terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, 2012)


(este texto se refere ao filme. Para ler sobre o livro, clique aqui)

Indicado a oito Oscars, o filme O Lado Bom da Vida é uma comédia romântica de certo modo diferente, fugindo um pouco do modelo batido de casal que luta contra tudo para ficarem juntos. Conta a história de Pat (Bradley Cooper), que, após pegar sua esposa com outro homem, quase o mata, tem diagnosticado um distúrbio bipolar, e acaba passando oito meses em um hospital psiquiátrico. Ao sair, seu principal objetivo é reconquistar sua esposa, até que conhece Tiffany (Jennifer Lawrence) uma garota estranha que também teve seus problemas psiquiátricos ao ficar viúva, e que pode (ou não) ajudá-lo a atingir seu objetivo.

E o que a fez ser uma "comédia romântica diferente"? Bom, o filme "presta mais atenção" aos personagens, especialmente Pat. Fica claro desde o início que a tal "ameaça a Pat e Tiffany ficarem juntos" não é a ex-esposa dele, que por sinal está mais presente em sua cabeça do que na sua vida. São eles que têm que evoluir e se acertar, lutando contra seus problemas para voltarem a viver em paz. Além disso, o relacionamento entre os dois nunca é o foco principal, e apesar de torcer por eles, o espectador não vê idas e vindas de um casal sendo mostradas como o que realmente importa no filme. Isso é legal.


O filme lida com as "dificuldades psiquiátricas" dos protagonistas de uma maneira leve, mas não leviana. É justamente a jornada de Pat para superar seus problemas (com o apoio de sua família, seu terapeuta, e, em última análise, de Tiffany) que diferencia o filme, especialmente quando ele percebe que ajudar Tiffany pode ser o caminho não apenas para tentar se reconciliar com sua esposa, mas também algo que deve ser feito. O filme não segue o caminho dos conflitos reais, tudo acaba se resolvendo muito facilmente, mas ainda assim você consegue sentir a evolução de Pat e Tiffany como personagens.

Os atores estão muito bem. Bradley Cooper abandona um pouco a imagem de galã vazio (construída especialmente nos filmes da série Se Beber Não Case) e entrega uma atuação honesta, enquanto Jennifer Lawrence começa a se estabelecer como atriz, embora achei que podia dar um pouco mais de profundidade no papel da "louquinha adorável". Além deles Robert de Niro, que não precisa provar mais nada, está bem como o pai, que também tem seus distúrbios, e se divide entre a vontade de ter seu filho próximo, e seu vício em apostas. Chris Tucker está irreconhecível como o amigo que Pat faz no hospital (ele era o apresentador bizarro de O Quinto Elemento, e é seu primeiro filme desde 1997 que não é da série A Hora do Rush).


Agora, o que não gostei do filme: li o livro semana passada e me decepcionei um pouco. Claro que o livro é sempre mais complexo, aprofundado e portanto, mais rico como história que o filme, em praticamente todos os casos, mas nesse caso o foco da história é diferente. Por exemplo, o livro não é uma comédia romântica, e a própria evolução dos personagens acontece de maneira muito diferente. Sem entrar em detalhes aqui (tem um post sobre o livro no meu outro blog, link no topo), o que aconteceu foi que demorou para que eu percebesse que, basicamente, estava vendo outra história, só que com os mesmos personagens e a mesma linha mestra de acontecimentos. É impossível dizer o que eu teria achado se só visse o filme, mas é possível sim admirar ambos, cada um em sua esfera.

Sugiro também que leiam o livro, mesmo que já tenham visto o filme. Não se preocupem com perder o interesse por já saberem o fim da história: os finais são muito diferentes. Até a cena de dança estilo Pequena Miss Sunshine do final, apesar de acontecer também no livro, tem um contexto e um desfecho muito diversos.

Em resumo, não é o melhor filme do mundo, não deve ganhar Oscar, mas é uma comédia romântica acima da média. Vale a pena.

