Simples assim. Comentários sobre filmes que já vi, bons ou ruins, recentes ou antigos. Um jeito de falar sobre cinema sem necessariamente ter alguém pra me ouvir.
terça-feira, 21 de outubro de 2014
De Volta para o Futuro Parte II (Back to the Future Part II, 1989)
Hoje, dia 21 de outubro de 2014, estamos a exatamente um ano do dia em que Marty McFly (acompanhado do Doc Brown e de sua namorada) chega no "futuro" para tentar salvar seu filho da prisão por um assalto. Sim, aquele futuro "distante", com carros voadores, hoverboards, e hologramas de tubarão está a apenas 12 meses de se tornar realidade. Será?
Mas, por mais que todos estejamos ansiosos com a possibilidade de andar de skate sem rodinhas, o que eu queria mesmo era aproveitar essa "comemoração" e falar do segundo filme da melhor trilogia que o cinema já viu, um dos poucos filmes "do meio" que supera os demais (de cabeça, lembro também de O Império Contra-Ataca). E um dos meus favoritos de todos os tempos.
Para mim, o filme é uma aula de "como fazer uma continuação". Repete o que deu certo no primeiro (mas sem exageros, como Se Beber, Não Case ou até alguns episódios da série Rocky) e constrói algo maior em cima disso. Agora que o espectador já entendeu as "regras" da viagem no tempo neste universo, roteirista e diretor as subvertem, escalando os problemas e transformando o filme em um vai e volta temporal que beira o caos, incluindo realidades alternativas, encontros entre diferentes versões do mesmo personagem, e até uma volta a 1955, onde tudo começou.
O principal fator de sucesso do filme é Robert Zemeckis. O interessante é que, segundo ele, não havia intenção de fazer uma continuação, e o final do primeiro filme indo para o futuro era apenas uma piada. No entanto, ao assumir o "desafio", ele soube ao mesmo tempo construir uma história interessante, com vários paralelos com o roteiro do primeiro filme, e fugiu da armadilha de "prever" o futuro criando uma 2015 caricata, estereotipada e muito divertida, sem relação nenhuma com a realidade.
Essa 2015 do filme foi um deleite para as crianças nerds da década de 80: hologramas, veículos voadores, aparelhos gigantes de TV com vários canais simultâneos, e até um óculos de informação pessoal que lembra bem o Google Glass. Mas, claro, o filme é muito mais do que isso. A história, como comentei, potencializa o efeito "fazer besteira no passado afeta o futuro": ao ir para 2015 evitar que seu filho seja preso, Marty McFly sem querer possibilita ao velho Biff encontrar seu eu do passado e entregar para ele um almanaque de resultados esportivos, possibilitando que ele fique milionário e domine Hill Valley. Para evitar que isso aconteça, ele e Doc Brown devem voltar à mesma noite de 1955 e evitar que o jovem Biff receba o almanaque, restaurando assim a 1985 original.
Com isso, novamente, apesar do "futuro" no nome, boa parte do filme se passa em 1955, dando ao espectador a chance de entender e até rever sob outra perspectiva alguns dos acontecimentos do primeiro filme, especialmente o Baile do Encanto Submarino, onde Marty havia conseguido reunir seus pais e garantir sua existência.
No mais, atuação, trilha sonora, tudo se mantém ou evolui em relação ao primeiro filme. No entanto, o roteiro mais intrincado, as piadas recorrentes e o tal "to be concluded..." no final (chamando para o inferior, porém ainda sensacional terceiro filme) fazem com que esse seja um pouco superior ao primeiro (algo muito difícil, diga-se). Agora é esperar um ano e ver se Marty McFly aparece com o DeLorean nos céus...
