Simples assim. Comentários sobre filmes que já vi, bons ou ruins, recentes ou antigos. Um jeito de falar sobre cinema sem necessariamente ter alguém pra me ouvir.
Alguns filmes são ótimos e importantes por conta do conjunto da obra: história, fotografia, roteiro, atuações, trilha sonora, diálogos, tudo compondo um grande clássico. Cada cena do filme é uma ode à sétima arte, e a soma delas é genial. Daqueles filmes de que se falam por décadas, analisando-se cada take e utilizando-o como referência por gerações.
Já outros são lembrados por uma única cena. Letra e Música é um deles.
Era para ser uma comédia romântica como qualquer outra: um cantor outrora famoso, porém esquecido, sai de sua boa vida para compor uma nova música para uma estrela pop adolescente. Esbarra com sua falta de capacidade para compor, e acaba sendo salvo pela moça que contratou para regar suas plantas (!), e no processo, obviamente os dois se apaixonam. Depois de um desentendimento, percebem que foram feitos um para o outro e terminam felizes para sempre.
A escolha de elenco contribui: Hugh Grant como o inglês-meio-bobão-e-desajeitado-porém-charmoso (papel que desempenha em 99% de seus filmes, embora com boas atuações como em Lua de Fel e Quatro Casamentos e um Funeral), e Drew Barrymore como a garota bonita mas avoada que com seu charme acaba conquistando a todos. Até aí, o único fator (talvez) diferente seja a diferença de idade entre os dois (ele com 47, ela com 31 na época das filmagens). Nada de muito diferente, portanto.
MAS... talvez sejam os 3 minutos iniciais mais engraçados/bizarros da história das comédias românticas. Sério, caso não tenha visto, veja abaixo e em seguida continue lendo.
É uma sátira perfeita de um vídeo clip daquelas bandas de uma música só dos anos 80! Está tudo lá: as roupas cafonas, a música grudenta, os efeitos especiais toscos e super-utilizados, os cenários chamativos, as cenas incompreensíveis, as coreografias sem noção... me lembro de ter rido tanto nesse começo que simplesmente não tinha como não gostar do filme depois, por pior que fosse. E ruim não é, embora seja mais do mesmo. Não importa. Parafraseando Jerry Maguire, "you had me at hello"...
É de se admirar também que Hugh Grant tenha topado filmar o tal "clipe". Por mais que seja parte do personagem, e que tenha sido bem pago por isso, não é todo mundo que aceita um vexame desses.... Aliás, o filme todo tem um quê de crítica ao mundo da música, não apenas com a sátira aos anos 80, mas também à moda de reality shows esdrúxulos (ele é convidado para participar de um combate com outros cantores/bandas esquecidos, como REO Speedwagon, Flock of Seagulls, Debbie Gibson...), aos artistas rasos mas metidos a inteligentes (representados pela cantora, mistura de Britney, Aguilera e Shakira, que pede para que ele componha a nova música), e, claro, àqueles artistas que vivem até hoje de um sucesso de um passado cada vez mais remoto.
Como eu sempre digo, às vezes um filme não precisa ser perfeito nem mudar a sua vida. Basta te deixar com um sorriso no rosto. Esse, definitivamente, é um desses.
Quem viu a minha lista de piores filmes, já deve ter percebido que não sou o maior fã de filmes de dança. Primeiro, porque filmes sobre dança (assim como filmes sobre futebol, música, e outros) têm como público-alvo (adivinhe!) pessoas que gostam de dança (e futebol, música...) e eu não sou uma dessas pessoas (apesar de ter já ter assistido tanto So You Think You Can Dance com a Chris que virei especialista). Segundo, e principal, porque a maior parte deles obedece ao que chamo de Teorema Dirty Dancing: não importa quais sejam os problemas (geralmente românticos, claro), basta dançar que eles se resolvem. Lembram em Dirty Dancing? O pai da garota não queria que ela chegasse nem perto dos eventos de dança ou do Patrick Swayze. Bastou vê-la dançando com ele que tudo ficou bem, tá perdoada, e até dançou com a mulher na cena final, onde todos se reúnem em uma coreografia (cena essa onipresente nesses filmes também).