Nota: 6,0


sábado, 9 de fevereiro de 2013

Apocalypse Now (1979)


"Ah, o horror, o horror!". Considerado um dos melhores filmes de guerra já realizados (para mim, o melhor), Apocalypse Now carrega no realismo ao retratar a Guerra do Vietnã, sua violência, condições sub-humanas, e a insanidade de seus quase 20 anos de duração. Conta a história do Capitão Willard (Martin Sheen), que parte em uma missão secreta para localizar e assassinar o Coronel Kurtz (Marlon Brando), que supostamente enlouqueceu e se transformou no chefe de um grupo de extermínio dentro do próprio Vietnã.

O (longo) filme se passa durante essa jornada de Willard rumo ao coração do Vietnã, em busca de Kurtz, mostrando diferentes aspectos da guerra: as missões suicidas e sem razão aparente, a extrema crueldade dos americanos contra os vietnamitas, e, em especial, a sensação de que ninguém sabe direito o que está fazendo ali.


Ao mesmo tempo acompanhamos também a lenta "queda na real" de Willard. Já no início do filme ele está perdido, sem perspectivas, sem ver sentido na vida nem no Vietnã nem em suas voltas para casa: "Quando eu estava aqui, queria estar lá; quando voltei para lá, tudo que eu podia pensar era em voltar para a selva". Durante sua missão, várias das facetas da guerra vão se mostrando, e sua opinião sobre toda a insanidade que vai presenciando também evolui ao longo do filme.

Tecnicamente, o filme é quase perfeito: a filmagem nas Filipinas empresta um ar de autenticidade às locações, a trilha sonora é impressionante (misturando The Doors, Beach Boys e Rolling Stones com a Cavalgada das Valquírias, de Wagner, em uma épica cena de bombardeio), e o roteiro tem o exato grau de confusão suficiente para envolver o espectador na história sem entregar o que vai acontecer em seguida. Minha única ressalva nesse ponto é a versão do diretor ("Redux"), com 49 minutos a mais, que foi a que assisti, e em vários momentos "quebra" o ritmo da história com "sub-plots" inteiros meio desnecessários, o que mostra que a edição original tinha o ponto exato de roteiro ideal.

O interessante é que tão famoso quanto o filme acabou sendo o período de filmagens, tão atribulado que o filme quase não saiu: Martin Sheen estava bêbado e se feriu durante a filmagens das cenas iniciais no hotel, e depois teve um ataque cardíaco, que foi encoberto por Coppola como se fosse estafa, para que o filme não fosse interrompido; Marlon Brando se apresentou 40kg mais gordo e sem ter lido nada do roteiro, querendo improvisar todas suas cenas; a filmagem, em vez de 5 meses, durou 16, e mais 2 anos foram necessários para editar o filme.


As atuações, claro, são um capítulo à parte. O elenco que Coppola teve à disposição para esse filme não apenas é estrelado como estava inspiradíssimo, apesar (ou por causa) das péssimas condições de filmagem. Lawrence Fishburne (o Morpheus de Matrix) mentiu a idade durante a audição e foi escalado para o filme com 14 anos; Harrison Ford faz uma pequena, mas marcante aparição como o militar que passa a missão a Willard; Robert Duvall (talvez um dos atores mais subestimados de sua geração), também em uma participação pequena, onde diz a famosa frase "Eu amo o cheiro de napalm pela manhã" e bombardeia uma praia apenas para que os soldados possam surfar; Dennis Hopper e seu jeito "hippie", vivendo um repórter-investigativo que é cooptado pelo "culto" a Kurtz; e, claro, Sheen e Brando, antagonistas com opiniões parecidas, e adversários do mesmo lado da guerra, mais uma das insanidades de um conflito já visto na época como sem propósito.


