes de dança. Primeiro, porque filmes sobre dança (assim como filmes sobre futebol, música, e outros) têm como público-alvo (adivinhe!) pessoas que gostam de dança (e futebol, música...) e eu não sou uma dessas pessoas (apesar de ter já ter assistido tanto So You Think You Can Dance com a Chris que virei especialista). Segundo, e principal, porque a maior parte deles obedece ao que chamo de Teorema Dirty Dancing: não importa quais sejam os problemas (geralmente românticos, claro), basta dançar que eles se resolvem. Lembram em Dirty Dancing? O pai da garota não queria que ela chegasse nem perto dos eventos de dança ou do Patrick Swayze. Bastou vê-la dançando com ele que tudo ficou bem, tá perdoada, e até dançou com a mulher na cena final, onde todos se reúnem em uma coreografia (cena essa onipresente nesses filmes também).

Tudo isso para dizer que não tinha grandes expectativas quando fui assistir a Cisne Negro, apesar de saber que era um drama mais sério, e apesar de admirar bastante o trabalho do diretor Darren Aronofsky (Pi, A Fonte da Vida, O Lutador, Réquiem for a Dream). Fui surpreendido por um filme muito interessante, extremamente bem feito, e com uma história que, levemente baseada no balé O Lago dos Cisnes, explora muito bem os conflitos internos da protagonista, desde pequena muito controlada pela mãe, que fez com que ela seguisse seus passos de bailarina até ganhar o papel principal no balé.

O filme pinta o "mundo do ballet" de forma até assustadora. A obsessão pelo sucesso, a dedicação doentia, a cobrança intensa formam um cenário bastante denso do ballet como atividade. Mas é nos conflitos psicológicos e na análise do brutal impacto desses fatores sobre a personalidade da personagem principal que o filme se destaca. O filme acompanha a história de Nina (Natalie Portman), jovem bailarina recém-promovida ao papel principal de "O Lago dos Cisnes" em uma montagem em Nova Iorque. Segundo o diretor da montagem (Vincent Cassel), ela, com sua personalidade doce e submissa, é perfeita para o papel do Cisne Branco, mas deve encontrar dentro de si seu lado sensual e rebelde para o papel do Cisne Negro. Isso se mostra bastante difícil, uma vez que esse foi o lado que ela sempre reprimiu, um pouco devido a sua mãe, que continua a criando e controlando como se fosse uma criança. Isso gera um enorme conflito em Nina, acentuado pela presença de Lily (Mila Kunis), que apesar de se mostrar bastante amigável com ela, logo se mostra uma potencial adversária pelo papel principal.





Previsivelmente, Nina começa a enlouquecer. Nesse ponto, mostra-se a principal virtude dos filmes de Aronofsky: a representação visual dos conflitos internos de seus personagens. Muito rapidamente, o espectador já não sabe o que é real e o que está na cabeça de Nina. O filme é cheio de espelhos, e conforme o filme passa, as cenas que vemos refletidas vão se afastando cada vez mais da realidade, como que representando a divisão entre as personalidades de Nina. Conforme a estreia se aproxima, sua loucura vai aumentando, e chegamos a duvidar se ela terá condições de continuar.


Claro que não vou contar o final, mas vale destacar ainda a atuação de Natalie Portman no papel principal. Desde a preparação (ela está assustadoramente magra, e aprendeu a dançar para o papel), até a atuação, dando um equilíbrio suave entre a menina assustada e a bailarina agressiva. Vincent Cassel, Mila Kunis e até Winona Ryder também estão bem imersos nos papéis, criando um ambiente assustador, com toques de amizade, romance, erotismo e competição. Ou seja, um filme altamente recomendado, mesmo para quem não é fã de dança como eu.


Nota: 8,4 (38o colocado na minha lista de filmes favoritos)


PS: Tudo isso acima (inclusive a nota) não leva em conta a famosa cena de sexo entre Natalie Portman e Mila Kunis. E eu quase consegui terminar o post sem falar dela. Mas, bem, não deu. Na época falou-se muito sobre isso, e com justiça. Eu poderia tentar dizer que é pela fotografia, ou pelo significado para o filme (ela transgredindo suas regras e libertando seu lado "negro" que estava reprimido), mas quer saber? A cena é legal por causa das duas mesmo. :-)







quinta-feira, 22 de março de 2012

Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000)

Ainda em referência ao post anterior, fui "acusado" no Facebook de não ter gostado do filme por ser "insensível" ou por não ter entendido a emoção do filme. Meu desafio então foi falar de um filme que considero emocionante, mas sem os problemas que vejo em Menina de Ouro.

Escolhi esse que acho um filme primoroso. Triste, depressivo, mas com uma história envolvente e cujo principal mérito é não ser apelativo em momento algum. Você sente que aquela história poderia ser real, e pode estar acontecendo em algum lugar por aí. E é, sim, muito emocionante.


A história: 4 pessoas, Harry Goldfarb (Jared Leto, o Jordan Catalano da Adriana), seu amigo, a namorada e a mãe, de maneiras diferentes, sofrem problemas com drogas (legais ou não). Mesmo sem julgar ou tomar partido, é a maior propaganda anti-drogas que já vi. Mostra sem excessos desnecessários, mas sem atenuantes, os momentos de euforia, depressão, e degradação nas vidas de cada um. Harry e seu amigo cometem pequenos crimes (inclusive em casa, levando a mãe a ter que recomprar sua TV do trambiqueiro local quase todo dia) para sustentar o vício, situação que logo vai levá-los a uma situação mais complicada. A namorada dele (Jennifer Connelly, linda como sempre, absolutamente entregue a um papel dificílimo) começa a perceber que pode usar seu próprio corpo como moeda para sustentar o vício. A mãe, viúva há muitos anos, recebe um convite para participar de seu programa de TV favorito e começa a tomar anfetaminas para poder voltar a vestir seu vestido preferido de quando era jovem, e logo perde o controle.

Como se vê, não é uma história fácil. E o diretor Darren Aronofsky (Pi, A Fonte da Vida, Cisne Negro) não alivia. Com uma fotografia muito bem feita, a câmera se limita a observar essas pessoas e suas vidas. O "espírito" do filme diz muito para mim: "Cada um é livre para fazer o que quiser, inclusive se matar de drogas, desde que arque com as consequências". Não poderia concordar mais.



O filme tem defeitos, claro. O principal deles para mim é a absoluta impossibilidade de assisti-lo de novo. Para mim, um dos jeitos de saber se o filme é bom é se tenho vontade de revê-lo. Isso não se aplica nesse caso. O filme é muito bom, e no entanto eu não conseguiria. É denso, pesado, e mina um pouco do seu otimismo e fé na humanidade, invariavelmente. Lembro que fui com a Chris assistir meio sem saber do que se tratava, e depois iríamos sair para jantar. Não conseguimos, fomos direto do cinema para casa. E ainda assim continuo achando um grande filme, que trata o espectador como adulto, sem condescendência ou soluções fáceis de roteiro. Observa o sofrimento dos personagens, sem ser sádico com eles.

Quase dá vontade de ver de novo, agora.

Nota: 8,0