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sábado, 16 de março de 2013

Maratona de filmes março/2013


O post de hoje é um pouco diferente. Aliás, bem diferente. Eis que me encontro, sozinho em casa, sexta-feira à noite. Esposa na pós (hoje de noite e amanhã o dia todo), filha passando uns dias com a avó. Foi assim que me surgiu a ideia: tenho tantos filmes que ainda quero ver, e normalmente tão pouco tempo para vê-los, que tal passar esse tempo todo (adivinhem) vendo filmes?

Pois bem, é isso que vou fazer. Começando agora (sexta, 20:30), e amanhã o dia todo, pretendo assistir algo em torno de 7-8 filmes. E descrever a experiência aqui, não só falando sobre os filmes mas também sobre a maratona em si, se eu aguentar até o fim.

A escolha dos filmes? O único critério é que eu não tenha visto ainda (ou que, por tempo ou outra razão, não me lembre mais dele). No mais, pretendo variar bastante de gênero, país, época, tipo... Nada contra, por exemplo, uma maratona de filmes do James Bond, mas não é essa a minha ideia hoje (portanto, pode parar de me chamar, box de Star Wars...)

Outro critério é que o filme da noite não seja mudo, longo ou devagar demais. Acabei de parar de trabalhar, a chance de dormir na frente da TV é enorme.


Assim, também em homenagem aos 70 anos de David Cronenberg completados hoje, um filme via Netflix: eXistenZ (1999). Seguindo a linha dos demais filmes do diretor, tem características de realidade distorcida, contando a história de um jogo de realidade virtual jogado através de conexões bio-mecânicas. A criadora do jogo (Jennifer Jason Leigh, uma das atrizes mais subestimadas do cinema) é atacada por uma organização que é contra a fuga da realidade que o jogo produz. Não é um filme para todos, tem um quê de bizarro, mas a história é muito interessante, e imagino que tenha influenciado muitos filmes mais recentes, como Inception, por exemplo. Muito bom filme, com vários "plot-twists". Nota: 7,0

Continuando, acho que por hoje (sexta-feira) é só. São quase 23h e a perspectiva é de um dia longo de filmes amanhã.


Já dormi, acordei, corri e comi, então resolvi começar o dia com um filme mais leve para ir devagar: Uma Noite na Ópera (A Night at the Opera, 1935), comédia dos irmãos Marx em que eles tentam ajudar um casal de cantores a ficarem juntos e a fazer sucesso na ópera. Nunca tinha pensado em uma grande diferença entre o drama e o humor: as histórias dramáticas são clássicas, e "esqueletos" de roteiro funcionam bem desde o início do teatro na Grécia Antiga, como o amor não correspondido, as diferenças sociais impedindo casais de serem felizes e outros. Já o humor é tremendamente mutante. O que faz as pessoas rirem hoje provavelmente não as fará em 20 ou 30 anos. Não existem grandes histórias clássicas de humor. Tudo isso para dizer que, apesar de clássico, para mim esse filme envelheceu muito mal: todo baseado em "gags" físicas e nas frases espirituosas de Groucho Marx, quase 80 anos depois perdeu toda a sua novidade. E o tanto de números musicais torna a hora e meia de filme um suplício. Nota: 4,0.


Um café depois, e segue a maratona, com Cova Rasa (Shallow Grave, 1994). Primeiro filme para o cinema de Danny Boyle (Trainspotting, A Praia, Quem Quer Ser um Milionário?), já mostra tanto na direção quanto nas atuações (adoro a fase "escocesa" de Ewan McGregor, pra mim um excelente ator) o amadurecimento que continuaria 2 anos depois em Trainspotting. Conta a história de 3 amigos que moram juntos, e acabam aceitando mais um morador para dividir as despesas. Logo em seguida, o novo morador tem uma overdose no quarto, e eles descobrem uma mala de dinheiro escondida. A evolução de cada um dos personagens é notável, e aos poucos a situação vai exercendo sobre eles uma pressão que se torna insuportável. Ótimas atuações (coincidentemente, é o segundo filme de Christopher Eccleston nessa maratona, 2 boas atuações), e o roteiro com aquele jeitão inovador e abusado de filme iniciante. Nota: 7,0