Tudo isso monta um dos filmes mais importantes da história do cinema, e um dos cartões de visita de uma geração de diretores (Coppola, Spielberg, Lucas, Scorsese) que, a partir dos anos 70, transformou o cinema, para o bem ou para o mal, e que, no caso de Coppola, teve a coragem de meter o dedo na ferida de uma guerra que havia acabado de terminar, e que ainda tinha implicações na Guerra Fria por mais de 10 anos. Caso ainda não tenha visto, e se estiver lendo esse texto assim que eu o publiquei (ou seja, está na internet em um sábado de carnaval), aproveite o tempo livre e dê um jeito de ver. É uma experiência edificante.

E ainda querem me convencer que Guerra ao Terror (que ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2011) é um excelente filme de guerra. Please....

Nota: 8,5 (30o. na minha lista de filmes favoritos)


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Madagascar (2005)


Não sei porque, mas não costumo falar muito sobre animações e/ou filmes infantis aqui, então acho que está na hora de mais um, que por sinal, minha filha de 4 anos adorou (assistiu a trilogia inteira em uma sentada só, o que para uma criança dessa idade é um milagre): Madagascar. A história fala sobre 4 animais do Zoológico do Central Park que, em uma tentativa de voltarem a seu "habitat", acabam criando uma confusão na cidade e são enviados por engano para a ilha de Madagascar, juntamente com um grupo de pinguins que mais parecem um grupo de mafiosos. Chegando lá, têm seu primeiro contato com a "vida selvagem", sendo recepcionados por um grupo de lêmures e passando pelo choque da adaptação.

O filme segue a tendência das animações mais recentes, principalmente desde Toy Story em 1995, de "abrir" seu público-alvo, com uma história voltada para crianças, mas com detalhes ou algumas piadas que só os adultos entendem. Imagino que isso tenha a ver com a mudança no poder de criar trazido por Toy Story (que foi a primeira animação computadorizada de longa metragem lançada no grande cinema), já que possibilitou aos estúdios e produtores se livrar um pouco das amarras de até então, que resultavam em filmes basicamente limitados a histórias infantis clássicas ou transposição de super-heróis. Ajudou nesse processo também o sucesso da Pixar, cujos filmes de animação transformaram o segmento em algo muito diferente.



Aliado a isso, percebeu-se que o público adulto ajuda muito nas receitas de ingressos, merchandising e no próprio "recall" dos filmes. Acho que nunca vi uma criança elogiando Wall-E, mas sim vários adultos. Mesmo Shrek e Madagascar, que são da Dreamworks e não da Pixar, seguem o mesmo caminho.

Madagascar não é uma das obras-primas da animação recente, mas é bem divertido. Tanto para adultos quanto para crianças. Minha filha adorou os personagens, a história, o visual e as aventuras. Veio me pedir pra mostrar no mapa onde ficam Nova York e Madagascar. Eu gostei de algumas piadas, referências de outros filmes e também da história como um todo.

Outra coisa que eu gostei, e gostaria de destacar aqui foi a dublagem. Em geral, não gosto de filmes dublados, acho que perde muito da qualidade e da expressão original dos atores. Não questiono, em geral, a qualidade da dublagem brasileira, mas sim o "clamor" popular pela dublagem que vem acontecendo recentemente (outro dia fui ao cinema e a garota do caixa avisou "olha, é legendado, viu?", como se pedisse desculpas). Agora, em filmes para crianças, por motivos óbvios, é necessário. E, nesse caso, essa necessidade se transformou em algo bastante divertido, especialmente pela "atuação" de Guilherme Briggs (que fazia a voz do Freakazoid, por exemplo) como o Rei Julien, personagem muito engraçado que os animais do filme encontram em Madagascar.



