sábado, 10 de novembro de 2012

A Onda (Die Welle, 2008)



Os alemães têm, como era de se esperar, uma relação conturbada com seu passado. Já falei sobre isso, inclusive, no texto sobre Adeus Lênin. Ao mesmo tempo em que têm certo medo do que eventuais manifestações de nacionalismo podem vir a causar, não gostam de se sentir responsáveis por algo que seus antepassados fizeram há mais de 70 anos. O início desse filme retrata bem isso: em uma semana de "projetos especiais" em uma escola alemã de ensino médio, Rainer, um professor novato e meio revolucionário (um dos clichês de filmes mais repetidos, por sinal), apesar de querer dar aula sobre anarquia, acaba sendo designado como professor de autocracia/ditadura. Por gostarem do professor, vários alunos se inscrevem no curso, mas logo se vê o desânimo quando um aluno diz algo como "vamos falar de nazismo de novo? não acredito que ainda achem que, depois de tudo o que aconteceu e de tanto que nos falam isso, essa geração ainda tem alguma chance de repetir a história", e todos meio que concordam.

A partir do ponto de vista dos alunos, Rainer propõe então algo diferente: que ele e seus alunos formem uma sociedade fechada, que define suas próprias regras, que todos devem seguir, e iniciando-se como uma democracia, já que os próprios alunos elegem seu líder no primeiro momento (o próprio Rainer). Aos poucos, o sentimento de unidade vai se formando entre eles, que decidem utilizar uniformes, ter um nome especial (A Onda), e criam logos, saudações e todo tipo de ferramenta de unidade (que, obviamente, acabam virando ferramentas de segregação). Inicialmente, alguns alunos que sempre se sentiram excluídos ficam mais felizes por finalmente se sentir parte de algo, embora poucos outros comecem a perceber os perigos dessa união. Claro, não é preciso ser adivinho para saber que o experimento dá errado.


Alguns pontos estranhos no roteiro acabam tornando o filme algo mais alegórico do que documental. Não fica muito claro qual era a verdadeira intenção de Rainer ao propor o experimento (eu não consigo ver um desfecho "pacífico" para ele), nem porque ele demora tanto para encerrá-lo com as evidências de que algo está errado. Parece que algumas coisas acontecem só para que a história chegue onde precisa chegar. Não chega a ser um defeito que incomode, já que o principal é a mensagem por trás: as pessoas são naturalmente atraídas por fazerem parte de um grupo, e tendem a hostilizar e, se possível, controlar os que não são parte dele. Não importa o quanto saibam que não deveriam, ou as consequências disso.

A alegoria acaba sendo o ponto forte do filme. Por mais que algumas situações soem forçadas, dá pra acreditar sinceramente que, em situações similares, pessoas (e até você mesmo, por que não?) teriam essas reações. Já disse em algum momento que gosto muito de filmes que examinam as pessoas e suas reações, como se fossem estudos antropológicos. Neste filme, por mais construídas que sejam as situações, esse aspecto de estudo da mente coletiva é muito interessante, especialmente quando se chega a extremos. E, claro, o filme mostra que, por mais que tenham estudado a vida toda os efeitos de um regime autoritário, os alunos "caem na armadilha" sem pensar muito.

Concorde ou não com a mensagem, sempre é interessante ver filmes que fazem pensar, especialmente quando analisam e propõem discussões de como somos enquanto pessoas. Mesmo que a conclusão não seja a melhor possível...

Nota: 7,5

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Artista (The Artist, 2012)


Quem lê esse blog com alguma frequência já deve ter me visto falar o quanto gosto de soluções inovadoras no cinema, jeitos diferentes de contar uma história, seja no roteiro, edição, fotografia, formato... sabe também o quanto eu aprecio o cinema clássico bem feito, no sentido de capturar através do filme o pensamento, cultura e costumes de uma época diferente, contados diretamente por quem os estava vivendo.

Com isso em mente, e com todo o "hype" atingido por O Artista desde a época da indicação para o Oscar, finalmente consegui parar e assisti-lo essa semana. Não sei se todos sabem, mas o diretor Michel Hazanavicius utiliza o filme mudo justamente para contar a história de George Valentin, um ator famoso e consagrado da época silenciosa que sofre com o advento do cinema falado e cai em desgraça, enquanto Peppy Miller, uma dançarina que começou sua carreira em um dos filmes de Valentim, desponta como a nova estrela do novo cinema.