Tudo isso para dizer que não tinha grandes expectativas quando fui assistir a Cisne Negro, apesar de saber que era um drama mais sério, e apesar de admirar bastante o trabalho do diretor Darren Aronofsky (Pi, A Fonte da Vida, O Lutador, Réquiem for a Dream). Fui surpreendido por um filme muito interessante, extremamente bem feito, e com uma história que, levemente baseada no balé O Lago dos Cisnes, explora muito bem os conflitos internos da protagonista, desde pequena muito controlada pela mãe, que fez com que ela seguisse seus passos de bailarina até ganhar o papel principal no balé.
O filme pinta o "mundo do ballet" de forma até assustadora. A obsessão pelo sucesso, a dedicação doentia, a cobrança intensa formam um cenário bastante denso do ballet como atividade. Mas é nos conflitos psicológicos e na análise do brutal impacto desses fatores sobre a personalidade da personagem principal que o filme se destaca. O filme acompanha a história de Nina (Natalie Portman), jovem bailarina recém-promovida ao papel principal de "O Lago dos Cisnes" em uma montagem em Nova Iorque. Segundo o diretor da montagem (Vincent Cassel), ela, com sua personalidade doce e submissa, é perfeita para o papel do Cisne Branco, mas deve encontrar dentro de si seu lado sensual e rebelde para o papel do Cisne Negro. Isso se mostra bastante difícil, uma vez que esse foi o lado que ela sempre reprimiu, um pouco devido a sua mãe, que continua a criando e controlando como se fosse uma criança. Isso gera um enorme conflito em Nina, acentuado pela presença de Lily (Mila Kunis), que apesar de se mostrar bastante amigável com ela, logo se mostra uma potencial adversária pelo papel principal.
Previsivelmente, Nina começa a enlouquecer. Nesse ponto, mostra-se a principal virtude dos filmes de Aronofsky: a representação visual dos conflitos internos de seus personagens. Muito rapidamente, o espectador já não sabe o que é real e o que está na cabeça de Nina. O filme é cheio de espelhos, e conforme o filme passa, as cenas que vemos refletidas vão se afastando cada vez mais da realidade, como que representando a divisão entre as personalidades de Nina. Conforme a estreia se aproxima, sua loucura vai aumentando, e chegamos a duvidar se ela terá condições de continuar.
Claro que não vou contar o final, mas vale destacar ainda a atuação de Natalie Portman no papel principal. Desde a preparação (ela está assustadoramente magra, e aprendeu a dançar para o papel), até a atuação, dando um equilíbrio suave entre a menina assustada e a bailarina agressiva. Vincent Cassel, Mila Kunis e até Winona Ryder também estão bem imersos nos papéis, criando um ambiente assustador, com toques de amizade, romance, erotismo e competição. Ou seja, um filme altamente recomendado, mesmo para quem não é fã de dança como eu.
Nota: 8,4 (38o colocado na minha lista de filmes favoritos)
PS: Tudo isso acima (inclusive a nota) não leva em conta a famosa cena de sexo entre Natalie Portman e Mila Kunis. E eu quase consegui terminar o post sem falar dela. Mas, bem, não deu. Na época falou-se muito sobre isso, e com justiça. Eu poderia tentar dizer que é pela fotografia, ou pelo significado para o filme (ela transgredindo suas regras e libertando seu lado "negro" que estava reprimido), mas quer saber? A cena é legal por causa das duas mesmo. :-)
Depois de algum tempo sem publicar no blog, e por ter acabado de receber (e assistir) a edição especial em Blu-Ray do 70o. Aniversário do filme, resolvi enfim assumir a responsabilidade de falar sobre meu filme preferido de todos os tempos. Curioso que, durante um tempo, quando montei minha lista de filmes preferidos, De Volta para o Futuro 2 e O Império Contra-Ataca tenham sido candidatos fortes ao topo do ranking, mas no final acabei escolhendo Casablanca mesmo. Mais do que falar sobre o filme, cuja história acredito que a maioria conheça, acho justo tentar justificar o que, afinal, faz com que este seja o filme de que gosto mais.
Para quem eventualmente nunca viu (saia daqui e vá assistir, seu louco!), o filme, feito ainda durante a II Guerra, conta a história de Rick (Humphrey Bogart), um cínico americano que possui um bar em Casablanca, cidade no Marrocos que se tornou um destino procurado por aqueles que querem fugir do nazismo para os Estados Unidos. Um dia, entra em seu bar Ilsa (Ingrid Bergman), que foi o grande amor de sua vida, mas está casada com o líder da resistência Victor Laszlo (Paul Henried), e os dois procuram uma maneira de fugir, sendo perseguidos pelos nazistas. Neste momento, Rick se divide entre o amor por Ilsa e a possibilidade de ajudar Laszlo, e deve decidir o que fazer.