A personalidade do personagem é passada de maneira brilhante por essa atuação (que supera muito a dublagem original, de Sasha Baron Cohen, o Borat). Inclusive é dele o principal momento do filme: o clip musical "Eu me Remexo Muito", parte importante do "Hit Parade" de músicas aqui de casa. Ou seja, a Manu adora. E eu também:


Em resumo, um filme muito legal, daqueles que não me importo de ver mais vezes (e quem tem filho pequeno sabe da taxa de repetição do que os pequenos mais gostam), e, principalmente, bem feito e sem a síndrome recente de tratar as crianças como burros ou de ter a necessidade de passar mensagens educativas a cada frame (uma criança de 4 anos não precisa ter palestra sobre trabalho em equipe no desenho que assiste em casa, né?). Ou seja, uma ótima animação, para adultos e crianças.

Nota: 7,5

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012)


Após um sucesso estrondoso (e merecido) da trilogia O Senhor dos Anéis no cinema, foi apenas uma questão de tempo até que se acertasse a filmagem de O Hobbit, que na série de livros se passa bem antes dos eventos de O Senhor dos Anéis. Na verdade, foi o livro que deu origem a tudo, uma história infantil de J.R.R.Tolkien, da qual puxou o momento em que Bilbo "ganha" o anel de Gollum para ser o ponto de partida para sua trilogia mais famosa (e que demorou 17 anos para ser escrita).

Já no cinema, como sabemos, o caminho foi o inverso. O livro que precede a trilogia começou a chegar aos cinemas apenas em 2012, quase dez anos depois de O Retorno do Rei. E esse, para mim, é um dos seus problemas. Enquanto o livro tem uma inocência quase infantil (embora o conceito de livro infantil tenha mudado bastante nessas décadas), o fato do filme vir depois de uma trilogia de tanto sucesso o carrega de uma responsabilidade que antes não tinha. Não basta uma história leve de alguns anões e um hobbit em busca de um tesouro. Tudo tem que ser maior, mais longo, mais grandioso... e talvez tenha havido um exagero aí.


Me refiro, inicialmente, à decisão de filmar O Hobbit também como uma trilogia de filmes. Veja bem, a minha edição de O Hobbit tem menos de 300 páginas, enquanto O Senhor dos Anéis (livro único) chega a 1100. O resultado é que esse primeiro filme (inicialmente seriam 2, agora 3) é muito arrastado. As cenas claramente duram demais, parece que eles ficam 70% do tempo andando... e até o vilão é "adaptado", uma vez que o personagem Azog não participa do livro, tendo sido retirado dos apêndices escritos por Tolkien, onde é descrito como um grande matador de anões.



Claro que visualmente o filme é maravilhoso, as cenas de batalha e os cenários são muito bem criados, e que o material original de Tolkien dá um toque de roteiro excelente à história. Outro detalhe positivo é a famosa cena "Adivinhas no Escuro" ("Riddles in the Dark"), que acontece neste filme, e mostra como foi afinal que Bilbo colocou as mãos no famoso anel que, tempos depois, geraria uma "guerra mundial". A cena é bem feita, o Gollum parece cada vez mais realista e Martin Freeman é um bom ator, que capta muito bem o personagem, suas hesitações e sua evolução ao longo do filme.

Falando nisso, as atuações são boas, embora não cheguem ao nível da trilogia original. Além de Freeman e Andy Serkis como Gollum, os principais personagens não comprometem, embora em vários momentos seja difícil distinguir os anões entre si. Ian McKellen (que acho um ótimo ator) aparentemente entrou em um piloto automático com Gandalf, o que não é ruim, mas não necessariamente bom.

O que me preocupa mesmo é a divisão em 3 filmes, e a famosa "síndrome do filme do meio" principalmente. O primeiro filme apresenta os personagens e estabelece seus objetivos, enquanto o último tem a (geralmente grandiosa) batalha final e a vitória redentora. Mas o que teremos no segundo filme? Mais anões andando e sendo atacados por "bandidos aleatórios"? Ou, como eu disse quando vi o filme, se as águias deixassem os anões um pouco mais pra frente, economizava um filme inteiro....