Nota: 9,8 (2o. colocado na minha lista de filmes favoritos)
(Link para o texto sobre o primeiro filme aqui)
terça-feira, 22 de julho de 2014
Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments, 1956)
Há filmes que você não apenas assiste, mas faz quase uma opção de vida. Seja pelo tema, seja pela duração, seja pela imersão histórica que proporcionam. Houve um tempo no cinema que uma "superprodução" só era considerada como tal se tivesse esses três componentes: longa duração (longa mesmo, estou falando de no mínimo 3 horas aqui), temas grandiosos e imersão histórica (traduzida em altos orçamentos com locações, figurinos, além de grandes atores). Hoje a palavra perdeu um pouco do sentido original, mas foi a era dos ÉPICOS. Cineastas como Cecil B. DeMille, David O. Selznick, David Lean (de quem já falei em Doutor Jivago) em um dado momento (mais notadamente, as décadas de 40 a 60) se especializaram nesse tipo de filme, que até hoje povoa as reprises noturnas.
Pois foi ontem, em uma dessas reprises, que me deparei com Os Dez Mandamentos. Estava para começar, eu nunca tinha visto, e tudo que ele exigia de mim eram quase 4 horas de dedicação, abrindo mão de parte do meu sono. Era uma proposta tentadora demais.
Apesar de não ser religioso, conheço um pouco da história da Bíblia, ainda mais essa que é uma das passagens mais importantes do Antigo Testamento. Minha primeira surpresa foi perceber que, apesar de seu nome, o filme cobre muito mais do que a entrega das tábuas da lei por Deus a Moisés, cobrindo praticamente toda a sua vida. E o mais interessante é que a parte que mais gostei do filme é justamente o início, que conta desde seu nascimento até a descoberta de que ele é hebreu e consequente expulsão do Egito.
Nessa fase do filme, há de se destacar também um outro aspecto fundamental dos épicos dessa fase: a canastrice das atuações. Um filme de 3, 4 horas de duração não pode se dar ao luxo de "barrigas" muito longas, aquelas sequências de cenas em que o ritmo do filme cai. Assim, todo diálogo, toda cena tem que ser, também, épica. Isso favorece, e até pede, atuações e diálogos que tragam essa "grandiosidade" da produção em cada take. Portanto, os atores acabavam sendo meio "exagerados". Para mim, Yul Brynner, no papel de Ramsés II, personifica bem esse estilo de atuação, com seus trejeitos e impostação de voz. Há de se considerar a época e o filme, mas hoje em dia soa quase caricato. Charlton Heston tem, claro, o papel de sua vida como Moisés, que, por força da própria história, acaba sendo um personagem um tanto unidimensional, ainda mais em sua fase profeta. Quem me surpreendeu foi Anne Baxter, no papel de Nefertiri, futura esposa do faraó. Seu papel se encaixa um pouco na "sedutora vingativa" de A Malvada, mas ela é, pra mim, o destaque do filme em termos de atuação.
No mais, um épico como um épico deve ser: atores de destaque até em papéis secundários (até Vincent Price está no filme), locações grandiosas (parte do filme foi feita no Egito), cenas ambiciosas. Aliás, como disse acima, esperava um filme que falasse mais da peregrinação dos hebreus, e essa parte é tocada bem por alto na história, culminando apenas com a cena mais famosa do filme, a abertura do Mar Vermelho, um feito notável pela tecnologia de efeitos especiais da época (e risível hoje, claro). Não há muito o que dizer sobre a história, o "roteiro original" é uma história de milhares de anos e que se supõe literal, e adaptar uma história em 4 horas de filme não exige lá grandes soluções inventivas de roteiro.
O que acho mais interessante em assistir filmes antigos é entender o que se entendia na época por "contar uma história". Com a introdução primeiro do som, e depois da cor, no cinema, os diretores se sentiam compelidos a (e capazes de) contar grandes histórias. E faziam isso da maneira mais épica possível. Em tempos de "remakes" e de medo de espantar o público se o filme passa de 2 horas, tem um quê de "volta às origens" sentar na frente da TV e dedicar 4 horas (que, por sinal, passaram bem rápido) a uma história, por mais datada e piegas que ela soe hoje. Só isso já valeu as horas de sono perdidas.