Parece uma história de amor comum, de um casal apaixonado lutando contra as dificuldades, e não deixa de ser. Mas, como sempre, o que importa mais é como a história é contada. Assim, acho que algumas coisas explicam porque esse filme, para mim, é considerado quase perfeito:
- A história: apesar de um tanto batida, a história consegue situar bem o caso entre os dois dentro do contexto da guerra e do local (impressionante como a guerra, além da cidade de Casablanca, são como personagens do filme). O uso das cartas de trânsito como "McGuffin" (segundo Hitchcock, o objeto que todos querem mas cuja natureza não é relevante) funciona muito bem, e a dicotomia entre o amor e o dever move a história de maneira muito fluida. O suspense de como vai acabar o filme é bastante eficiente e o final soa bastante natural, dentro das circunstâncias.
- Os personagens: é impressionante a construção dos personagens. Sem pressa, mas de maneira direta. Em poucas cenas, você já sabe quem é Rick, ao mesmo tempo em que aos poucos vai se surpreendendo com suas atitudes. A "mocinha" do filme só aparece com 25 minutos de filme, e rapidamente se entende o tipo de conflito que ela tem com o personagem principal, embora os detalhes vão sendo mostrados aos poucos. Os demais - o policial francês, o major da GESTAPO, o ladrão italiano (Ugarte, uma fantástica criação de Peter Lorre, de O Vampiro de Dusseldorf, que marca o filme apesar de poucos minutos em cena) - são não apenas bem construídos como maravilhosamente interpretados. A química entre Humphrey Bogart e Ingrid Bergman é perfeita, e os coadjuvantes contribuem demais para a história, tornando a experiência muito mais rica.
- a música: "As Time Goes By" deixou de ser apenas uma trilha sonora de filme, e também é um personagem em Casablanca. O curioso é que quase foi limada do filme: o responsável pela trilha sonora quis tirá-la do filme depois de pronto. Só não conseguiu porque certas cenas teriam que ser refilmadas, e Ingrid Bergman já havia cortado o cabelo para Por Quem os Sinos Dobram. Ironicamente, justamente o fato de estar tão entranhada no filme salvou a música de ser esquecida. E a música aparece em grande estilo: o reencontro entre os ex-amantes acontece justamente por causa de "As Time Goes By", com a icônica frase "Play it, Sam" (e não "Play it Again, Sam", como muita gente acha). Um dos momentos-chave do cinema.
- a fotografia: Casablanca, no Marrocos, é uma das cidades que quero conhecer no mundo por fatores aleatórios (junto com Vladivostok, por causa do War, e Greenwich, por causa do meridiano). Tudo, claro, por causa do filme. Obviamente não vou encontrar o "Rick's Café Americain" e muito menos Rick e Ilsa por lá, mas a ambientação do filme é perfeita, mostrando a cidade e os principais cenários de maneira muito bonita.
- o "imaginário coletivo": Algumas obras de arte, sejam filmes, pinturas, músicas, transcendem seu status de obra de arte e passam a fazer parte da cultura das pessoas. Nesse caso, atingem de fato o status de clássicos. Cenas como a Marselhesa no bar, os números musicais de Sam, os flashbacks de Rick e Ilsa, até a cena final no aeroporto (com fog no deserto, veja você!) entraram para o "inconsciente coletivo", mesmo 70 anos depois de feitas. Asfrases do filme ecoam até hoje. E afinal, não é qualquer filme que consegue ser homenageado pelo Pernalonga e pela Turma da Mônica...
- a "ousadia histórica": tá bom que o filme foi pensado como propaganda de guerra, em uma época de máximo domínio nazista na Europa e quando os Estados Unidos tinham acabado de entrar no conflito. Mas não deixa de ser corajoso e relevante falar sobre o sofrimento da II Guerra em 1942, enquanto ela ainda acontecia. E, se há alguma manifestação patriótica no filme, é francesa e não americana. Críticas como "Dê ao Major Strasser a melhor mesa!" / "Já fiz isso, ele é alemão e a tomaria de qualquer jeito" davam um tom incrivelmente atual ao filme, em uma época onde o cinema era regulado por várias "leis de conduta" (tanto que houve dúvidas se a censura liberaria mostrar Ilsa e Rick como amantes, dado que ela era casada com Lazslo). Quantos anos levou para a Guerra do Vietnã aparecer em um filme importante?