Mas aparentemente, eu fui um dos poucos que não gostou tanto assim do filme, já que ele bateu vários recordes de arrecadação em apenas 3 semanas de exibição. E, pensando bem, mesmo com tudo que falei, o filme é bom, nos leva de volta a um universo fantástico, e claro que estarei na fila na estréia do próximo...

Nota: 7,0

PS: Enquanto escrevia esse texto, descobri na internet que hoje (3 de janeiro) é aniversário do nascimento de Tolkien (que nasceu em 1892). Fiquei duplamente honrado: primeiro por ter feito essa "homenagem" involuntária com o post, e segundo por também ter nascido em 3 de janeiro, dividindo pelo menos esse detalhe biográfico com o mestre.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

De Volta para o Futuro (Back to the Future, 1985)


É responsabilidade demais falar sobre esse, que é um dos meus filmes preferidos, provavelmente o que assisti mais vezes na vida, e que foi mais importante na minha formação como criança/adolescente nerd do que a série Star Wars. Deve ser por isso que demorei tanto para falar dele. Mas, tudo alguma hora chega, então vamos lá.

Esse filme saiu quando eu tinha 8 anos, e como os outros todos que estão em sua frente no meu ranking são filmes que vi depois, durante um tempo foi meu filme favorito (só desbancado em 1989 - adivinhem - por De Volta para o Futuro Parte 2). Para mim, era (é?) o filme perfeito: comédia, ação, viagem no tempo, tiradas interessantes, momentos emocionantes, suspense.... tudo sem exagero, equilibrado, e conspirando para um filme empolgante.



Mas o que exatamente o faz tão interessante? Para mim, a história. Um garoto adolescente normal, como tantos outros (e com quem tantos podem se identificar, portanto), que tem uma namorada, uma banda (que não parece que vai fazer sucesso), e é amigo do cientista maluco local, em uma cidadezinha chamada Hill Valley. Um dia, no entanto, esse cientista o chama para ajudar a testar a invenção do século: uma máquina do tempo instalada em um carro. Algumas coisas saem errado e, quando vê, Marty está no ano de 1955, conhece seus pais quando adolescentes e acaba interferindo no início do namoro dos dois. Agora tem que desfazer o que fez para não ameaçar sua própria existência.

E é aqui que está a grande diferença do filme: a viagem no tempo (que eu adoro) é um meio e não um fim. O principal se passa em 1955, onde o choque cultural entre Marty e a geração anterior, aliado à sua incredulidade em aceitar que seus pais, tão conservadores, tinham sido adolescentes como ele (a cena em que ele, assustado, vê sua mãe com decote, bebendo e ainda é beijado por ela é fantástica - mas foi o que fez a Disney recusar o filme, pois uma mãe beijando seu filho seria algo inimaginável em seus filmes) traz situações muito interessantes, e uma vontade real de saber o que vai acontecer (como ele resolve o problema dos pais, e se consegue voltar para seu próprio tempo). Como qualquer filme que envolve viagem no tempo, tem alguns (poucos) furos de roteiro e paradoxos, mas nada que comprometa a qualidade geral.


As piadinhas e paralelos entre as duas épocas no filme também são sensacionais. O jeito que o valentão da cidade trata o pai de Marty no passado e no presente, o tio presidiário  que "adora ficar no cercadinho" no passado, e, claro, ele se empolgando ao tocar Johnny B. Goode na década de 50, e o guitarrista da banda ao telefone: "Chuck, aqui é seu primo Marvin Berry. Lembra aquele som que você estava procurando? que tal isso?". Absolutamente genial.


Aliás, a trilha sonora também merece destaque. Além da já citada Johnny B. Goode, o tema do filme (que, se toca no carro, me faz acelerar automaticamente para chegar a 88 milhas por hora), e as demais músicas de Huey Lewis compõem uma ótima trilha. Os atores também estão ótimos, Michael J. Fox praticamente "virou" Marty McFly por boa parte de sua carreira (e, por estar filmando a série Caras e Caretas na época, só podia fazer suas cenas à noite), e Christopher Lloyd também é um Doc Brown memorável.