Nota: 7,0
terça-feira, 4 de março de 2014
Gravidade (Gravity, 2013)
"Espaço, a fronteira final". Já na década de 60, com Star Trek, e mesmo antes disso, em Viagem à Lua, o espaço sempre fascinou o cinema, como morada do desconhecido, fonte de ideias novas, e como destino para a eterna busca do homem por novas fronteiras, povos, e até de entedimento sobre si mesmo. Talvez o maior exemplo disso seja 2001: Uma Odisséia no Espaço, onde a exploração do infinito pelo homem o leva a descobertas que o fazem entender e questionar a própria existência.
Com o tempo, e com a "corrida espacial" se tornando mais comum e trazendo cada vez menos novidades na vida real, o espaço em si foi aos poucos deixando de se tornar o protagonista das histórias, passando a um papel secundário, por exemplo, em filmes sobre extraterrestres, com poucas exceções, como o excelente "Contato". O homem cada vez menos olhava para cima em busca do desconhecido.
Esse é, para mim, um dos primeiros méritos de "Gravidade": o espaço talvez seja seu principal personagem. Mas não da maneira usual, como fonte de descoberta, conhecimento ou até destruição, mas sim como o "vilão" do filme. É de fato um paradoxo, o infinito como uma prisão, o local onde a existência humana é mais frágil.
Sarah (Sandra Bullock) não é uma habitante usual desse ambiente. Ela, que não é astronauta, está como técnica em um módulo espacial, fazendo alguns consertos, quando um acidente com um satélite russo lança destroços que acabam destruindo o módulo, deixando como sobreviventes apenas ela e o comandante da missão, o veterano Matt (George Clooney), que estavam do lado de fora. A partir daí, o filme conta a história desses dois personagens e sua luta para sobreviver com pouco oxigênio e chegar a uma estação de onde possam voltar à Terra, enquanto se protegem das ameaças inesperadas que encontram na jornada.
A história em si não tem grandes inovações, além do ambiente em que se passa. É a tradicional história de superação de alguém fora de seu ambiente, que luta contra ele para garantir sua sobrevivência. A tal jornada do herói sem tirar nem pôr. Mesmo as atuações não emocionam: George Clooney está em uma de suas atuações burocráticas (felizmente ainda não são todas assim), e Sandra Bullock, apesar de vitórias e indicações no Oscar, não tem essa qualidade toda para segurar o filme sozinha em termos de atuação.
Mas de fato o grande destaque nesse filme é a parte "técnica": trilha sonora (jogando com o vácuo x música, na brincadeira do personagem do George Clooney de colocar som nos auto-falantes), som (e ausência dele), e principalmente na fotografia. A imensidão do espaço é extremamente bem representada, mas não só isso. Os takes com o ponto de vista dos personagens são muito interessantes - a primeira cena do acidente, onde a câmera acompanha Sarah girando passa uma sensação de agonia ao imaginarmos que ela não vai conseguir parar (lembre-se da inércia ao flutuar no espaço). Além disso, algumas tomadas bastante longas, especialmente na fuga de Sarah na estação chinesa, tornam o filme muito interessante tecnicamente, e, assim como Avatar, dá um passo adiante em termos de recursos para contar uma história no cinema.
Quem me acompanha (deve ter uns 2 ou 3...), sabe o quanto eu valorizo um bom roteiro, o quanto para mim fotografia, trilha, atores, tudo isso são ferramentas para se contar uma boa história. E que, sem um bom roteiro, o resto é desnecessário. Não acho que Gravidade chegue a esse ponto. É uma boa história, interessante, e tornada muito mais interessante com uma nova abordagem cinematográfica. E, resgatando o que eu disse lá em cima, transforma a imensidão na maior prisão, e isso também é agoniante. Pena que já saiu do cinema, especialmente do IMAX. É um dos poucos filmes que justifica o "exagero". E são poucos filmes que trazem algo novo, algo que te instiga a pensar no que pode ser feito a partir daí.