- o fator pessoal: acho que essa é a principal razão para que eu goste tanto de Casablanca. Devo ter visto o filme pela primeira vez com uns 15 anos, pegando por acaso em algum Corujão da vida. Gostava de filmes, mas sem nunca ter me interessado propriamente por cinema. E, sem internet, nem sabia quais eram os filmes clássicos, e me interessava menos ainda. Não me lembro, mas a própria decisão de parar para ver aquele filme preto e branco no meio da madrugada foi algo bastante fortuito (ou resultado de um tédio monstruoso). Pois bem, o que me lembro bem foi o quanto me surpreendi e adorei o filme. Não percebi na hora, mas foi o início de uma visão muito mais ampla e interessante sobre o cinema, e com certeza contribuiu muito para que eu gostasse tanto do assunto nos anos seguintes. Ajudou também a me fazer perceber que coisas boas poderiam vir fora da "zona de conforto" dos filmes que um adolescente de 15 anos procura assistir. Descobri e assisti muita coisa boa (e ruim) depois disso, mas o lugar especial esta lá, para um filme não apenas fantástico, mas que principalmente me fez ver tanta coisa depois...
É como se no final do filme, fosse o cinema em si me dizendo "I think this is the beginning of a beautiful friendship"...
Nota: 9,9 (1o colocado na lista dos meus filmes favoritos)
Outro sub-gênero do qual ainda não tinha falado aqui no blog é o de Cinebiografias. Pra ser sincero, tendo a não gostar muito de biografias, seja em livros ou no cinema. Pensei um pouco e cheguei a 2 motivos principais. Um é "filosófico": acho que prefiro histórias originais, onde os autores não se prendem a acontecimentos reais, do que uma recontagem de coisas que aconteceram. Talvez por isso também não seja o maior fã de documentários. O outro motivo é a "chapa branca": com poucas exceções, biografias (especialmente no cinema) tendem a idealizar e romantizar a vida do retratado, minimizando defeitos ou decisões erradas, e principalmente dando um ar de triunfo e unidade à vida, como se tudo que acontecesse tivesse uma razão ou propósito, o que dificilmente retrata a realidade.
No entanto, a biografia se suporta principalmente no nosso desejo de ver que todos têm seus altos e baixos, sofrimentos, e conhecer detalhes de suas vidas que às vezes não sabemos. O caso de Piaf é exatamente esse. Sua vida era um filme esperando para ser feito: nascida em uma família muito pobre da Normandia, ela foi abandonada pela mãe, e deixada pelo pai para ser criada pela avó, dona de um bordel, que contou com as prostitutas para dar conta da tarefa. Ficou cega dos 3 aos 7 anos devido a uma doença desconhecida na época, teve uma filha que morreu aos 2 anos, tudo antes de ser descoberta cantando na rua com uma amiga. Seis meses depois, seu descobridor foi assassinado e ela acusada de sua morte. Apesar de ter morrido aos 47 anos, é ainda considerada uma das maiores (senão a maior) intérprete francesa, e tem centenas de músicas gravadas.
E como isso foi transformado em filme, afinal? Dada a profundidade de acontecimentos a serem mostrados, minha opinião é que ficou muito confuso. Normalmente gosto de decisões inovadoras de roteiro, mas a estrutura não-cronológica para mim não ajudou muito. Acho que ficou uma dificuldade de entender o que se passava quando, e ligar as reações dela aos acontecimentos passados. (Claro que o fato de ter assistido em 2 vezes, tendo que parar no meio, também não ajudou muito nesse sentido)
No entanto, esse filme tem um fator que muda tudo: Marion Cotillard. A então desconhecida (e linda) atriz francesa entra no papel de um jeito que poucas vezes vi (dizem que acontece o mesmo com Jamie Foxx em Ray, mas nunca assisti). Imagino como deve ter sido para os franceses, que conhecem a cantora muito melhor que eu, verem um de seus ídolos retratado com tamanha paixão. Além do Oscar que ela recebeu, merecidamente (embora seja lei que o Oscar de Melhor Atriz seja sempre dado para a atriz que sofreu a maior transformação física, preferencialmente ficando mais feia - Gwyneth Paltrow em Sheakespeare Apaixonado, Charlize Theron em Monster, Nicole Kidman em As Horas são alguns exemplos que me vêm à cabeça), esse filme a tornou conhecida, abrindo portas para ótimas atuações em filmes como A Origem e Meia-Noite em Paris. É impressionante, você praticamente não enxerga a atriz por trás do papel (especialmente nas cenas com Piaf mais velha), é como se ela incorporasse a personagem nestas cenas. E é muito legal ver atuações nesse nível.