Provavelmente não consegui transparecer aqui toda a minha empolgação com esse filme. Mas, como acredito que quase todo mundo já viu, acho que não preciso convencer ninguém a assisti-lo. É outro daqueles filmes que você pode até não gostar, mas nesse caso eu é que vou gostar um pouco menos de você :-)

Nota: 9,3 (9o. colocado na minha lista de filmes favoritos)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Queda (Der Untergang, 2004)


Como eu já disse antes, o nazismo e a II Guerra Mundial estão entre os assuntos mais retratados pelo cinema. Não à toa, já que foi uma das épocas que definiram o século XX. Um pouco mais raro é o cinema alemão (e os alemães em geral) abordar o assunto, já que, apesar dos quase 70 anos que se passaram, o assunto ainda é de certo modo tabu na sociedade alemã. Muitos ainda se perguntam como foi possível que a sociedade inteira de seus antepassados pudesse fazer parte (ou pelo menos compactuar) de um dos maiores genocídios da história.

Só por isso esse A Queda já seria algo a se destacar. Com uma visão crua e direta focada nos últimos dias de vida de Hitler, já cercado em seu bunker de Berlim, e aceitando a realidade de uma guerra perdida, o filme traz justamente essas questões: "O que fez com que as pessoas acreditassem tão cegamente nesse homem e nessa causa? Até que ponto tinham ou não opção de se opor?"

Mas o filme, claro, tem outras qualidades. Baseado em um livro escrito por Traudl Junge, sua secretária particular, o filme se passa em menos de uma semana, entre o aniversário de 56 anos do "Führer" e o final da guerra na Alemanha, com seu suicídio e a rendição do país. E a caracterização desse período é assustadora de tão boa. O clima claustrofóbico, a tensão da derrota e da invasão dos russos, o dilema entre o medo de morrer e a devoção a Hitler, tudo contribui muito para um filme extremamente realista e muito bom. Mas talvez o principal fator de sucesso do filme seja a atuação de Bruno Ganz como Hitler. É assustador o quanto ele incorpora o papel, tendo estudado discursos e conversas privadas do líder alemão, além de comportamento de pacientes de Parkinson, e juntado isso tudo de maneira extremamente competente. A principal cena do filme, mostrando a reação dele ao descobrir que não tem como evitar a tomada de Berlim, colocando a culpa em seus generais, ficou tão famosa que já foi "legendada" com todos os assuntos possíveis, de mudança de time de jogador de futebol americano a discussões sobre Harry Potter. Um primor:


Mas um ponto que me agrada demais no filme é a "humanização" da figura de Hitler. A mente das pessoas trabalha melhor com conceitos extremos: uma pessoa é bonita ou feia, honesta ou corrupta, boa ou má (e até por isso, por exemplo, novelas são tão calcadas nessa dicotomia). Para nós, é de certo modo reconfortante achar que podemos identificar o mal absoluto, ou seja, que alguém capaz de fazer as maldades que Hitler fez  não seja considerado humano, assim como nós. Enxergá-lo como uma pessoa "comum", com amores, temores, emoções, virtudes (por que não?) e falhas quebra esse "conforto", mostrando que heróis e vilões também são como nós, são feitos do mesmo material, e mostram que nós também temos nossas virtudes e defeitos. E isso é fascinante.

Nota: 8,2 (48o. na minha lista de filmes favoritos)



PS: Fazia tempo que eu queria falar desse filme, por ser um filmaço. No entanto, os acontecimentos de ontem acabaram me incentivando a antecipar essa resenha. Fica aqui a "homenagem" ao time do Palmeiras, não apenas pelo nome do filme (A Queda), como também na cena seguinte (o pessoal é rápido...)