Depois do almoço, hora de falar sério. Um dos filmes que todo mundo mais se espanta quando digo que não vi. Problema resolvido agora: Taxi Driver (1976). Nem preciso falar sobre a história, nem sobre a atuação de Robert de Niro (e queriam dar o Oscar pra ele por O Lado Bom da Vida????). Aliás, o grande problema foi esse: depois de ouvir falar tanto do filme, de já saber os pontos principais da história (ele leva a namorada no cinema pornô, tenta salvar a menina prostituta, mata um monte de bandidos, e tal), o filme perde um pouco do impacto. Não é culpa do filme, claro, mas minha por não tê-lo visto antes. De todo jeito, grande história, refletindo bastante o momento da história americana em que se passa, final da Guerra do Vietnã, país com moral baixa, veteranos voltando e não conseguindo se encaixar de volta. A direção de arte e fotografia são absolutamente fantásticas, essas sim me surpreenderam bastante. Scorsese é Scorsese, afinal, e esse, um de seus primeiros trabalhos, já mostra seu potencial. Nota: 7,0.


Pra quebrar um pouco o clima "pra baixo" do fim de tarde, nada como uma animação. Já tinha ouvido falar bastante de Wall-E (2008), até comecei a assistir uma vez, mas nunca tinha ido até o fim. Que filme fantástico! Quase sem falas na primeira metade, mostra que existem muitas maneiras de se passar a mensagem que se quer. Mostra também que o discurso ambientalista e contra o consumismo exagerado é importante e não precisa ser chato. E principalmente, mostra que personagens carismáticos podem fazer milagres por uma história. Difícil não se pegar torcendo pela "vida" e pelo "amor" entre dois robôs, e se emocionando no final. Pixar é foda. Podem me julgar à vontade, mas por enquanto é o melhor filme do dia (é, melhor que Taxi Driver). Nota: 8,1 (passa a ser o 58o. lugar na minha lista de filmes favoritos)


E, pra fechar a noite (embora eu ainda tivesse alguns filmes na fila), um clássico, muito mais denso e interessante do que eu imaginava: Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire, 1951). Que a atuação de Marlon Brando seria poderosa eu até já imaginava, mas, por não ter visto ...E o Vento Levou não tinha ideia de que Vivien Leigh pudesse ter uma atuação tão arrebatadora. Segundo li, ela se entregou tanto ao papel, que depois desse filme (por sofrer de transtorno bipolar) passou a confundir sua vida com a de sua personagem. Uma atuação que faria corar a maioria das vencedoras de Oscar de Melhor Atriz das últimas décadas, que acabam ganhando mais por transformações físicas que pela atuação (já falei mal de O Lado Bom da Vida aqui, não vou falar de novo, mas Jennifer Lawrence passa vergonha perto de Vivien Leigh).

Além disso, a história, adaptada de uma peça de Tennessee Williams, é fantástica. Nota-se que em alguns momentos foi suavizada devido ao código de regras de Hollywood à época, mas ainda assim é difícil imaginar um filme tão ousado e chocante hoje em dia. A história da mulher metida a aristocrata que perde tudo e vai morar com a irmã submissa e o marido violento, e cujos segredos aos poucos vão se revelando, é um tratado de personalidade, e o filme vai evoluindo os personagens aos poucos, contando com roteiro e atuações maravilhosos. Um belo final para um dia inteiro de filmes. Nota: 8,5 (passa a ser o 34o. lugar na minha lista de filmes favoritos)

Ah, e me recuso a usar a incompreensível tradução do título para português Uma Rua Chamada Pecado. Não faz sentido algum.

Acho que consigo ver mais um filme...

É isso. Sinceramente, esperava ter conseguido ver pelo menos mais um, mas os próximos da fila aqui eram muito longos (estava entre Duna e Lawrence da Arábia), e ainda tive que dar uma saída no meio do último que deu uma quebrada no cronograma. Não estou exatamente como nessa foto, mas são 23h de sábado e acho que não consigo ver mais nada. De todo jeito, 6 filmes em pouco mais de 24h é uma boa marca, e em geral foi uma experiência positiva, tendo visto alguns ótimos filmes. Quem sabe não faça de novo algum dia.