A ideia é muito boa, um tipo de "metalinguagem", em que o mundo silencioso do protagonista em certos momentos vai sendo invadido pelos sons, aos quais ele resiste, insistindo em achar que fechar-se em sua realidade muda será o suficiente para manter seu sucesso. Foi uma ideia muito ousada e corajosa do diretor criar um filme mudo como maneira de contar essa história, recriando um gênero que estava morto de uma maneira, digamos, "modernizada".





Mas, para mim, faltou um detalhe crítico: uma boa história. É até covardia tentar comparar O Artista com outros filmes que tratam do mesmo tema (a transição do cinema mudo para o falado), como os clássicos Cantando na Chuva ou Crepúsculo dos Deuses (embora a própria abordagem do filme, se "vestindo" de filme clássico, tenda a forçar essa comparação), mas mesmo em relação a filmes contemporâneos, percebe-se que toda a ousadia utilizada na escolha do formato não aparece na história em si, que nada mais é do que uma sucessão de situações previsíveis, mostrando o sucesso, a derrocada, o desespero e a redenção do ator principal, ajudado pela bondosa mocinha da história. Sinceramente, nada de novo aí, a não ser a "capa" retrô. Muito pouco, na minha opinião.

A atuação de Jean Dujardin (premiada com o Oscar de Melhor Ator) também não ajuda muito. Enquanto assistia ao filme, inicialmente me pareceu que ele forçava a barra para se parecer com os atores do cinema mudo da década de 20 (canastrões ao extremo, quase por necessidade, já que a expressão corporal era vital). Mas ao longo do filme, para mim ficou claro que ele se tornou "escravo" das emoções fáceis, sem profundidade. É mais difícil se expressar sem falar? Sem dúvida, mas existem excelentes filmes mudos, e, afinal, ninguém obrigou diretor e atores a fazer o projeto dessa maneira. Lembrei-me então das aparições do ator no Oscar, e para mim ficou claro: estamos diante do Roberto Benigni do século XXI, que parece pitoresco a uma primeira vista, mas torna-se cansativo logo depois. Não acho que ele vá se destacar no futuro.





No mais, todos os clichês de Hollywood (e até alguns de novela da Globo) estão lá: a mocinha de origem humilde que sobe na vida mas continua com bom coração; o empresário inescrupuloso que vira as costas para o mocinho quando ele mais precisa; o ator orgulhoso que prefere desperdiçar sua vida a recomeçar de baixo; e até (como eu odeio!) o animal engraçadinho que rouba a cena e salva seu dono na hora mais importante. Ninguém merece...

Claro que é esperar demais coerência histórica e relevância cultural do Oscar, mas acho sinceramente que aqui ganhou a forma e não o conteúdo. Assisti poucos dos filmes que concorriam ao prêmio desse ano, mas claramente tinha coisa muito melhor. É uma pena, pois sou um entusiasta de experiências e novas maneiras de se contar histórias, e, queira ou não, esse filme levou muita gente a fazer algo inimaginável: ir ao cinema para ver um filme mudo em preto e branco. Só espero que a experiência não tenha afugentado esses espectadores....

Nota: 5,0

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Lista de Schindler (Schindler´s List, 1993)


A II Guerra Mundial, especialmente o nazismo, está provavelmente entre os assuntos mais retratados no cinema, de todas as maneiras imagináveis. Desde um foco histórico, retratando os grandes atores do conflito (como em A Queda), seja com foco nos conflitos (A Ponte do Rio Kwai, ou as minisséries The Pacific e Band of Brothers), ou até com um tanto de realismo fantástico (Bastardos Inglórios). Esse filme, que marcou a consagração e o reconhecimento definitivos de Steven Spielberg (pelo menos em termos de Oscars), conta uma história sob o ponto de vista dos judeus, e de um industrial alemão que, com o desenrolar da guerra, percebe o mal que está sendo impetrado e tenta fazer algo para minimizá-lo.

A história é essa mesmo: ao se mudar para a Polônia durante a guerra para aproveitar a mão de obra barata dos judeus para montar uma fábrica de armamentos, o empresário Oskar Schindler (junto com seu contador judeu), começa timidamente a salvar alguns judeus sem condições de trabalho, alegando que fazem parte de sua força de trabalho e evitando que sejam mandados para campos de concentração. No momento em que o gueto onde sua fábrica está é fechado, e todos os judeus serão enviados para Auschwitz, ele utiliza sua fortuna e influência para garantir salvar o máximo possível de pessoas.