Nota: 8,1 (60o. na minha lista de filmes favoritos)
[abaixo, só para quem já viu o filme]
PS: Há teorias na internet que dão conta que Sarah morre no momento que desliga o oxigênio do módulo chinês, e que a visão que ela tem de Matt não é suficiente para que ela se salve, sendo apenas efeito da hipoxia (ausência de oxigênio). Acho um pouco forçado, mas só o fato de permitir esse tipo de leitura alternativa mostra que o filme tem também seus méritos de roteiro, não apenas de esmero técnico.
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Ela (Her, 2013)
O que é a consciência? Ter consciência nos faz ser humanos? Ser mais evoluídos? O que acontece se outro ser passa a ter consciência? E se esse ser for construído por nós?
Essas não são questões novas, do ponto de vista filosófico. E obviamente já foram abordadas no cinema, e inclusive neste blog, quando falei sobre Blade Runner. E esses são algumas das questões que vêm a mente ao assistir Her, o filme dirigido por Spike Jonze que concorre ao Oscar 2014.
Em um futuro próximo, em Los Angeles, Theodore (Joaquin Phoenix) é um homem recém-separado que vive sozinho e trabalha escrevendo cartas de amor para outras pessoas. Depois de adquirir um novo sistema operacional para seu celular, construído com inteligência artificial, passa a se relacionar com ele (voz de Scarlett Johansson), até que acaba se apaixonando.
Não é novidade que Jonze goste de abordar em seus filmes universos ligeiramente distorcidos, já tendo feito isso, por exemplo, em Quero Ser John Malkovich e Adaptação. No entanto, a primeira diferença desse filme é a "intensidade" dessa distorção. Não apenas a existência de tal sistema soa natural, como as reações de todos a esse fato são perfeitamente compreensíveis. Esse é o primeiro mérito do filme: rapidamente estabelece as condições da história e passa a falar sobre suas conseqüências.
E é de fato muito fácil acreditar no relacionamento entre Theodore e Samantha (o nome do sistema, que se auto-batiza quando Theodore pergunta como se chama). Inicialmente realizando de maneira eficiente atividades como gerenciamento de contatos, agenda e emails, Samantha aos poucos vai ganhando a simpatia de Theodore, tornando-se amiga, confidente, e por fim, namorada.
A partir daí, temos um filme sobre um relacionamento. Mas focado especialmente nas assimetrias: em uma posição relativamente cômoda como "líder" do casal, já que Samantha segue suas ordens, pode ser ligada e desligada a vontade, e não é uma pessoa que possa ser magoada, Theodore pensa ter encontrado a companhia ideal após a mágoa do fim de seu casamento. O que vem depois é, por incrível que pareça, um dos mais "reais" retratos sobre o amor do cinema recente.
Joaquin Phoenix está muito bem no papel, compondo um Theodore sempre meio soturno, mas fugindo da tentação do "pobre coitado abandonado". Ao mesmo tempo busca um relacionamento, encontra a oportunidade de algo bom, mas luta com suas próprias inseguranças e o medo da opinião dos outros. Tem seus momentos de solidão, os quais busca aplacar com sexo via internet ou videogame, triste mas não depressivo. Já Scarlett Johansson está impressionante como a voz de Samantha, ainda mais quando se descobre que o filme foi feito com Samantha Morton nesse papel, e Jonze decidiu trocá-la por Scarlett já durante a edição. Destaque também para a trilha sonora e fotografia, que compõem muito bem o "ambiente" do filme, dando um toque retrô apesar do tema futurista. Por sinal, a fotografia "vintage" dá bem esse tom de uma história que se passa no futuro, porém com um assunto praticamente tão antigo quanto o cinema.