E, se algum de vocês heróis leitores, conseguiu chegar até aqui, comente! São 6 filmes, duvido que não tenham visto pelo menos um, e queiram discordar de algo (ou tudo) que falei. É só usar esse espaço logo aqui embaixo....

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012)


(este texto se refere ao filme. Para ler sobre o livro, clique aqui)

Indicado a oito Oscars, o filme O Lado Bom da Vida é uma comédia romântica de certo modo diferente, fugindo um pouco do modelo batido de casal que luta contra tudo para ficarem juntos. Conta a história de Pat (Bradley Cooper), que, após pegar sua esposa com outro homem, quase o mata, tem diagnosticado um distúrbio bipolar, e acaba passando oito meses em um hospital psiquiátrico. Ao sair, seu principal objetivo é reconquistar sua esposa, até que conhece Tiffany (Jennifer Lawrence) uma garota estranha que também teve seus problemas psiquiátricos ao ficar viúva, e que pode (ou não) ajudá-lo a atingir seu objetivo.

E o que a fez ser uma "comédia romântica diferente"? Bom, o filme "presta mais atenção" aos personagens, especialmente Pat. Fica claro desde o início que a tal "ameaça a Pat e Tiffany ficarem juntos" não é a ex-esposa dele, que por sinal está mais presente em sua cabeça do que na sua vida. São eles que têm que evoluir e se acertar, lutando contra seus problemas para voltarem a viver em paz. Além disso, o relacionamento entre os dois nunca é o foco principal, e apesar de torcer por eles, o espectador não vê idas e vindas de um casal sendo mostradas como o que realmente importa no filme. Isso é legal.


O filme lida com as "dificuldades psiquiátricas" dos protagonistas de uma maneira leve, mas não leviana. É justamente a jornada de Pat para superar seus problemas (com o apoio de sua família, seu terapeuta, e, em última análise, de Tiffany) que diferencia o filme, especialmente quando ele percebe que ajudar Tiffany pode ser o caminho não apenas para tentar se reconciliar com sua esposa, mas também algo que deve ser feito. O filme não segue o caminho dos conflitos reais, tudo acaba se resolvendo muito facilmente, mas ainda assim você consegue sentir a evolução de Pat e Tiffany como personagens.

Os atores estão muito bem. Bradley Cooper abandona um pouco a imagem de galã vazio (construída especialmente nos filmes da série Se Beber Não Case) e entrega uma atuação honesta, enquanto Jennifer Lawrence começa a se estabelecer como atriz, embora achei que podia dar um pouco mais de profundidade no papel da "louquinha adorável". Além deles Robert de Niro, que não precisa provar mais nada, está bem como o pai, que também tem seus distúrbios, e se divide entre a vontade de ter seu filho próximo, e seu vício em apostas. Chris Tucker está irreconhecível como o amigo que Pat faz no hospital (ele era o apresentador bizarro de O Quinto Elemento, e é seu primeiro filme desde 1997 que não é da série A Hora do Rush).


Agora, o que não gostei do filme: li o livro semana passada e me decepcionei um pouco. Claro que o livro é sempre mais complexo, aprofundado e portanto, mais rico como história que o filme, em praticamente todos os casos, mas nesse caso o foco da história é diferente. Por exemplo, o livro não é uma comédia romântica, e a própria evolução dos personagens acontece de maneira muito diferente. Sem entrar em detalhes aqui (tem um post sobre o livro no meu outro blog, link no topo), o que aconteceu foi que demorou para que eu percebesse que, basicamente, estava vendo outra história, só que com os mesmos personagens e a mesma linha mestra de acontecimentos. É impossível dizer o que eu teria achado se só visse o filme, mas é possível sim admirar ambos, cada um em sua esfera.

Sugiro também que leiam o livro, mesmo que já tenham visto o filme. Não se preocupem com perder o interesse por já saberem o fim da história: os finais são muito diferentes. Até a cena de dança estilo Pequena Miss Sunshine do final, apesar de acontecer também no livro, tem um contexto e um desfecho muito diversos.

Em resumo, não é o melhor filme do mundo, não deve ganhar Oscar, mas é uma comédia romântica acima da média. Vale a pena.

Nota: 6,0