Spielberg intensifica ainda mais nesse filme a carga dramática que é sua característica, em um projeto extremamente importante sob o ponto de vista pessoal, uma vez que é descendente de judeus. Isso de certa forma é esperado, até. Um ponto mais surpreendente são as atuações. Não porque os atores sejam ruins ou venham de más atuações, mas porque entregam performances muito intensas, e ótimas, contribuindo demais para a carga dramática do filme. Ben Kingsley é um excelente ator e aqui prova isso mais uma vez. Liam Neeson (na época, praticamente um desconhecido, tendo como único papel de destaque até então o filme Darkman - Vingança sem Rosto) tem a atuação de sua vida como Oskar Schindler, sendo responsável por  boa parte do sucesso do filme (e começa a pavimentar o caminho para seu sucesso no papel de mentor - como descrito com bastante humor aqui - afinal ensinar Obi-Wan Kenobi, Darth Vader e Batman não é para qualquer um). Mas a alma do filme, no papel do diretor nazista do gueto judaico Amon Goeth, é Ralph Fiennes (também desconhecido na época). Sua imersão no personagem é impressionante, e ele encarna fielmente um personagem psicopata, que faz as maiores atrocidades sem demonstrar emoções, e ao mesmo tempo mostrando desequilíbrio em alguns momentos. Só quem nunca viu esse filme acha que Voldemort, de Harry Potter, é seu vilão mais assustador.



No mais, a tradicional competência de Spielberg, em termos de roteiro, fotografia (o preto e branco com alguns toques de cor chega a ser comovente), trilha sonora, compondo um filme tecnicamente próximo da perfeição. As cenas do holocausto são muito bem feitas, realistas e passam uma emoção enorme, dando rostos aos números infames de que ouvimos falar quando se diz sobre a guerra. Mas não é isso o que me fez ter vontade de escrever sobre esse filme agora.


Assisti esse filme pela primeira vez no cinema, no lançamento (ah, a época de escola), algo como 18 anos atrás. Adorei, me impressionei demais, mas nunca mais havia visto novamente. Conforme até comentei no Facebook outro dia, peguei o filme quase por acaso começando no Telecine Cult. Resolvi assistir, e logo percebi que, em certos casos como esse, quem você é faz uma diferença enorme na visão e no entendimento que tem do filme. Não que eu fosse um completo idiota aos 17 anos, mas ter vivido um monte de coisas a mais, ser pai, e até ter opiniões mais firmes sobre o mundo e sobre relações e injustiças fazem uma enorme diferença na mensagem que você captura do filme. Inclusive, nesse caso, abri uma exceção: apesar de meu ranking de filmes considerar sempre a nota da primeira vez que assisti, fui na planilha e aumentei a nota que havia dado originalmente. Mereceu, e muito. Para mim foi quase outro filme.

É um filme sublime, e entendo que não é nada que falo aqui que fará alguém mudar sua opinião ou gostar mais do filme. O que eu posso dizer aqui é: às vezes existem momentos ou fases mais certas para apreciarmos certos filmes. Percebi isso da melhor maneira possível.

Nota: 8,6 (29o. colocado na minha lista de filmes favoritos)

domingo, 14 de outubro de 2012

O Império Contra-Ataca (The Empire Strikes Back, 1980)


A piada seria melhor se fosse O Retorno de Jedi, mas resolvi continuar a série Star Wars com O Império Contra-Ataca depois de bastante tempo sem postar aqui no blog de filmes. E como eu adoro a série, e especialmente esse filme, não será difícil retomar a produção aqui.

Sequências de filmes, e trilogias, são um fenômeno relativamente recente na história do cinema. Segundo pesquisei, a primeira sequência registrada foi Fall of a Nation, de 1916, sequência direta do controverso Birth of a Nation, de 1915. Após isso, são poucos registros até 1974, quando O Poderoso Chefão 2 se tornou a primeira continuação a vencer o Oscar de Melhor Filme. Trilogias são ainda mais raras nos primeiros anos do cinema: há registro de 3 livros da série Frankenstein, que contavam um mesmo arco de história, sendo adaptados para o cinema na década de 30. No entanto, a primeira trilogia de sucesso foi mesmo Star Wars. Outra inovação de George Lucas no cinema, goste ou não.