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Juno (2007)


Recentemente, é difícil um ano em que um filme considerado "independente" não faça um sucesso considerável. Filmes como Pequena Miss Sunshine, Juno, Guerra ao Terror e O Artista foram bem sucedidos comercialmente, e mostram que nem sempre a estrutura dos estúdios é totalmente necessária para que um filme fique conhecido (embora mesmo filmes independentes acabem contando com estruturas de divulgação dos estúdios), gerando filmes diferentes, com histórias que não ficam amarradas à aprovação de produtores profissionais, garantindo em tese uma maior liberdade de temas e abordagens.

Juno foi um dos primeiros a marcar essa tendência, contando a história de uma adolescente que fica grávida do melhor amigo de maneira inesperada, e tenta seguir sua vida, muitas vezes sendo a mais madura entre todos que a cercam. É um filme simpático, com uma personagem principal cativante (a ótima Ellen Page, que descobriu uma reserva de mercado de papeis de adolescente precoce em filmes onde a atriz precisa ser maior de idade), e muito pontuado justamente por esse estilo "indie", no tema, na abordagem, e até na trilha sonora.

Mas, na minha opinião, não é um filme tão bom. A impressão que dá é que diretor/roteirista se preocuparam tanto em serem descolados em cada cena, cada diálogo, cada música, que perderam a mão na dose. Não é dizer que filme de gravidez na adolescência precisa necessariamente ser um dramalhão, onde a garota sente que perdeu sua vida e é castigada pela imprudência, coisas do tipo. Mas também fica irreal se ela não está nem aí (ainda mais porque a personagem não é construída como alguém que "não está nem aí"), e está mais preocupada em novas bandas independentes ou em dar respostas espertinhas o suficiente para parecer uma personagem de Gilmore Girls.


O filme parece se passar em uma versão fofinha, otimista e descolada do universo real. Mesmo as cenas de conflitos, problemas e dificuldades parecem passar sem grandes traumas, como se aquilo de fato não tivesse acontecido, ou como se não fizessem diferença na história que o filme quer contar. Primeiro ela não quer ter o filho, depois quer, aí acha um casal adotivo, gosta deles, se envolve com o futuro pai adotivo sem nem perceber, indiretamente causa a separação do casal, entra em crise porque quer uma família para o filho, depois sai da crise, fica feliz, conversa com a amiga no ultra-hypado telefone de hamburger, dispensa o amigo, gosta do amigo, canta com o amigo... e nada disso parece fazer muito efeito na história nem na personagem, que meio que termina o filme como começou. Ah, mas as 18 citações ultra-indies por minuto estão lá, e é isso que importa. Para que se preocupar com o futuro se podemos falar de bandas semi-desconhecidas?



Outra coisa que não ajuda é a atuação de Michael Cera, que faz o papel do amigo de Juno. Com ele, a nova geração de atores que só fazem o papel de si mesmos continua bem representada (para orgulho dos patronos Nicholas Cage e Jack Nicholson). Apesar de ter melhorado um pouco em Scott Pilgrim Contra o Mundo (pelo menos a ponto de não estragar o filme), e sabendo que o papel exigia um pouco isso dele, o ator está muito apático, muito abaixo da interpretação de Ellen Page, ela sim uma ótima atriz, não apenas aqui como em filmes como MeninaMá.com e A Origem. Mas não apenas Michael Cera como todo o elenco de apoio parecem estar meio no automático, sem muita paixão nos papeis. E isso, para mim, tirou qualquer envolvimento que eu pudesse ter com a história.

Mas que profundidade dramática tem esse rapaz!

A iniciativa de filmes independentes para fugir das restrições dos grandes investidores para mim é ótima. Mas nem todo filme "mainstream" é necessariamente ruim, e nem todo "indie" é necessariamente ótimo. E nem todo mundo que fala de filmes é necessariamente coerente e inteligente :-)

Ainda bem. E viva a diversidade.

Nota: 6,0