Assim, apesar de não gostar tanto assim de biografias, e de ter visto alguns defeitos neste filme em especial, não posso deixar de recomendá-lo. Pelo menos 50% da nota dele vem da atuação de Cotillard, e "não, não me arrependo" de tê-lo visto :-)
Já vou adiantando que essa é minha comédia favorita de todos os tempos. Daquelas que posso assistir quantas vezes for, e vou rir e adorar cada uma delas.
O filme conta a história de um homem do tempo egocêntrico e mal humorado (Bill Murray, novamente muito bem, passando muita credibilidade - e fazendo um pouco o papel dele mesmo) que vai contra a vontade cobrir, pelo quarto ano seguido, um evento que ele considera irrelevante (o tal Dia da Marmota). Chegando lá, na minúscula cidade de Punxsutawney, ele acaba tendo que passar a noite, devido a uma nevasca (a qual ele não tinha previsto, apesar de ser o homem do tempo) que fecha as estradas.
Ao acordar no dia seguinte, ele descobre que na verdade não é o dia seguinte, e sim o Dia da Marmota de novo. Tudo em sua volta acontece exatamente da mesma maneira que no dia anterior, e ele parece ser o único que percebe o que está acontecendo. É muito divertido todo o processo de ele primeiro entender o que se passa, depois passar pelas fases de duvidar, tentar entender, aproveitar, se desesperar.
Nesse ponto é que algumas soluções inteligentes de roteiro fazem toda a diferença. Você percebe essas coisas quando ouve o comentário do DVD. A decisão de não explicar o porquê dos dias se repetirem é ótima, pois tira o assunto da frente, não fazendo o filme perder tempo em explorar nada. Além disso, a dinâmica da repetição dos dias é muito bem escrita e editada, com partes fantásticas (ele decorando o que vai acontecer para se beneficiar, ou perguntando sobre a vida das mulheres para no dia seguinte fingir que as conhece).
Claro que com o tempo, ele começa a se tornar uma pessoa melhor, e a se aproximar de sua produtora (Andie McDowell), com a "maldição" de que a cada dia ela volta a vê-lo como um insuportável e mimado ex-famoso. Aliás, vários atores estão muito bem: tanto Bill Murray (um dos melhores comediantes que conheço, especialmente nesses papéis mais cínicos), Andie McDowell, como alguns coadjuvantes, como o amigo que vende seguros, o câmera, e outros. Mas o destaque são mesmo as situações causadas pela repetição dos dias: a mesma música tocando no alarme todo dia, ele tentando se suicidar para quebrar o ciclo, aprendendo a tocar piano, fazer esculturas de gelo, e tal. É, de fato, apesar da premissa relativamente batida, um filme muito original e engraçado, e que faz pensar. Afinal, quem já não se sentiu preso na mesma realidade dia a dia...?
Nota: 9,5 (5o. colocado na minha lista de filmes favoritos)
Pela primeira vez, faço um post duplo aqui, falando ao mesmo tempo de dois filmes. Acho que com esses não tem jeito mesmo, os filmes são entrelaçados demais (apesar de terem sido lançados com 9 anos de diferença) e fica bem difícil falar de um separado do outro. Aliás, parece que já foi anunciado recentemente um terceiro filme da série (não imagino qual seria o nome, Before Night talvez?), novamente 9 anos depois do último, que continuaria a história dos dois.
Para quem não conhece, Antes do Amanhecer, o filme de 1995, conta a história de dois jovens (Ethan Hawke e Julie Delpy) que se conhecem por acaso em um trem de Budapeste a Viena. Conversam, sentem uma certa afinidade, e ao descer em Viena, ele a convida para passar a noite com ele, já que seu voo de volta para os Estados Unidos é só na manhã seguinte e ele não tem onde ficar. Ela topa, e o filme mostra essa noite dos dois, antes que se despeçam, talvez para sempre. E o filme é uma grande conversa, a partir daí, entrelaçada com algumas cenas de aproximação entre os dois. Falam sobre a vida, o porquê de estarem ali, sobre o que os espera, e tal. No final (o suprassumo do amor platônico), concordam em se encontrar na mesma estação de trem 6 meses depois, não trocando nenhum dado de contato, pois "se o destino quiser, eles se reencontrarão".