Assim, trilogias passam a ser cada vez mais importantes no cinema atual, às vezes até de maneira exagerada.  Com isso, podemos analisar um pouco como elas se estruturam: em geral, o primeiro filme é feito quando ainda não se sabe que vai haver uma trilogia. Portanto, tem início, meio e fim definidos. O último filme encerra a história, então também é tranquilo. O problema em geral é o segundo filme. Não tem que apresentar os personagens, e em geral também não tem um fim propriamente dito. Isso faz com que os "filmes do meio" acabem perdendo atratividade.

Mas esse não é o caso de O Império Contra-Ataca. George Lucas, naquela época, sabia que seu forte não era a direção, e portanto chamou um diretor mais experiente, Irvin Kershner, para o segundo filme da saga. Também ainda não tinha a pretensão de fazer um filme infantil, portanto (apesar de Yoda, um personagem mais "muppetizado") não aliviou a história, colocando por exemplo Ewoks ou um (argh) Jar Jar Binks da vida.

Com isso, o filme pega a história de Star Wars e a leva para outro patamar, muito mais profundo e sombrio. Darth Vader aqui não é mais apenas um vilão de capacete engraçado, toda a estrutura de poder do Império (e a dos rebeldes também) é caracterizada, e a ameaça torna-se muito mais concreta. O "contra-ataque" do Império é coordenado e eficaz, culminando com algumas das passagens mais emblemáticas de toda a série: o congelamento de Han Solo em carbonite ("Eu te amo" / "Eu sei"), e, claro, a cena mais icônica de todas: a esperada luta entre Darth Vader e Luke Skywalker.

I am your father! Join me, and we´ll rule the galaxy as father and son.

E essa cena é exatamente a razão pela qual, um dia, quando eu for mostrar os filmes para minha filha, vou mostrá-los como devem ser vistos, fora da ordem cronológica, com a trilogia clássica primeiro (e se der tempo, depois a trilogia mais nova). Que graça tem ver essa cena sabendo que Darth Vader já foi um menino cabeçudo, já foi um ator ruim, já teve midichlorians, já namorou a Natalie Portman e já foi burro de matar o Samuel L. Jackson? (sim, com spoilers. quem não viu esse filme ainda, gente?)

E é assim, da maneira mais sombria possível, com Han Solo preso, Luke Skywalker sem mão, e com toda a esperança perdida, que o filme acaba. Melhor impossível, certo? Não, pode ser ainda melhor: basta incluir o tema de vilão mais épico da história do cinema, a Marcha Imperial.



How cool is that? Não tem como você ser um vilão melhor que Darth Vader. E não tem como uma continuação ser melhor que O Império Contra Ataca. Pena que depois disso, George Lucas meio que desaprendeu....

Nota: 9,7 (3o na minha lista de filmes favoritos)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Highlander (1986)


Um grupo de imortais, que foram nascendo ao longo dos séculos, destinados a um confronto final em uma terra distante. Um escocês nascido na Idade Média, que percebe que é um deles, e ao mesmo tempo prepara-se para este confronto e vive sua vida, sabendo que, enquanto todos à sua volta nascem, envelhecem e morrem, ele passará os séculos inalterado.

Esse é outro dos clássicos da Globo dos anos 80. Não fez grande sucesso quando lançado, mas foi virando cult ao longo dos anos (e das reprises), e é mais um daqueles filmes que acabou ficando na memória coletiva dessa geração. Conta a história de Connor MacLeod (Christopher Lambert), que descobre ser um imortal, quando é atacado por um ferimento mortal e... bem, não morre.  Banido de sua vila, ele para de envelhecer e percebe que não é uma pessoa normal. Aos poucos ele vai descobrindo que, como ele, há alguns outros imortais, que só podem ser mortos tendo suas cabeças cortadas por um outro imortal, e que, em um ponto no futuro, os poucos que sobrarem se encontrarão para duelarem até que sobre apenas um, que receberá um grande prêmio e a imortalidade definitiva ("There can be only one!!!).