Mas, claro, o maior mérito do filme é o roteiro, que aborda de maneira orgânica e natural assuntos dos mais diversos: amor, mágoa, amizade, expectativas, diferenças. E tudo de uma maneira extremamente sensível, simples mas sem ofender a inteligência do espectador, e preparando uma evolução da história que, se não é surpreendente no nível O Sexto Sentido, deixa ainda mais perguntas em aberto e assuntos para refletir. Não me emocionei a ponto de chorar como algumas pessoas me disseram, mas de fato não é um filme que sai da cabeça tão cedo. Se não é "material de Oscar" e provavelmente não vai ganhar estatuetas a rodo, como diria o outro, azar do Oscar.
Nota: 9,1 (14o. colocado na minha lista de filmes favoritos)
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
Crônica: Casablanca contra os alemães
(Esse post é diferente dos demais desse blog. A ideia surgiu em uma conversa despretensiosa no Twitter com o @james_pmc, e acabou virando um pequeno texto que fala de futebol e cinema. Espero que gostem.)
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Essa final do Mundial Interclubes entre Raja Casablanca x
Bayern de Munique me fez lembrar a última vez que Casablanca enfrentou os alemães
em um mata-mata. O ano era 1942, e embora o confronto fosse no Marrocos, a
invasão dos alemães foi tamanha que era como se jogassem em casa.
Em Casablanca, o trio Rick, Ilsa e Laszlo era visto com
apreensão, já que, mesmo com a fama de artilheiro de Rick, os três não tinham
nenhum entrosamento, por nunca terem jogado juntos. Embora Ilsa conhecesse bem
os outros dois, não se sabia se eles aceitariam estar no mesmo time, devido a
diferenças em campeonatos anteriores.
O jogo começou tenso, e a escalação do juiz Cap. Renault para
a arbitragem da peleja deixou ainda mais claro que poderia haver favorecimento
para o time alemão. E foi o que aconteceu inicialmente: passado o nervosismo
dos primeiros minutos, Renault advertiu Ilsa e Laszlo com cartão amarelo, mesmo
eles não tendo se envolvido no lance. O apoio da torcida, cantando o hino em
uma bela jogada de Laszlo, foi importante, mas deixou os alemães ansiosos por
uma oportunidade de vingança.
Conforme esperado, a partida continuou bastante amarrada. Houve
protesto da torcida local com uma entrada criminosa do time alemão em Ugarte,
mas Renault mandou o jogo seguir. Aos poucos, no entanto, Rick e Ilsa foram
recuperando o antigo entrosamento, e a disputa se manteve equilibrada.
Neste ponto aconteceu o lance mais polêmico da partida: os
alemães alegaram que Laszlo não tinha condições de jogo por não ter cumprido
suspensão em uma partida anterior, ainda pela semifinal entre alemães e
tchecos. Supreendentemente, foi apresentado um efeito suspensivo, que todos
imaginavam que favorecesse apenas Rick e Ilsa, e Laszlo pôde continuar em
campo, mesmo sob protestos do capitão alemão Maj. Strasser, que apelou sem
sucesso ao STJD.
Esse lance acordou o time de Casablanca. Com a aproximação do
final do jogo e ainda com um empate que não lhe favorecia, Rick tomou as rédeas
da partida. Inicialmente em uma troca ousada de posições com Signor Ferrari, até
então sumido no jogo, que lhe permitiu ir à frente com Ilsa e Laszlo. Em
seguida, em um corta-luz que muitos consideraram faltoso, mas foi
surpreendentemente julgado legal por Renault, deixou o zagueiro alemão morto no
lance, o que possibilitou a subida de Ilsa e Laszlo e a marcação do gol da vitória,
em lance que, segundo Rick, o lembrou de quando ele e Ilsa atuaram juntos em
Paris.