Parece, mas não é chato. É apenas um ritmo diferente do que estamos acostumados, acho. E é interessante ver os personagens se conhecendo, dividindo suas vidas, e a esperança em um futuro que nessa altura ainda parece muito longo. É legal também sentir o idealismo e a crença no destino de quando se é jovem. Por isso, falo deste filme junto com Antes do Pôr do Sol. No segundo filme, eles se reencontram 9 anos depois, em Paris, e falam sobre o que aconteceu em suas vidas nesse período. Dá pra sentir a mudança em cada um deles com o que foram vivendo, e o quanto vêem a vida de forma diferente. Descobrimos também se os dois chegaram a se encontrar ou não depois do primeiro filme.
Para mim, a jogada de gênio foi esse segundo filme (e espero que o terceiro também). Não por ser um filme muito melhor que o primeiro, ou por trazer alguma novidade, mas pelo fato de revisitar personagens que já eram conhecidos um tempo depois, e contar o que aconteceu com eles. É como reencontrar alguém que você não vê faz tempo: apesar de um estranhamento inicial, muito rapidamente parece que vocês se viram todo dia. E o filme faz isso muito bem. Quem não gostaria de "saber" onde estão hoje, por exemplo, os personagens de Friends, a quem acompanhamos durante 10 anos e não vemos há quase isso? Me surpreende até, que de tantas continuações que são feitas de outros filmes, pense-se tão pouco em algo desse tipo. (Voltando a um post anterior, acho que foi isso que gerou tanto burburinho com a mera possibilidade, depois não confirmada, de uma continuação de Curtindo a Vida Adoidado).
Eu gostei dos dois filmes. Não tanto quanto a minha esposa, que até hoje diz que são seus preferidos de todos os tempos, mas acho legais. Mas não era mais fácil trocar telefones? :-)
Esse é um filme que entra na categoria "bizarrices". Na época, essas coisas se espalhavam no boca a boca: todo mundo já tinha ouvido falar desse filme em algum momento, mas poucos tinham visto, e era até difícil achar o VHS(!) na vídeolocadora (!). E não é para menos. A história é muito absurda: Um cirurgião fica obcecado por uma mulher, com a qual saiu apenas uma vez. Começa a persegui-la até que esta sofre um atropelamento. Ao socorrê-la, a traz para dentro de casa e a aprisiona. Quando ela tenta fugir, ele corta seus braços e pernas e a coloca em um altar. (?!?!?!)
Ou seja, bizarro. Acaba sendo curioso, já que temos que admitir que não é uma premissa comum. O ator principal (como não poderia deixar de ser) tem um jeito absurdo de psicopata (mas manda até bem no papel), ele que já foi até vilão do 24 Horas. Curioso também por nos mostrar até que ponto pode chegar alguém obcecado (embora o cinema tenha exemplares melhores desse subgênero, como Louca Obsessão, Mulher Solteira Procura e Atração Fatal, entre outros). Acho sempre interessante (quando é bem feito) observar personagens com comportamentos que não vemos no dia a dia, e tendo reações pouco comuns.
E por que então eu resolvi falar desse filme entre todos os melhores? Bom, primeiro, como eu já disse outras vezes, gosto de falar de vez em quando sobre filmes aleatórios, que com certeza pouca gente deve ter visto. Esse, especificamente, acho até difícil que consigam ver hoje em dia, já que desconheço lançamento em DVD e até no youtube é difícil achar. Mas é interessante falar sobre ele assim mesmo, justamente pelo desconhecimento e pela premissa diferente. E não sou só eu: o filme virou meio "cult", como a maioria dos filmes ruins e bizarros :-)
E o filme? Bom, tirando a ideia original, o filme não é lá essas coisas. Dá pra ver pela cena do atropelamento que coloquei aqui em cima. A atriz é até um tanto famosa, mas não atua tão bem assim, e a história não se desenvolve como poderia. É o filme de estreia da filha do David Lynch, daí dá pra tirar uma ideia. E a "reviravolta" no final do filme é revoltante de tão ruim. Ou seja, vale pela curiosidade. E para tomar muito cuidado ao atravessar a rua após uma discussão com um ex psicopata. :-)