(um dado importante: ao contrário do que pensam algumas mães de jogadores de futebol, Highlander não apenas não é o nome dele - e sim uma referência às Highlands, região montanhosa da Escócia de onde ele se origina -, mas também não se escreve "Railander"... hehehe)

Além da premissa, a maneira de contar a história também é bem interessante, alternando épocas antigas (como a Idade Média), onde aos poucos vai entendendo o que se passa, e aprende a lutar com um mentor também imortal (Sean Connery), com os dias atuais, onde aguarda o confronto final enquanto relembra sua longa vida, na qual vive o conflito de não envelhecer junto aos que ama, enquanto assume de vez em quando uma nova identidade para não ser descoberto.

Claro que há pontos ruins no filme também. Tirando o mito Sean Connery, os atores não são grande coisa (Christoper Lambert surgia como uma promessa nessa época, que nunca se concretizou propriamente - era apenas seu segundo filme em inglês, língua que havia aprendido há pouco tempo), os efeitos especiais também não são fantásticos. Nada que tire a graça e o interesse sobre o filme.

Mas ainda falta falar do que, na minha opinião, é a principal razão do filme ser o que é:





Sua trilha sonora. Um dos poucos casos que conheço de que a trilha inteira do filme é feita pela mesma banda (excluindo, claro, compositores de "scores" instrumentais como Ennio Morricone ou Alan Silvestri), e ainda com o detalhe de que eles compuseram a trilha com o filme já quase pronto, e portanto puderam se inspirar na história e nas imagens para a composição. Diz-se que eles tinham sido contratados apenas para uma música, mas quando viram o filme, cada um deles passou a trabalhar inspirados nas cenas que mais gostaram. Brian May compôs "Who Wants to Live Forever" no táxi voltando para o hotel, e Roger Taylor usou a frase "It´s a Kind of Magic" como base para a tão famosa música, que toca nos créditos finais. E tudo isso com a genialidade de Freedie Mercury nas interpretações. Não tinha como dar errado. Assim como já falei sobre Mamma Mia, com essa trilha o filme nem precisava ser muito bom para ser memorável. E ele é muito bom.

Nota: 7,0

PS: Apenas não esqueça de uma coisa: nunca, mas NUNCA, sequer considere as continuações. Assista apenas ao primeiro. Sério.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de tus Ojos, 2009)


Já que parte da culpa de eu ter sumido por tanto tempo do blog foi o fato de ter viajado para a Argentina, achei justo que o texto de retorno fosse sobre um filme argentino, até porque nunca falei sobre nenhum aqui. Não vi muitos; assim, escolhi o mais recente (e, na minha opinião, o melhor) dentre os que vi: O Segredo dos Seus Olhos (era esse ou Evita...).

Ricardo Darín (o Wagner Moura deles, porém mais onipresente, se é que isso é possível) faz o papel de um investigador veterano, aposentado, que resolve escrever um livro sobre um dos primeiros casos em que se envolveu, e que permanece não resolvido. Ao revisitar as pessoas envolvidas na investigação da época, pode acabar encontrando novos fatos relativos ao caso, e ter que enfrentar fantasmas de seu próprio passado que haviam sido deixados de lado.

O filme é excelente, algo passional (afinal, é um filme latino), mas sem os exageros do cinema espanhol. Mistura bem os dias de hoje com as passagens em flashback, e a investigação do caso com a própria vida pessoal do protagonista, que ao mesmo tempo que investiga o assassinato, envolve-se com sua chefe casada (Soledad Villamil). Mas o que impressiona mais é a maturidade do roteiro, além do balanço perfeito entre uma história um tanto universal com aspectos da vida na Argentina.



Aqui cabe uma comparação: por serem vizinhos, e por terem passado um pouco pelas mesmas situações ao longo de sua história (e até pela rivalidade, por que não?), Brasil e Argentina tendem a ser comparados em quase tudo, incluindo futebol, política, desenvolvimento... pois bem, quando confrontados em termos de produção cinematográfica, ao menos nos últimos anos, não é novidade para ninguém que estamos muito atrás. Ultimamente, no Brasil, existem basicamente 3 tipos de filmes: aqueles estilo "Globo" (Se Eu Fosse Você, Muita Calma Nessa Hora), que são basicamente versões mais longas de programas ruins; os ultra-mega-alternativos-cabeça (Paraísos Artificiais, Apenas o Fim), cheios de maneirismos de escola de cinema e com pouca "substância"; e os clássicos favela-movies, que até vieram de bons exemplares (Central do Brasil, Cidade de Deus) mas que hoje mais parecem uma competição de quem mostra mais pobreza, como se o cinema tivesse uma dívida a pagar com o povo brasileiro, mostrando seus sofrimentos.