A torcida foi ao delírio! Rick foi eleito o melhor em campo,
e ao ser questionado sobre o lance polêmico e um eventual favorecimento por
parte de Renault, respondeu enigmaticamente “é apenas o início de uma bonita
amizade”.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, 1957)
“Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora. Então, vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas. Veio outro anjo e ficou de pé junto ao altar, com um incensário de ouro, e foi-lhe dado muito incenso para oferecê-lo com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que se acha diante do trono; e da mão do anjo subiu à presença de Deus a fumaça do incenso, com as orações dos santos. E o anjo tomou o incensário, encheu-o do fogo do altar e o atirou à terra. E houve trovões, vozes, relâmpagos e terremoto. Então, os sete anjos que tinham as sete trombetas prepararam-se para tocar.” Apocalipse 8.1-6
A Morte. De todos os medos e dúvidas humanos, o mais fundamental, e o mais impossível de ser resolvido. Se não conseguimos entendê-la, pelo menos essa dúvida alimenta criadores e nos dá filmes como O Sétimo Selo. Extremamente alegórico, o filme conta a história de um cavaleiro medieval que, ao retornar para casa depois de muitos anos combatendo nas Cruzadas, encontra sua terra devastada pela peste, e se questiona sobre sua fé e sobre o sentido da vida e da morte.
Mas, claro, a parte mais conhecida e mais emblemática do filme é o jogo de xadrez com a Morte. Ao retornar com seu escudeiro, o cavaleiro Antonius Block é abordado pelo Ceifador, que comunica que veio buscá-lo. Buscando ao mesmo tempo adiar a morte e compreendê-la, ele a desafia para um jogo de xadrez, valendo sua vida. As cenas entre Block e a Morte são algumas das melhores do filme, onde ele, um bom jogador de xadrez, tenta enganá-la no jogo e ao mesmo tempo pergunta o porquê da vida, da morte, do sofrimento, da fé. Ao mesmo tempo, a Morte, com sua "serenidade eterna", sabe que vai ganhar e se evade de responder qualquer coisa, às vezes inclusive dando a impressão de que também não sabe as respostas, e só cumpre sua missão, assim como Block.
O filme também questiona bastante a fé, mostrando as diferentes reações das pessoas à perspectiva da morte. Block, que vê os acontecimentos à sua volta, duvida da existência de Deus e portanto não vê sentido nos anos de guerra em seu nome ("Temos que imaginar como é o medo e chamar essa imagem de Deus"); seu escudeiro Jons, que olha tudo de maneira cínica ("A fé é como estar apaixonado por alguém que vive no escuro e não vem quando se chama"); o povo das cidades, que varia de querer aproveitar a vida ao máximo a se flagelar em busca de redenção para seus pecados, visando fugir da praga, que acreditam ser um castigo divino.
Em resumo, os temas de Bergman nesse filme são o questionamento da fé e a inevitabilidade da morte. Não sou um grande fã do diretor (já falei aqui sobre Persona e além dele, já vi A Fonte da Donzela. Por falta de termo melhor, chatos pra cacete), mas nesse filme ele entrega uma fábula consistente, com grandes atuações, uma fotografia P&B muito bonita e, principalmente, uma história interessante e provocativa. Imagino a "polêmica" que causaria se fosse lançado hoje.
Por isso tudo, vale a pena vencer o preconceito (seja ele contra Bergman, filmes P&B ou filmes de "arte") e ver (e rever) O Sétimo Selo. Como eu costumo dizer por aqui, cinema é entretenimento, mas também é ótimo para dar o que pensar. Esse é um ótimo exemplo.
Nota: 8,0
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004)
Vale a pena apagar parte de sua vida para se livrar de uma experiência traumática? Até que ponto funciona tentarmos de novo uma situação que nos deixou na pior? As conexões que fazemos em nossas vidas são mais fortes que nossa vontade? O que pode ser considerado traumático e o que é apenas nossa vontade de não querer sofrer?
Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças aborda todas essas perguntas (e muitas mais) em um roteiro absolutamente brilhante de Michel Gondry e Charlie Kaufman (que também escreveu Adaptação e de quem já falei em Quero Ser John Malkovich). No filme, Joel (Jim Carrey), após muitas brigas com a namorada Clementine (Kate Winslet), descobre que ela se submeteu a um tratamento que visa apagá-lo de sua memória. Ou seja, ela preferiu passar o resto da vida sem saber mais que ele existia ou tudo o que passaram juntos. Com raiva, ele decide fazer o mesmo.
Para mim, o roteiro é o ponto alto do filme. A maneira de contar a história, que acaba se passando em boa parte na mente de Joel durante o apagamento de suas memórias, é sensacional. Durante o processo, ele se arrepende do que pediu, e seu inconsciente vai percorrendo as memórias, das mais recentes às mais antigas, tentando salvar alguma parte delas, junto com uma "Clementine" que ao mesmo tempo que o ajuda, vai relembrando as coisas boas que tiveram. As cenas de Joel e Clementine interagindo com suas memórias enquanto elas vão se desfazendo, tentando entender e "mudar" o que aconteceu ao mesmo tempo em que tudo vai sumindo são o ponto alto do filme, não apenas muito bem escritas como com soluções visuais inteligentes (e muito pouco CGI).
Mas não apenas as memórias de Joel são interessantes, mas muitos outros conceitos do filme: a própria empresa Lacuna Inc., que faz o procedimento, gera situações interessantes: a secretária que teve um caso com o chefe e acabou tendo a memória apagada quando a mulher dele descobriu, o técnico que aproveita a entrevista e os objetos de Joel para conquistar Clementine, as pessoas que "viciam" no procedimento...
Tecnicamente, o filme também é bastante bem-feito. Desde a fotografia e efeitos visuais, como comentei, até a trilha sonora (que interage bastante com o filme), mas principalmente as atuações. Não é de se estranhar Kate Winslet (na minha opinião uma das melhores atrizes jovens) tendo uma excelente atuação, mas é Jim Carrey que se destaca aqui. Mantendo sua versatilidade sem cair no humor careteiro que apresenta em tantos outros filmes, ele incorpora um Joel bastante sincero, e se destaca bastante nas cenas em sua memória, onde as leis do mundo real não se aplicam, e portanto, algum nível de flexibilidade e improvisação são necessários. Gosto bastante do trabalho "sério" de Carrey, neste filme, e em outros como Show de Truman, por exemplo (ainda não vi O Mundo de Andy). O restante do elenco também está muito bem, contando com nomes famosos como Mark Ruffalo, Kristen Dunst e Elijah Wood.
Mas, para mim, é na parte "filosófica" que o filme realmente se sobressai. Muitos filmes partem de uma premissa interessante ou de uma ideia revolucionária mas entregam histórias decepcionantes. Claramente não é o caso aqui. Muitos dos desdobramentos hipotéticos de uma possibilidade de "apagar a memória" aparecem no filme e são desenvolvidos com bastante humor mas também bastante profundidade, especialmente quais seriam as consequências de apagarmos parte de nossas vidas. Um detalhe que acho interessante, por exemplo, é Joel, em um dado momento do filme, não conhecer Dom Pixote, já que sua música característica "Oh querida Clementina" (My Darling Clementine), e portanto o desenho, foram apagados de sua memória no procedimento. Detalhes como esse são geniais.
Sempre digo aqui que um bom roteiro é um grande ponto de partida para um filme bom. Neste caso, é mais que isso. Um excelente ideia, muito bem desenvolvida, e com execução competente, é um caminho aberto para um filme memorável, daquele que diverte e nos faz pensar: "O que eu apagaria da minha memória?"
Nota: 9,1 (12o colocado na minha lista de melhores filmes)
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