Voltando ao assunto, essa para mim é a grande vantagem do cinema argentino frente ao brasileiro. Seus filmes, como eu disse antes, são mais universais (só brasileiros - e nem todos - entendem as piadas de Cilada.com, por exemplo), mas sem esquecer o toque local. Além disso, tratam de temas mais variados, como Nove Rainhas (comédia sobre uma quadrilha de ladrões), O Filho da Noiva (drama sobre o envelhecimento), e tantos outros. Ou seja, foge do "veja os problemas de nosso país, precisamos fazer alguma coisa" que tanto vemos por aqui.

Faltou dizer que o filme é ótimo, bem desenvolvido, com uma história que prende a atenção (e um "plot-twist" no final daqueles de deixar a boca aberta), e que dosa bem o crime investigado, os dramas pessoais, e a situação no país durante a ditadura, sem se tornar monotemático ou desinteressante. As atuações são ótimas, assim como o roteiro e a fotografia. Um de vários filmes argentinos que vale a pena ver.


Nota: 8,4 (39o na minha lista de filmes favoritos)

domingo, 2 de setembro de 2012

Viagem à Lua (Le Voyage dans la Lune, 1902)


O post de hoje é mais uma homenagem que uma crítica. Li na internet que hoje faz "apenas" 110 anos que esse filme foi lançado. É considerada a primeira ficção científica da história do cinema, criada pelo escritor visionário francês Georges Meliès.

É impressionante que um filme desse tenha sido criado apenas 7 anos depois da data considerada como a invenção do cinema. Em 1895, aconteceu o que foi considerada a primeira sessão de cinema do mundo, com a apresentação do filme Chegada do Trem à Estação no "cinematógrafo" dos irmãos Lumière. Até então, as únicas tentativas bem-sucedidas de apresentação de imagens em movimento eram praticamente individuais, e apenas com o cinematógrafo foi possível mostrar um filme a uma audiência maior (cerca de 30 pessoas na primeira sessão).

Os primeiros filmes eram essencialmente "documentários", ou seja, filmagens de cenas cotidianas. Meliès foi um dos primeiros a de fato criar roteiros, utilizando recursos como trucagem, sobreposição de imagens e efeitos visuais. Viagem à Lua é um de seus primeiros filmes. Com apenas 15 minutos (o conceito de "longa-metragem" ainda não era o mesmo de hoje - inclusive, por se tratar de um filme mudo, a duração pode variar de acordo com a velocidade de projeção), o filme mostra um grupo de "cientistas" (que parecem mais bruxos) viajando para a Lua em um foguete disparado por um canhão. Chegando lá (na cena mais conhecida do filme, onde o foguete aterrissa no "olho" da Lua), os cientistas encontram uma civilização que lá vive (os selenitas), são aprisionados, fogem e voltam à Terra, onde são recebidos com festa.


A mistura de ficção e fantasia é fascinante. Ainda "descobrindo" a nova arte, Meliès se livra das amarras da realidade, mostrando os corpos celestes humanizados, habitantes da Lua, além das cenas do lançamento serem muito inventivas. É curioso imaginar como os pioneiros do cinema imaginavam e criavam, sem os "padrões" estarem estabelecidos. Muitos anos antes do cinema colorido ter sido inventado, esse filme foi mostrado colorido, sendo que cada um dos mais de 13 mil fotogramas foi pintado à mão (por sinal, essa versão colorida foi dada como perdida até 1993, quando uma cópia em estado quase de decomposição foi achada na Espanha. Foi restaurada e mostrada no Festival de Cannes de 2011).



O filme completo pode ser visto abaixo. É um documento de uma época, do nascimento de uma arte, e merece muito ser visto:


Como eu disse, essa não é uma crítica e sim uma homenagem. Portanto, não faz sentido falar em minha nota para esse filme, já que ele nem pode ser comparado aos filmes que normalmente avalio aqui. O que vale mesmo é esse registro, e acho muito notável o quão rápida é a evolução do cinema, que pode nos dar uma jóia dessas em apenas 7 anos, e ter chegado onde chegou em apenas 110. E esse blog (especialmente esse post) é um reconhecimento a essa grandeza.